“Temendo pela vida”, ex-procuradora-geral da Venezuela chega à Colômbia

Assembleia Nacional Constituinte assumiu os poderes do Parlamento, ainda controlado pela oposição.

Ortega decidiu sair dizendo que o regime tem medo de si pelas provas que tem de corrupção
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Ortega decidiu sair dizendo que o regime tem medo de si pelas provas que tem de corrupção MIGUEL GUTIERREZ/EPA

Luisa Ortega Diaz, a ex-procuradora-geral da Venezuela que foi destituída no início do mês, chegou este sábado a Bogotá, na Colômbia, para onde fugiu com o marido, German Ferrer, por “temer pela sua vida”.

Esta semana, Ferrer, que era deputado do partido de Nicolás Maduro, tinha sido acusado de corrupção. É suspeito de ter liderar uma rede de extorsão a empresários durante o período que Diaz liderou o Ministério Público. A procuradora foi afastada na primeira decisão da Assembleia Constituinte, há duas semanas. Ambos estavam desaparecidos desde quinta-feira.

Luisa Ortega, 59 anos, diz que as autoridades venezuelanas a perseguem por ter denunciado as ligações ao Governo de Caracas da construtora Odebrecht, no centro do escândalo de corrupção Lava-jato no Brasil, mas com ramificações em vários outros países da América Latina.

A ex-procuradora tinha-se tornado uma voz incómoda no aparelho chavista, por ter começado a expressar o seu desacordo com as decisões de Maduro. "Receava que o Governo me privasse da vida”, explicou à Reuters. Não é claro se Diaz e Ferrer vão pedir asilo à Colômbia, onde chegaram num avião privado vindo da ilha de Aruba, para onde terão viajado numa lancha.

Na sexta-feira, a Assembleia Nacional Constituinte atribuiu-se a si própria o poder de legislar – esvaziando de competências o Parlamento eleito em 2015, em que a oposição é maioritária.

Esta decisão, que não foi uma surpresa, foi duramente criticada por outros países da região. O Departamento de Estado norte-americano juntou-se aos países do Mercosur para condenar esta assembleia com superpoderes – legislar e reescrever a Constituição. “Enquanto o regime de Maduro continuar a conduzir-se como uma ditadura autoritária, estamos preparados para usar todo o poder económico e diplomático americano para apoiar o povo venezuelano no seu esforço para restaurar a democracia”, diz um comunicado do Governo dos EUA.

Na véspera, Ortega Diaz tinha reaparecido para participar telefonicamente numa conferência de procuradores no México, levando o caso para um foro internacional. A Odebrecht terá pago milhões a governantes venezuelanos em troca de contratos no país, acusou. Aconselhou aos magistrados “cuidado” na relação com as autoridades do seu país: "Toda a informação que enviem agora ao Ministério Público da Venezuela será destruída", assegurou.

“Estão muito preocupados porque sabem que temos informação sobre todas as operações, montantes e personagens que enriqueceram na Venezuela”, declarou. Essa investigação, acrescentou, “chega a Maduro e ao seu círculo”. 

No ano passado, a Odebrecht admitiu ter feito pagamentos a responsáveis de vários países da América Latina em troca de contratos. De acordo com as declarações do ex-presidente da empresa, Marcelo Odebrecht, a Venezuela foi o segundo país latino-americano onde foram pagos mais subornos (98 milhões de dólares), logo a seguir ao Brasil.

Em Junho, o Supremo tinha já proibido Ortega Diaz de sair da Venezuela, ordenara o congelamento das suas contas bancárias e iniciou um processo contra ela por supostas irregularidades no exercício de funções. A procuradora rompeu com Maduro depois de este ter decidido esvaziar de poderes a Assembleia Nacional. Para a magistrada, isto significava uma ruptura com a ordem constitucional. 

Em mais um sinal de demonização de Ortega Diaz, o seu sucessor no cargo de procurador-geral, Tarek William Saab, um fiel do regime, classificou-a como "responsável moral" pelas mais de 120 mortes registadas desde o início da actual vaga de protestos contra o regime, em Abril.