Mação é o novo epicentro de um país em chamas

Chamas chegam perto da vila. A23 cortada. Dois bombeiros feridos. Há críticas à actuação da Protecção Civil.

O incêndio de Mação, no disitrito de Santarém, estava na noite desta quarta-feira a rondar o perímetro urbano da vila, depois de ter evoluído ao longo do dia "de forma muito violenta e completamente descontrolada", segundo disse à agência Lusa o presidente da autarquia, Vasco Estrela. Para combater o incêndio, vão ser mobilizados "até 1000 operacionais" de vários pontos do país, adiantou a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, num ponto de situação feito por volta das 23h. 

Uma hora antes, as chamas obrigaram ao corte da A23, nos dois sentidos, e da EN3.

Desde o início da tarde que Mação se transformou no centro das preocupações das autoridades em mais um dia de incêndios, com uma "situação dramática" a obrigar à evacuação da aldeia de Vale de Amêndoa. Os residentes foram levados para a Santa Casa da Misericórdia de Mação, conta o presidente da autarquia. 

A ministra referiu que “estão a chegar reforços a cada minuto a Mação” para lutar contra o fogo “bastante grave” que “evoluiu com muita velocidade em muito pouco tempo”. Constança Urbano de Sousa referiu ainda que grande parte dos incêndios se deve à mão humana, seja de forma “negligente ou intencional”, adiantando que tinham sido feitas 91 detenções de pessoas suspeitas de foto posto — “um recorde”. 

Após as declarações da ministra, o presidente da autarquia de Mação considerou que se os reforços anunciados “tivessem chegado mais cedo, teriam evitado cenários de iminente catástrofe”. “Temos um concelho devastado, destruído, mas certamente vamos recuperá-lo”, concluiu, em declarações à RTP. 

Já perto das 17h, o mesmo autarca afirmara à RTP que dois bombeiros sofreram ferimentos ligeiros em Louriceira, outra aldeia (a dez quilómetros de Mação) que ficou cercada pelas chamas, e onde “algumas casas foram atingidas pelo fogo”. Tratavam-se de habitações devolutas, mas o avanço das chamas fazia temer a destruição de mais edifícios. “Não sabemos bem o que nos está reservado, a situação está completamente incontrolável”, disse Vasco Estrela à TSF.

O incêndio que atinge os arredores e chegou ao centro de Mação começou a cerca de 20 quilómetros dali, no concelho de Vila de Rei, distrito de Castelo Branco, tendo deflagrado em Aboboreira cerca das 00h desta quarta-feira, segundo informação prestada no site da Autoridade Nacional da Protecção Civil. O incêndio em Vila de Rei também continua activo, estando a ser combatido durante a noite por mais de 400 bombeiros.  

Durante o dia, Vasco Estrela criticou a Protecção Civil ao constar que não via "em Mação o número de meios aéreos que estão indicados na página" da ANPC. Ao longo do dia de quarta-feira, houve 15 meios aéreos em acção no teatro de operações. "Alguma coisa está a correr mal", criticou o autarca, acrescentando que, "numa hora crítica, estiveram mais de uma hora sem qualquer meio aéreo". 

Num ponto de situação feito às 19h, a adjunta de operações da Protecção Civil, Patrícia Gaspar, admitiu que a situação em Mação era a que "mais preocupações" inspirava em todo o país. Sobre a aparente discrepância entre o número de aeronaves listadas no site da ANPC e em acção no terreno, a responsável explicou que "dificilmente" se vêem todas as aeronaves mobilizadas a operar ao mesmo tempo, por uma questão de "gestão operacional": ora para abastecer com água, ora com combustível, numa lógica de "rotatividade" com o objectivo de "maximizar os meios no terreno". 

Ao final da noite, cerca de 680 operacionais combatiam o fogo de Mação, apoiados por 210 veículos terrestres. A vila de Mação já tinha sido afectada por incêndios recentemente, no final do mês passado, que obrigaram ao corte de estrada e à evacuação de aldeias. 

Das 141 ocorrências registadas desde a meia-noite de quarta-feira, 12 continuam em curso ao final da tarde. Para além de Mação, outros três fogos eram considerados preocupantes pela Protecção Civil: o de Soure, em Coimbra, o de Vila de Rei, e o de Ribeira de Pena, em Vila Real. Nos próximos dias, face à subida de temperatura e às condições de vento e humidade relativa do ar, há "um agravamento do risco de incêndio", disse ainda Patrícia Gaspar. Às 18h, face ao “número de incêndios que se verificaram na região” e "à necessidade de “preparar todos os meios disponíveis”, foi activado o Plano Distrital de Emergência de Protecção Civil de Santarém. A Protecção Civil prolongou ainda o alerta laranja para os 18 distritos continentais até sexta-feira, 18 de Agosto. 

Chamas com intensidade em Vila de Rei

Outro incêndio deflagrado na noite de terça-feira em Vila de Rei, mas este em Água Formosa e que lavrou com muita intensidade e muitas projecções durante o dia foi dado como controlado pelas 21h, tendo entrado "em fase de resolução", segundo disse à Lusa o presidente da Câmara Municipal, Ricardo Aires.

"Está controlado, o fogo em fase de resolução e estamos a trabalhar no rescaldo, consolidação e vigilância a eventuais reacendimentos", disse Ricardo Aires. "Foi um inferno", disse o autarca, tendo destacado que "não houve registo de feridos" em Vila de Rei durante estes dias em que as chamas percorreram cerca de 50% do território concelhio, assolado por dois incêndios distintos.

Durante o dia de quarta-feira, o vice-presidente da autarquia do distrito de Castelo Branco que confina com o vizinho município de Mação, já em Santarém, afirmara que as chamas estavam descontroladas.

Ainda que o fogo esteja controlado, o município de Vila de Rei mantém o Plano de Emergência Municipal activo desde as 19h30 de domingo, dia em que as chamas entraram no concelho provenientes de um sinistro em Ferreira do Zêzere, tendo obrigado a evacuação de cerca de 15 aldeias e à retirada de 112 habitantes. Para além de Vila de Rei, o plano de emergência continua activo em Cantanhede, Ferreira do Zêzere, Fundão e Castelo Branco; já em Coimbra, o plano distrital de emergência foi desactivado.