“Isto já não devia acontecer em 2017.” Urban Beach novamente acusada de racismo e violência

Novo relato de agressões a jovens negros à porta da discoteca lisboeta, que soma queixas nas redes sociais. Alto Comissariado para as Migrações confirma denúncia.

Foto
A discoteca localizada em Santos já foi várias vezes acusadas de racismo, incluindo pelo atleta português Nelson Évora Ana Banha/ARQUIVO

Era mais uma noite quente de Agosto e Ruben, um jovem francês de 20 anos de visita a Lisboa, que prefere que o PÚBLICO não divulgue o seu apelido, chegava à porta da discoteca lisboeta K-Urban Beach, na zona de Santos, com o seu grupo de amigos. Deveria ter sido a etapa seguinte de uma noite de diversão, mas tudo acabou ali, e de forma violenta. Ruben e os amigos, segundo denuncia, foram agredidos pelos seguranças do clube, depois de lhes ter sido barrada a entrada, naquilo que considerou ter sido um acto “racista”. E este será apenas um dos mais recentes episódios de uma longa lista de incidentes em que o espaço lisboeta é acusado de comportamentos racistas e violentos.

O caso denunciado neste artigo aconteceu há duas semanas, a 12 de Agosto. Depois de um grupo de jovens ter entrado à frente dos amigos de Ruben, o grupo do francês (que o jovem descreve como “heterogéneo”, uma vez que era composto por três negros e dois brancos) vê a entrada ser barrada. Os seguranças alegam que decorre uma festa privada e que os jovens teriam de pagar 250 euros para entrar. "Frustrados", estes contestam verbalmente a decisão até que Ruben pede aos amigos que abandonem o local, por considerar que não valeria a pena discutir.

É nesse momento que se dão as agressões. “Comecei a vir embora com a minha irmã e com um dos amigos. Virámo-nos para dizer ao meu outro amigo que não valia a pena e vimo-lo a levar um murro na cara, dado por um dos seguranças”, descreve.

PÚBLICO -
Foto
Fotografia tirada por Ruben na noite do incidente, onde aparece a sua irmã. Os seguranças apontaram lanternas aos telemóveis para impedir que as imagens ficassem perceptíveis, conta Ruben DR

A partir daí, a situação piorou. Ruben conta que pelo menos oito seguranças espancaram os jovens e tentaram estrangulá-los. Um dos amigos, que sofre de asma, terá ficado no chão, praticamente inanimado. Ruben foi pontapeado e esmurrado na cara e nas costelas. A irmã, de 16 anos, “foi arrastada pelo cabelo e tratada muito violentamente”, tal como uma amiga sua.

“Sendo um homem negro, já senti racismo, mas nunca violência a este ponto. Foi a primeira vez que fui agredido por tantos homens, alguns deles maiores e mais velhos do que eu”, disse Ruben ao PÚBLICO, sublinhando que o que mais o incomodou foi a forma como agrediram a irmã. “Nunca vi nada assim”, garante o francês, que estuda Economia e Relações Internacionais numa universidade na Califórnia, Estados Unidos da América.

Contactado pelo PÚBLICO, o Alto Comissariado para as Migrações (ACM) — que coordena a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial — confirmou a recepção de uma denúncia relacionada com o caso e sublinhou que “repudia todas as formas de violência, em especial as que são motivadas por fundamentos raciais ou étnicos ofensivos da dignidade das pessoas”. O ACM indica que o episódio, conforme descrito, “é susceptível de indiciar a prática de ilícitos criminais” da competência do Ministério Público.

“Isto não foi uma interacção entre pessoas bêbedas e seguranças responsáveis. Eram cinco adultos e adolescentes a tentarem divertir-se em Lisboa e um grupo de seguranças racistas e violentos”, descreve Ruben. “Isto já não devia acontecer em 2017”, afirma.

A polícia foi chamada ao local, não por Ruben e os amigos, mas por duas raparigas que estes não conheciam mas que testemunharam a cena de violência. O francês e os amigos optaram por não fazer queixa. “Não apresentámos queixa por causa do que lemos na Internet. Houve centenas de queixas contra a discoteca mas não se resolveu nada”, explica ao PÚBLICO. Além disso, planeara sair de Portugal dias depois, pelo que não lhes seria possível acompanhar o processo na justiça. 

O PÚBLICO tentou por várias vezes obter esclarecimentos por parte da discoteca Urban Beach e conhecer a sua versão dos factos, mas não obteve resposta.

Uma longa lista de denúncias de racismo

Esta é uma história que se repete às portas daquela discoteca lisboeta. Em Junho, o PÚBLICO noticiou que um grupo de jovens disse ter sido impedido de entrar no Urban Beach pelo facto de um dos seus elementos ser negro. “Estava tudo a correr normalmente à entrada até que chegou uma segunda metade do nosso grupo de amigos, onde vinha o nosso colega negro. O segurança mudou de postura e disse que, para entrarmos, teríamos que pagar 250 euros”, contou, à data, um dos rapazes presentes no grupo. Nessa altura, o dirigente da associação SOS Racismo, Mamadou Ba, afirmou que a discriminação racial era uma prática “reincidente” na discoteca.

Em 2014, a denúncia partiu do atleta português e antigo campeão olímpico no triplo salto Nelson Évora. Através das redes sociais, o ex-campeão do mundo denunciou que o seu grupo de amigos, onde se incluíam outros destacados atletas como Francis Obikwelu, Naide Gomes e Susana Costa, foi barrado à entrada do Urban Beach por existirem “demasiados pretos no grupo”. “Estarei a exagerar ou foi mesmo racismo?”, questionava. Na altura, um responsável do Grupo K, proprietário da discoteca em causa, afirmava que algumas pessoas desse grupo não respeitavam o dress code exigido.

Já esta sexta-feira, o Observador noticiou um novo episódio de violência que resultou na hospitalização de uma jovem de 20 anos. Mais uma vez, os seguranças do Urban Beach são acusados de agredir jovens à porta do espaço.

Muitos outros casos não chegaram à imprensa mas são relatados na Internet, onde as denúncias de violência e de racismo somam-se em plataformas como o TripAdvisor, o Google Maps ou o Zomato, bem como nas redes sociais.

No fórum Reddit, um utilizador partilhou uma imagem do seu olho ferido depois de ter sido supostamente agredido por um dos seguranças do Urban Beach. Mais uma vez, o incidente terá acontecido depois de um grupo onde alguns elementos não eram brancos ter visto vedada a entrada. Um dos amigos terá ficado com o maxilar e o nariz partido e uma rapariga, que celebrava o seu aniversário, terá levado um murro por filmar as agressões. Segundo o relato partilhado naquele fórum, os seguranças terão atirado o telemóvel para o Tejo.

Nos últimos cinco anos, a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) recebeu pelo menos quatro queixas por discriminação racial contra a discoteca Urban Beach.