Esponja que absorve mercúrio do ambiente criada por portugueses

É como uma receita culinária: óleo vegetal, enxofre e sal de cozinha e o resultado é um material que pode ser uma das soluções para a poluição do mercúrio, em actividades como a extracção de minério ou a agricultura.

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Mercúrio líquido Diego A. Marino/Creative Commons

O mercúrio volta a entrar em cena. Desta vez, a novidade não são normas e metas que regulamentam este contaminante, mas uma esponja fácil de produzir, barata e eficiente. Trata-se de um material capaz de reter altas concentrações de mercúrio e que foi criado por uma internacional com coordenação portuguesa.

Mas como é produzido este material esponjoso, para fazer face a este metal tóxico que contamina o ar, a água e os solos? É bastante simples. Mistura-se óleo vegetal de fritar com enxofre (um subproduto da produção petrolífera disponível a larga escala) durante 20 minutos a 180 graus Celsius, adiciona-se uma pitada de sal de cozinha e voilà: esponjas de coloração acastanhada, aptas a reter elevadas concentrações de mercúrio. Quimicamente falando, trata-se de um polímero poroso de compostos de enxofre. A “receita” foi publicada num artigo na revista europeia Chemistry.

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Polímero fabricado com óleo de canola antes de absorver o mércurio IMM

O óleo alimentar pode ser virgem ou já usado e de três tipos – azeite, canola ou girassol. Mas a eficácia não varia, garante o bioquímico português que coordenou este estudo, Gonçalo Bernardes, do Instituto de Medicina Molecular (IMM) de Lisboa, em parceria com Justin Chalker, da Universidade de Flinders, na Austrália. No entanto, as esponjas que absorvem mais mercúrio são as que, numa escala de 0 a 100%, têm uma percentagem de 50% de enxofre.

Há duas razões para o sal de cozinha entra na “receita”, embora o cloreto de sódio não seja um dos constituintes do produto final, explica Gonçalo Bernardes: “este ingrediente é essencial para o processo porque as esponjas obtidas ficam mais porosas e a sua superfície de contacto aumenta.”

E a verdade é que no final – já após ter sido absorvido o mercúrio –, as esponjas não se tornam novos focos de poluição, assinala ainda o investigador português. “É importante notar que, mesmo após entrarem em contacto com ar, água ou terrenos altamente contaminados, não se tornam tóxicas.”

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Polímero fabricado com óleo de canola depois de absorver o mércurio IMM

Deste modo, talvez estas esponjas antimercúrio venham a fazer parte das estratégias de combate à poluição deste metal tóxico, nomeadamente no âmbito da Convenção de Minamata, cuja primeira conferência está agendada para Setembro, na Suíça. Portugal ainda não faz parte deste tratado internacional, que entrou em vigor este mês e que procura eliminar este contaminante que pode entrar na nossa cadeia alimentar, por exemplo, através do consumo de peixe.

Estas novas esponjas seguem a lógica da economia circular. “Têm duas vantagens: retêm os poluentes e não os desperdiçam”, salienta o investigador do Laboratório de Biologia Química e Biotecnologia Farmacêutica do IMM.

A fase de testes avizinha-se. Já em Novembro, o material será testado na Indonésia para a desinfecção de águas e solos, em parceria com a Pure Earth, uma organização não-governamental ambiental dos Estados Unidos.

“A poluição [em geral] afecta mais de 200 milhões de pessoas nos países em desenvolvimento, especialmente as crianças. Nos lugares mais poluídos do mundo, as crianças perdem entre 30 a 40 pontos do seu QI e sofrem de atrasos mentais e físicos, ao mesmo tempo que a esperança de vida dos adultos pode não superar os 45 anos”, informa o site da Pure Earth.

Mas como e onde são colocadas estas esponjas? Conforme o meio, a aplicação varia. Por exemplo, podem ser colocadas em terrenos agrícolas contaminados, como é o caso das plantações de cana-de-açúcar do Brasil, da Índia e da Austrália, onde são utilizados fungicidas que têm mercúrio na sua composição.

A contaminação por mercúrio também pode resultar da combustão de carvão, refinamento de petróleo ou incineração de lixo, como menciona o artigo da Chemistry.

Cor que muda

A ideia dos cientistas é que estas esponjas venham a ser fornecidas aos agricultores, mas eliminar o mercúrio presente nos solos é, de facto, tarefa hercúlea. “De todos os meios, a aplicação no solo será a mais difícil por questões de escala”, prevê Gonçalo Bernardes.

No entanto, a mudança de cor das esponjas pode ajudar os cientistas a perceber se estão a funcionar ou não. “Testar a sua eficácia torna-se mais fácil porque, após o material absorver o mercúrio, pode passar de um castanho-escuro para um verde fluorescente”, exemplifica o coordenador do estudo.

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Polímero que absorve mercúrio visto ao microscópio electrónico IMM

Actualmente, cerca de 15% do ouro mundial é extraído de forma artesanal e Gonçalo Bernardes conta que no Sudeste asiático e na América do Sul ainda há muitos mineiros a obter amálgamas de ouro das rochas e a transportá-las para casa, para as ferver numa panela com água.

“Estes mineiros artesanais e as suas famílias acabam por inalar o mercúrio altamente tóxico resultante da queima e, muitas vezes, sofrem danos cerebrais irreversíveis”, refere o bioquímico. Relativamente a esta situação, Gonçalo Bernardes diz que o que poderá ser feito é “colocar estas esponjas em painéis por cima do fogão destas casas”. Nas minas, os tais painéis poderão ser construídos a uma escala maior, para que o mercúrio evaporado seja retido.

Em mares, rios e lagos, também poderia libertar-se esta esponja porosa para absorver mercúrio. Para a indústria petrolífera, este material pode ser um óptimo aliado caso ocorra algum derrame de combustível ou maré negra. “Não só seria absorvido o mercúrio prejudicial para a saúde humana e para o ambiente, como também podemos vir a reaproveitá-lo para outros fins”, esclarece Gonçalo Bernardes.

E é este possível reaproveitamento futuro do mercúrio que as esponjas retêm que está agora ser estudado. “Ainda estão a ser avaliados os potenciais usos deste material, mas uma das hipóteses é colocá-lo em incineradoras.”

Texto editado por Teresa Firmino