Em Dublin o passado é um paraíso privado

John Banville procura-se na geografia de uma cidade. Retalhos de Um Tempo é um livro de memórias que indaga acerca do modo como o passado pode ser uma invenção. Isso enquanto pergunta quem foi para ficar mais perto de saber quem é.

Uma ponte sobre o Canal Grande, em Dublin, referida 
em <i>Dublinenses</i>, o célebre livro de contos de James Joyce
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Uma ponte sobre o Canal Grande, em Dublin, referida em Dublinenses, o célebre livro de contos de James Joyce Alain Le Garsmeur/Getty Images

A memória mais nítida de uma vida pode ser o premir do rosto contra o vidro da janela de um comboio em andamento. John Banville tinha 18 anos e repetia a viagem anual a Dublin a partir da sua Wexford natal. Desde que se lembra, era assim a cada 8 de Dezembro, o dia da Imaculada Conceição, uma viagem para celebrar o seu aniversário num feriado na Irlanda Católica.

Banville é agora um homem de 70 anos a recordar aquele longínquo fim de tarde. Regressava a Wexford e chorava, escondendo as suas lágrimas do olhar da mãe e da irmã. “Não saberia dizer ao certo por que razão chorava assim, em silêncio, num sofrimento atroz, de punhos cerrados e lábios apertados para impedir que algum soluço se fizesse ouvir, mas, agora que recordo aqueles momentos, creio que era porque qualquer coisa estava a chegar ao fim, estava a ser desmontada e guardada, como uma tenda de circo; estava a converter-se, em suma, no passado.”

É uma memória para indagar acerca da misteriosa questão de como o passado se transforma em passado, a pergunta que atravessa o mais recente livro do escritor irlandês John Banville, Retalhos do Tempo, Um Memorial de Dublin, que a Relógio d’Água publica agora na sua colecção de viagens. Esta é uma viagem à volta da identidade, umas memórias escritas numa forma que desafia o género enquanto o questiona e se questiona a si na vida. No livro, Banville vai atrás da cidade do passado como quem se procura nela e, ao formular o enunciado “Quem foi?”, tenta chegar à reposta a outra pergunta: quem é? O que é que os edifícios que vê, os jardins e as ruas por onde continua a caminhar, a água que corre nos canais em direcção ao rio Shanon lhe devolvem sobre si? Evocando Proust, Banville procura na cidade perdida um tempo perdido e constrói um livro de memórias singular onde o protagonista — o próprio Banville — quase se apaga, aparecendo episodicamente, muitas vezes de modo quase fantasmagórico, na história da sua relação com aquela paisagem urbana.

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Dublin por volta de 1900, com os eléctricos ao longo do rio Liffey e a Ponte O’Connell ao fundo Sean Sexton/Getty Images

Estamos perante um homem muitas vezes melancólico, mas visitado pela ironia e com grande poder de observação, atenção ao pormenor, sabedoria e exposição de ideias. Sobre arte, literatura, costumes, amor, morte, família, sonhos, processos criativos. O conjunto resulta numa escrita iluminada, de uma simplicidade desarmante. São pouco mais de 200 páginas, pontuadas por fotografias, quase todas a preto e branco, da autoria de Paul Joyce. São quase todas imagens da cidade; Banville aparece apenas em três, e sempre de costas. Na primeira, olha o canal junto a uma árvore. Chapéu na cabeça, mãos nos bolsos. Talvez seja Primavera. A roupa é leve e as copas de todas as árvores em volta estão repletas de folhas. “Imagino que todos possuamos um lugar especial que constitua uma espécie de paraíso privativo, o Céu para onde gostaríamos de ir depois da morte, se é que temos de ir para algum lugar. Para mim, aquele trecho de água plácida e juncos rumorejantes, com o caminho de sirga ocre-escuro que vai desde a Baggot Street até à Lower Mount Street, é a paisagem mais encantadora que conheço”, escreve Banville, confessando logo no início que Dublin nunca lhe pertenceu. Como homem, mas sobretudo enquanto escritor, como paisagem das suas ficções. Antes dele, nessa cidade, existiram outros. W. B. Yeats, Patrick Kavanagh, Samuel Beckett, Brendan Behan, e, acima de todos, James Joyce. “Para mim, enquanto escritor a fazer o seu tirocínio, a verdade é que Joyce se apropriara da cidade para fazer os seus fitos literários e, ao fazê-lo, exaurira-a, assim como Kafka fizera com a letra K, a tal ponto que aquela urbe deixara de ter préstimo para mim como cenário da minha ficção.”

Deambulando

A Dublin de Joyce tornou-se depois a Dublin de outros escritores, referencial e reverencial, que em cada pedra passaram a procurar traços de Ulisses, refazer o Bloomsday, o único dia em que se seguem os passos do protagonista, Leopold Bloom, pela geografia da cidade, e se traça uma dublinesca, palavra para um deambular literário que se tornou título de um livro de Enrique Vila-Matas. “Hora: onze da manhã/ Dia: Bloomsday/ Lugar: Meeting House Square, uma praça surgida do lugar onde, há um século, se concentrava a totalidade da comunidade quaker de Dublin...” Vila-Matas ensaia uma espécie de palco para uma acção de reconstituição de espaço de criatividade singular. Banville percorre-o de modo fragmentário, falsamente diletante, como que se reconstitui, criando uma personagem-guia que o vai levando, certeiro, aos sítios que importam. Chama-lhe Cícero, de cicerone, e faz-se seu companheiro de exploração. “O meu amigo Cícero conhece uma Dublin de cuja existência poucos se apercebem ou que outros esqueceram que alguma vez existiu, ao longo de uma vida inteira como empreiteiro, construtor civil e coleccionador, reuniu um imenso acervo de conhecimentos obscuros e secretos acerca de uma cidade oculta — oculta dos olhares distraídos, é claro.”

Encontram-se num pub em North Strand onde há um mapa com todos os faróis da baía de Dublin. “É uma encantadora manhã de Maio, repleta de luz. Os raios de sol brilham através da névoa delicada, semelhante a musselina, o ar suave está impregnado do aroma dos lilases, e lá longe, nas extensões trigueiras do areal de Sandymount, onde Stephan Dedalous outrora caminhou sobre ovamarinha e algamarinha enquanto procurava com olhos míopes decifrar as assinaturas de todas as coisas que ali fora enviado a ler, o céu alvacento brilha e reverbera que nem a superfície interna de uma enorme bolha de sabão. Cícero e eu, um par de velhotes estouvados, seguimos na estrada para sul, no seu pequeno descapotável desportivo vermelho, para vermos a fachada e a parede lateral, demolidas mas cuidadosamente preservadas, do edifício onde funcionou originalmente o Abbey Theatre.”

São as mesmas ruas. Baggot Street, Merrion Square, Fitzwilliam Street, Abbey Street, Marlborough Street, a baía de Killiney, o Prospect Cemetery, a Vico Road, “um vicus espaçoso de recirculação”, como lhe chamou James Joyce no início de outro livro, Finnegans Wake. Cruzam-se muitos livros e escritores pelas praças, teatros, pubs, jardins de Dublin. Em Dublinesca (Teorema, 2010) Vila-Matas elenca os grandes temas literários joycianos, e não só, no momento em que o protagonista do seu livro chega a Dublin. “O passado já inalterável, o presente fugitivo, o inexistente futuro”.

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O escritor irlandês, aqui num hotel em Lisboa no ano passado, publica Retalhos do Tempo, Um Memorial de Dublin na colecção de viagens da Relógio d’Água dr

Banville, no seu deambular pessoal, cita o poeta Philip Larkin. “Sempre ávidos do futuro, nós/ Queremos que o tempo passe veloz.” E Banville a perpassar as etapas da sua vida enquanto vai discorrendo sobre a história de Dublin. “... há nos tijolos usados para construir grande parte da Dublin georgiana qualquer coisa de especial e único. As pessoas falam de casas de ‘tijolo vermelho’, mas o vermelho é a cor mais rara que ali se encontra: as tonalidades vão do cor-de-rosa carregado, passando pelo amarelo-cádmio e pelo amarelo-ocre, até ao garança de textura gredosa e ao ocre da terra de Siena queimada, tudo isto salpicado de manchas minúsculas, de um azul purpurino, estranhamente aquático, de brilho sombrio, que a luz parece pôr em relevo somente em certos crepúsculos do Verão tardio. Os cambiantes de cor alteram-se subtilmente a cada hora que passa, da palidez matinal quando chove, ah, quando chove os tijolos brilham e luzem como os flancos de um puro-sangue lançado a galope.”

Todas as luzes de uma cidade nos tijolos que a erguem segundo um dos mais brilhantes escritores irlandeses, autor de 18 romances, uma colectânea de contos, seis peças de teatro, dois livros de viagem e dez policiais assinados com o pseudónimo Benjamin Black. Uma obra que lhe valeu muito prémios, entre eles o Booker Prize e o Príncipe das Astúrias para Literatura. O problema de escrever sobre a vida na escrita é que ela é muito triste, o mais excitante que nela ocorre passa-se na imaginação, disse mais ou menos assim num texto a propósito destas suas memórias publicadas originalmente no ano passado, quando o escritor natural de Wexford tinha 70 anos. “Cheguei a Dublin já perto do final da Era McDaid, quando os borrachos e fala-baratos literários estavam a dar as últimas. Via Behan e Kavanagh aqui e além. (...) Quanto a Flann O’Brien-Myles na Galoppenn-Brian O’Nolan só o encontrei uma vez, quando, num crepúsculo outonal, ao lusco-fusco, o avistei a cambalear ao longo da Grafton Street, deserta àquela hora, com o chapéu às três pancadas e as abas do casaco a adejar ao vento gélido de Outubro, uma figura triste, encharcada em álcool.”

Dublin foi a segunda morada de John Banville depois de Wexford, 150 quilómetros a sul, junto ao Canal de S. Jorge, no Leste da Irlanda. “Foi no início da década de 60 que abandonei a minha povoação natal e me mudei para Dublin. E ‘abandonei’ é a palavra certa. Durante os primeiros dezoito anos da minha vida, passados em Wexford, encarei esta terra como um mero ponto de passagem a caminho de outro lugar qualquer. Tinha tão pouco interesse na cidadezinha que nem sequer me dei ao trabalho de decorar o nome da maior parte das ruas. Do ponto de vista do estímulo à imaginação, a indiferença com que encarei a minha terra natal, a sua história e a vida complexa e subtil dos seus habitantes foi não apenas arrogante, mas também palerma, e constitui, além do mais, um desperdício. O facto de em torno de mim existir um mundo suficientemente interessante para merecer a atenção de um artista (...) é abundantemente atestado pela obra de escritores de Wexford como Colm Toibin, Eoin Colfer e Billy Roche, os quais, em especial Roche, converteram num tesouro de moedas preciosas aquilo que eu me limitara a encarar como um vil metal, nas poucas vezes em que me dignei atentar no que me cercava.”

A vida é sempre noutro lugar

Banville deixa aqui a interrogação acerca do efeito da envolvência na criação. Esse ambiente onde se cresce e vive é uma espécie de forma a que o artista adere ou que rejeita, mas a que nunca parece indiferente.

Primeiro foi Wexford, depois Dublin. Como é que uma e outra cidade se reflectem na obra do escritor? São ignoradas no sentido em que mesmo quando surgem podiam ser outro lugar qualquer. Nisso compara-se à mãe: “... a vida era sempre noutro lugar”. O que quer sublinhar, no entanto, é a sua convicção de que “a imaginação é o único lugar genuíno onde devemos viver na plenitude.” Nesse sentido, a cidade real está sempre a ser confrontada com a cidade sonhada, o sonho em que o passado se vai transformando quando passa a memória, lugar favorável ao eclodir da imaginação. Que fui? Passa a ser uma quase invenção.

Como imaginar todos os passos no empedrado gasto de uma rua. Os passos de Joyce, Beckett, Kavanagh, Behan, Seamus Heaney, Yeats, Orson Welles, Wittgenstein, Patrick O’Brien, George Bernard Shaw, a tia Nan, solteirona, em casa de quem apagava as velas do bolo de aniversário e com que viveu quando se mudou para a cidade. Nas pedras gastas está a memória do tempo perdido. Nesse polido dos passos, Banville busca uma essência. “... enquanto escritor não me preocupo nem nunca me preocupei com aquilo que as pessoas fazem — isso, tal como Joyce diria, com o seu típico desdém joyciano, cabe aos jornalistas —, mas sim com aquilo que elas são. A arte é um esforço constante para superarmos os meros afazeres quotidianos da humanidade, para assim alcançarmos a essência do que é, pura e simplesmente, o ser, ou pelo menos para nos tentarmos aproximar o mais possível dessa essência.”

O olhar sobre o quotidiano e as figuras que o habitam serve para aprofundar essa essência a que, no seu entender, o escritor tem tanto direito de discorrer como o filósofo. Quem sou eu? Quem fui eu? Continuam a ecoar no empedrado, na transparência da água dos canais, na luz que metamorfoseia. Sou tudo o que vi, pisei, ouvi, li, parece ouvir-se. O aborrecimento da mãe na cidade de província, a rotina sem tréguas do pai que nunca viu correr, a ousadia da tia solteirona. Sou também o modo como a linguagem muda, continua a parecer escutar-se a voz de Banville. Dizia-se ‘solteirona’ em vez de ‘celibatária’ e pequeno-almoço tardio em vez de brunch. Quem leu Banville sabe da sua atenção a estas nuances. Dublin é a paisagem e quem a habita, a sua história, as suas lendas, o modo como se escreveu e escreve sobre ela.

Em Dublinenses, o célebre livro de contos de Joyce, Eveline olha a avenida a partir da janela, o cheiro a cretone das cortinas. “Passava pouca gente. O homem que morava ao fundo da rua passou a caminho de casa; ouviu-lhe o ruído dos passos no passeio de cimento, e depois a rangerem na cinza prensada do caminho que ladeava as novas casas vermelhas. Em tempos houvera ali um campo onde eles costumavam brincar todas as tardes com os filhos de outros moradores. Depois um homem de Belfast comprou o campo e construiu lá casas — não como as suas pequenas casas castanhas, mas casas de cor, com telhados luzidios. As crianças da avenida costumavam brincar juntas naquele campo — os Divines, os Waters, os Dunns, o pequeno Keogh aleijadinho, ela e os seus irmãos e irmãs. Ernest, porém, nunca brincava, era crescido de mais. (...) Apesar de tudo, parecia que tinham sido bastante felizes nessa época. O pai ainda não era tão mau; e depois a mãe ainda era viva. Já lá ia muito tempo; tanto ela como os irmãos e as irmãs já eram crescidos; a mãe morrera. Tizzie Dunn também morrera, e os Waters tinham voltado para Inglaterra. Tudo muda. Agora era ela que se ia embora como os outros, ia sair de casa.”

John Banville caminha por Dublin também com tudo o que já se escreveu e cada uma das personagens de ficção parece ganhar a mesma dimensão dos seus criadores, das pessoas que os inspiraram e a cidade real vai acolhendo uma multidão de fantasmas que alimentam a imaginação. O lugar de sonho e o lugar real convivem como habitam no mesmo homem o que foi e o que é. Todos os tempos e todas as possibilidades. Banville referiu a “intemporalidade mágica destes lugares e das utilizações que lhes damos”. Estamos sempre no campo da literatura. “Quantos estratos de tempo estou a abranger aqui, em quantas camadas imbricadas do passado assentam os meus pés?”, assombra-se nessas deambulações entre passado e presente, e nisso constrói-se. “... o septuagenário aqui sentado neste dia chuvoso de Primavera, a escrever este quase-memorial, é também aquela criança que, com a pança cheia de salsichas, bacon e bolo da pastelaria Kylemore, partiu naquele longínquo dia de Dezembro, a bordo do autocarro número 10, com destino ao centro da cidade (...), olho para trás e vejo um estranho de sete anos que ainda sou eu. “

É como um escritor a inventar uma personagem, verídica ou melhor, verosímil: ele próprio.