Estudo de bactérias fotossintéticas vale bolsa de 1,5 milhões de euros

Conselho Europeu de Investigação atribuiu bolsa a cientista do Porto.

Proliferação de cianobactérias numa lagoa
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Proliferação de cianobactérias numa lagoa Christian Fischer

Um investigador da Universidade do Porto, Pedro Leão, recebeu uma bolsa de aproximadamente 1,5 milhões de euros para estudar novos compostos naturais de cianobactérias, um grupo de bactérias fotossintéticas que podem ter propriedades anticancerígenas ou antimicrobianas.

A bolsa foi atribuída pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC, na sigla em inglês) e o projecto, designado FattyCyanos – Incorporação e Modificação de Ácidos Gordos em Produtos Naturais de Cianobactérias, vai ser desenvolvido nos próximos cinco anos.

As cianobactérias sintetizem “mais produtos naturais do que aqueles que são conhecidos pela ciência, muitos dos quais incorporando ácidos gordos”, no entanto, para os descobrir, é necessário recorrer a “novas estratégias, mais sofisticadas”, disse à agência Lusa Pedro Leão, do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (Ciimar) da Universidade do Porto.

Segundo o investigador, as cianobactérias incorporam ácidos gordos nos seus metabolitos (produtos resultantes do metabolismo de uma determinada molécula ou substância), tendo alguns deles funções estruturais (como os lípidos das membranas celulares) e outros funções especializadas, sendo estes últimos aqueles que interessam neste projecto.

“Estes compostos que incorporam ácidos gordos são capazes de penetrar nas membranas das células ou interagir com as superfícies celulares, sendo comum terem actividades antibacterianas, antivíricas ou antifúngicas”, explicou o investigador.

As cianobactérias são também especialistas em utilizar diferentes enzimas para modificar os ácidos gordos de uma forma selectiva e eficiente e “muitas dessas modificações não são ainda acessíveis à química orgânica convencional”, havendo interesse nas áreas de catálise e biologia sintética em entender os mecanismos por trás dessas transformações.

Embora o objectivo principal do projecto não seja a criação de produtos, Pedro Leão acredita que os novos compostos de cianobactérias possam actuar nas acções anticancerígenas ou antimicrobianas.

Para além disso, é possível que as enzimas que produzem estes compostos sirvam de “inspiração para que os químicos desenvolvam novos reagentes”, podendo ainda ser aplicadas em microorganismos capazes de sintetizar diferentes moléculas necessárias à actividade humana, como fármacos ou combustíveis, sem recurso à química tradicional.

Para a categoria da bolsa à qual concorreu Pedro Leão, uma subvenção de arranque (ou starting grant), em 2016 foram submetidas 2395 candidaturas, tendo sido financiadas 325. Os resultados de 2017 ainda não foram divulgados.

Pedro Leão, investigador no Ciimar desde 2015, tem vindo a desenvolver um programa de investigação na área da química e biossíntese de produtos naturais, maioritariamente de origem marinha. Realizou o mestrado e o doutoramento na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, tendo efectuado, em 2009 e 2012, períodos de investigação na Universidade da Califórnia (EUA), e em 2014 estudos pós-doutorais na Universidade de Harvard (Também nos EUA).