Reportagem

Com 67 anos, Maria de Fátima teve a sua primeira consulta no dentista

A Unidade de Saúde Familiar do Monte da Caparica foi a primeira a disponibilizar médicos dentistas na região de Lisboa e Vale do Tejo, no âmbito de um projecto-piloto que se estende também a alguns locais do Alentejo. Mais de 22 mil consultas foram já realizadas.

Projecto-piloto abrange 11 centros de saúde, nos quais trabalham 12 médicos dentistas
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Projecto-piloto abrange 11 centros de saúde, nos quais trabalham 12 médicos dentistas Daniel Rocha

Para a maior parte dos doentes que a médica dentista Margarida Morais atende na Unidade de Saúde Familiar (USF) do Monte da Caparica, Almada, distrito de Lisboa, essa passagem pelo seu gabinete é a primeira consulta de tratamento dentário das suas vidas. Antes, no máximo, tinham ido a dentistas para extraírem dentes já sem cura, tal era o nível de degradação. Sem dinheiro, não podiam tratar-se mais cedo. Maria de Fátima Sousa é um desses casos frequentes: tem 67 anos e teve a sua primeira consulta na passada sexta-feira.

“Hoje foi a primeira vez que vim ao dentista e já tenho duas consultas marcadas para tratar de outro dente. Estou contentíssima”, diz Maria de Fátima ao PÚBLICO. A Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) foi a primeira e entrar no projecto-piloto de saúde oral nos cuidados de saúde primários que arrancou a 13 de Setembro do ano passado. Abrange 11 centros de saúde nos quais trabalham 12 médicos dentistas. Que realizaram, até 31 de Agosto, 19.505 consultas, segundo dados fornecidos pelo Ministério da Saúde.

O projecto de levar dentistas aos centros de saúde chegou depois ao Alentejo, às unidades de Portel e Montemor-o-Novo, onde dois médicos asseguram os cuidados à população. De Outubro a 31 de Agosto foram realizadas 3178 consultas.

De acordo com informações da ARSLVT, nos primeiros três meses de existência, o projecto na região abrangia "os doentes portadores de diabetes, neoplasias, patologia cardíaca ou respiratória crónica, insuficiência renal em hemodiálise ou diálise peritoneal e transplantados”. Apenas esses eram referenciados pelos médicos de família, completa a médica da USF do Monte da Caparica, onde é possível fazer limpeza (destartarização), extracção, restaurações, desvitalizações. “Tudo menos os tratamentos estéticos – como próteses, aparelhos, implantes ou coroas."

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A partir de Janeiro deste ano, todos os utentes passaram a ter acesso a consultas de Medicina Dentária. Para quem está isento, a consulta é gratuita. Nos restantes casos, uma taxa moderadora de sete euros é cobrada.

Pouco tempo para tratar de si

Neste gabinete, que serve os concelhos de Almada e Seixal, a médica Margarida Morais e a assistente de medicina oral Vera Caldeira recebem “pessoas muito carenciadas, vulneráveis, que precisam de ser orientadas” e “muitas pessoas depressivas”. A dentista recorda o caso de uma senhora que dizia não ter dinheiro para comprar paracetamol para lhe aliviar as dores. “É uma realidade chocante", refere a médica. Uma realidade "muito diferente" da que encontra na clínica particular em que trabalha aos sábados para não perder a prática dos outros tratamentos não abrangidos por este programa, como as próteses.

Nas consultas aparecem sobretudo idosos. Maria de Fátima Sousa pouco tempo teve para tratar de si. Toda a vida trabalhou nas limpezas, em turnos de madrugada e noite, ou em casas particulares, deixando os quatro filhos sozinhos, porque também o marido “era só trabalhar”.

“Trabalhei numa firma de limpezas em Lisboa, saía às 4 horas da manhã de casa, entrava às 6h na Praça de Espanha, vinha para Almada a meio do dia para trabalhar numa casa particular e regressava a Lisboa para os turnos da noite. E mesmo assim não tinha dinheiro para ir ao dentista. A gente para acudir ao marido e aos filhos vai ficando para trás. Hoje foi a primeira vez que eu fiz uma limpeza aos dentes. Faz parte do tratamento”, diz Maria de Fátima.

Tirou as suas primeiras férias com 55 anos e nesse Verão de 2005 teve finalmente tempo para realizar os primeiros exames médicos da sua vida. Soube que tinha cancro.

Quase sorri, quando diz, como se falasse de coisas simples: “A minha vida é muito complicada.” Perdeu um filho toxicodependente e tem uma filha e o marido com a vida toldada por uma doença oncológica. Não sabe o que o futuro lhe reserva mas não perde a oportunidade que agora tem de tratar os dentes. 

Situações urgentes

Também são referenciadas pessoas mais novas, entre os 30 e 40 anos, e essas estão habitualmente no desemprego. Vêm igualmente crianças, embora com menos frequência por beneficiarem do cheque-dentista que lhes permite serem acompanhadas num consultório privado. “Mas hoje em dia, ainda há algumas falhas no sistema, e eu não rejeito as crianças que chegam referenciadas pelos médicos de família”, diz Margarida Morais.  

Nos últimos meses, várias situações impressionaram esta médica: como a de um menino de dez anos que chegou com “uma infecção gigante que estava a drenar para fora da cara”, conta. Tinha sido a escola a chamar a atenção da mãe “que era muito descuidada”. A situação era de tal maneira grave, com risco de septicemia, que o menino teve de receber tratamento com urgência para o Hospital de Santa Maria.

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A médica Margarida Morais recebe “pessoas muito carenciadas, vulneráveis, que precisam de ser orientadas” e “muitas pessoas depressivas” Daniel Rocha

Uma outra criança de sete anos tinha um dente definitivo de tal forma degradado que necessitava de substituição por uma prótese. Teve de ser encaminhada. Margarida Morais, que lamenta nestes dois casos, e noutros, “o desleixo dos pais”, refere ainda a situação, que muito a marcou, de uma mulher de 21 anos, diabética, que tinha apenas três dentes, com prótese de cola.

Aqui foi criada “uma boa oportunidade para uma pessoa que não tenha possibilidades financeiras” ser acompanhada por um dentista, diz Rosa Fátima Ferreira, que tentou agendar uma primeira consulta na sexta-feira. Tem esperança de ser vista nos dias seguintes, e de poder marcar ela própria a consulta. Mas o processo será mais demorado: terá de passar pela médica de família, antes de o seu nome aparecer no sistema a que tem acesso a médica dentista e aguardar pelo menos dois meses na lista de espera que aumentou muito desde que todos os utentes passaram a poder ser abrangidos.

Não vai suportar dois meses de dores, queixa-se Rosa Ferreira à assistente de medicina oral que a informa que aqui, ao contrário do hospital, “não há urgências”. O mesmo acontece nos dez outros centros de saúde da região de Lisboa e Vale do Tejo onde o programa foi lançado: Mafra-Ericeira e Lourinhã, Alenquer, Arruda dos Vinhos e Azambuja, Rio Maior, Cartaxo e Salvaterra de Magos, Moita e Fátima. O que há, assegura a médica Margarida Morais, da USF do Monte da Caparica, são tratamentos iniciados e garantidamente terminados.