Crítica Cinema

Estado de graça

Não interessa se Stop Making Sense é ou não o melhor filme-concerto jamais realizado; é, simplesmente, uma obra-prima, com Jonathan Demme a saber filmar os Talking Heads no zénite da sua forma.

<i>Stop Making Sense</i> mantém intacto o “estado de graça”
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Stop Making Sense mantém intacto o “estado de graça”

São muitos aqueles que consideram Stop Making Sense o melhor filme-concerto jamais realizado — e esclareça-se desde já que não vamos ser nós a contrariar essa opinião. Finalmente chegado ao circuito comercial português, mais de 30 anos depois da sua estreia original, Stop Making Sense mantém intacto o “estado de graça” com que, em 1984, registou em filme o zénite de uma banda em pico de forma. A produção de palco, filmada durante a digressão do álbum de 1983 Speaking in Tongues, via a angularidade cerebral de um grupo forjado no cadinho da New Wave nova-iorquina render-se ao abandono sensual e corporal da dança, da soul, da funk.

Começando com o espantoso solo de Psycho Killer para David Byrne (viola acústica e tijolo com ritmo pré-gravado), com o palco a ganhar lentamente forma por trás do vocalista enquanto músicos, estrados, instrumentos e microfones preenchem aos poucos o espaço, Stop Making Sense torna-se numa espécie de ritual tribal onde mente e corpo se fundem lentamente num único todo, com a figura desarticulada de Byrne como foco público dessa conversão quase espiritual ao delírio carnal da dança e do ritmo. É quase como se estivéssemos a assistir a um sermão onde as palavras são substituídas pelos ritmos e pelos passos — e se Byrne é o reverendo xamânico que nos converte ao poder da música, a câmara do recém-falecido Jonathan Demme é a testemunha plena dessa conversão.

Nunca intrusivo mas nunca distante, Demme regista esse ritual com uma entrega discreta, em takes longos que recusam a estética sincopada do teledisco para capturarem a presença em palco de uma banda — de um colectivo que contribui como um todo. Há, é certo, uma ironia no facto de Stop Making Sense filmar uma banda cujo “estado de graça” transportava já em si as próprias sementes da sua gradual desintegração — o movimento de Byrne para o centro do palco não apenas como vocalista do grupo mas também como criador e conceptualizador do concerto e, progressivamente, figura central da cena multidisciplinar nova-iorquina. Aqui, ele é ao mesmo tempo mestre de cerimónias e xamã em transe, James Brown branco e pregador da submissão da mente ao corpo, tal como Demme subordina a imagem à música para atingir algo que não é simples ilustração ou registo de um concerto, mas uma polaroid de um momento no tempo, uma fusão entre imagem e som que raras vezes terá sido tão orgânica e tão precisa. Stop Making Sense é, sem meias palavras, uma obra-prima.