Internet Society preocupada com vigilância e diminuição da liberdade online

Inquérito a académicos, activistas e especialistas resultou numa lista de cenários negros para os próximos anos.

Os inquiridos receiam que a inteligência artificial possa comprometer o anonimato
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Os inquiridos receiam que a inteligência artificial possa comprometer o anonimato Reuters/YUYA SHINO

Inteligência artificial que rouba empregos e vigia, reconhecimento facial que divide a sociedade, e o aumento do controlo governamental da Internet são alguns dos alertas no mais recente relatório anual da Internet Society, uma organização não-governamental que defende uma Internet aberta.

“Fizemos um exercício único, muito diferente de um trabalho académico normal, onde passámos quase dois anos a entrevistar centenas de pessoas na nossa comunidade, académicos e activistas, só para perceber o que os preocupa sobre o futuro digital e da Internet”, explica ao PÚBLICO Constance Bommelaer de Leuse, directora de política global da organização.

No total, o relatório de 2017 da Internet Society, publicado esta segunda-feira, baseia-se em cerca de três mil inquéritos, 100 entrevistas e dez debates entre profissionais do ramo em 160 países.

Os cenários descritos são ousados. Em 2022, por exemplo, o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial capazes de funções rotineiras (como preencher relatórios ou pesquisar informação) pode levar a uma escassez de jovens com experiência profissional na área que estudaram. O relatório dá o exemplo de advogados em início de carreira que podem ser substituídos por algoritmos, impedindo-os de ganhar experiência e confiança para outros trabalhos mais complexos que requerem seres humanos.

“São provocações sobre o futuro”, admite Bommelaer de Leuse. “Queríamos dar uma projecção clara do que o futuro pode ser de modo a suscitar o debate sobre o relatório. O objectivo é ilustrar as forças que vão moldar o uso da Internet e tecer recomendações para negócios, governos e organizações de advocacia.”

O desenvolvimento dos sistemas de inteligência artificial foi dos temas mais focados. “As tecnologias de reconhecimento facial baseadas na inteligência artificial podem melhorar a experiência dos utilizadores nas redes sociais, mas as mesmas tecnologias podem melhorar a vigilância e comprometer o anonimato”, lê-se no relatório.

Noutro cenário apresentado, os espaços públicos passam a oferecer estes serviços para ajudar a polícia e os serviços de emergência a responder mais rapidamente a ameaças.É uma tecnologia que já se vê em 2017. Na China, as autoridades da cidade de Qingdao utilizaram a tecnologia para registar as caras dos visitantes do Festival Internacional de Cerveja e passá-las pela base de dados nacional da polícia para identificar antigos criminosos (alguns foram detidos mais tarde, por posse de drogas ou furtos durante o evento). E em Portugal a Vision Box desenvolve soluções de portões de embarque em aeroportos que usam reconhecimento facial (uma tecnologia que a Europa quer adoptar também para controlar a imigração).

Os membros da Internet Society preocupam-se que, nos próximos anos, pessoas oriundas de uma zona considerada pouco segura possam ser impedidas de entrar em determinadas áreas. “O resultado é o aumento da segregação, com a população mais carenciada afastada de bairros ricos e áreas do centro da cidade porque um algoritmo determina que ultrapassam um nível de ameaça”, lê-se no relatório.

“A protecção do direito ao anonimato é essencial online e offline”, frisa Bommelaer de Leuse. "Ilustra a complexidade dessas temáticas. É complicado quando se têm de criar politicas que o defendam e, ao mesmo tempo, obriguem as pessoas a responsabilizar-se pelo que dizem online."

Apesar dos cenários pesimistas apresentados, criados para ilustrar a urgência do debate, Bommelaer de Leusse nota que a maioria dos jovens inquiridos, especialmente em países em desenvolvimento, mostravam-se optimistas sobre o futuro da Internet e dos meios digitais para melhorarem as suas vidas.

“Este relatório não quer prever o futuro”, frisa a directora de política global da Internet Society. “Ao ouvir diferentes ideias e perspectivas queríamos perceber os temas mais urgentes. A ideia de que os problemas só podem ser resolvidos com o aumento da vigilância é um cenário muito tenebroso, que apenas acontece se os governos não abrirem o diálogo sobre o futuro digital".

Correcção: O nome completo da directora de política global da Internet Society, Constance Bommelaer de Leusse, não aparecia na versão inicial desta notícia.