Opinião

A Europa há 75 anos: parece que foi ontem

Ao ver como o nacionalismo do ano passado se transformou já no tribalismo deste ano, dá também parecenças de hoje — e esperemos que não de amanhã.

Num dia como hoje, 18 de agosto de 1942, Hitler deu ordens para que os combatentes anti-fascistas da Bielorrússia fossem exterminados “como os judeus”. É um dos indicadores que temos de que na hierarquia nazi já se sabia bem o que significava a “solução final” para os judeus europeus de que Hitler falava desde o início da sua carreira política: não a deportação de massas (entre outras hipóteses mais ou menos fantasiosas, para Madagáscar) mas o extermínio físico, o assassinato coletivo. O genocídio.

O ano de 1941 foi o último em que Hitler esteve a ganhar a guerra; 1942 foi o primeiro em que a guerra esteve perdida para a Alemanha nazi. Essa viragem fez com que “solução final” deixasse de ser um eufemismo e passasse a ser, no tempo que restasse de guerra, um objetivo com método e consequências concretas: deportação para campos de extermínio em vez de campos de concentração; execução a tiro em vez de trabalhos forçados e morte por fome; em breve, gaseamento de milhões de seres humanos. A decisão final sobre a “solução final” terá sido tomada entre o Natal de 1941 e o final de janeiro de 1942. Houve milhões de mortos antes dela; houve milhões de mortos depois. Mas algo mudou entre 1941 e 1942: todos os pretextos territoriais, ideológicos e geopolíticos com que os nazis justificavam a guerra revelaram o seu total vazio e em lugar deles ficou apenas o impulso genocida.

A memorialização da guerra e das ditaduras europeias faz-nos sempre pensar que estas coisas se passavam num mundo com tons de filme a preto-e-branco. Mas não. Há 75 anos havia dias de agosto e de sol, e gente que acordava, vivia e até sorria exatamente com nós, exatamente como hoje. Ao mesmo tempo, já há mais de dez anos que no continente europeu os massacres de proporções até então desconhecidas se sucediam.

As maiores atrocidades deram-se numa faixa de território que vai desde o Báltico até ao Mar Negro, e que abrange a maior parte da Polónia de então, da Bielorrússia, da Ucrânia, dos países bálticos e da Moldávia. Num livro de leitura obrigatória, Terra Sangrenta, do historiador Timothy Snyder (o título original é Bloodlands e a tradução portuguesa está na editora Bertrand), conta-se como as técnicas de assassinato em massa foram primeiro experimentadas nesta zona da Europa por Estaline na Grande Fome da Ucrânia, entre 1930-33, refinadas em simultâneo por nazis e estalinistas na invasão e partição da Polónia, e depois levadas ao paroxismo na Operação Barbarossa (a invasão da URSS pela Alemanha nazi) e na “solução final” dos últimos anos da II.ª Guerra Mundial. Países como a Polónia, a Bielorrússia e a Ucrânia sofreram, sofreram e sofreram: viram os seus estados destruídos e as suas elites intencionalmente dizimadas. Democratas, socialistas, comunistas, liberais, homossexuais, pessoas com deficiência e as comunidades ciganas foram também vítimas dos assassinatos em massa. Quando pensamos no que aconteceu aos judeus europeus, então, as palavras falham: foram desumanizados, perseguidos por toda a parte e assassinados sistematicamente com o propósito de os fazer desaparecer da história. O livro de Snyder dá-nos, a cada capítulo, e às vezes a cada página, um novo murro no estômago: porque se lê com interesse, porque aprendemos muito e porque mesmo assim nos perguntamos como foi possível isto.

E isto sucedeu há menos tempo do que costuma durar uma vida humana: setenta e cinco anos. Parece ontem. Ao ver como o nacionalismo do ano passado se transformou já no tribalismo deste ano, dá também parecenças de hoje — e esperemos que não de amanhã.