Opinião

A dimensão da ignorância

A discriminação nasce da ignorância. As duas devem ser denunciadas.

Começa a já não haver paciência para o discurso de quem se sente no direito de abusar da sua posição privilegiada para atacar minorias sub-representadas. Há quem escreva verdadeiras barbaridades a pretexto da liberdade de expressão e, depois das inevitáveis consequências, se venha queixar.

O problema repetiu-se esta semana, quando um engenheiro da Google decidiu escrever um manifesto contra as mulheres na tecnologia. Acabou despedido e a queixar-se de ter sido injustamente tratado. Infelizmente, este não é um problema limitado aos Estados Unidos, por cá vamos tendo a mesma questão exposta de formas mais ou menos subtis. O branqueamento do discurso ofensivo é um problema real, que se repete ciclicamente de cada vez que um André Ventura ou um Gentil Martins decidem balbuciar disparates em público. Eles têm o direito de dizer o que dizem, mas não podem legitimamente esperar não ser criticados – ou condenados – por isso. E se um engenheiro se sente suficientemente protegido para esgrimir argumentos pseudo-científicos que entende serem suficientes para produzir um discurso insultuoso, é bom que a liderança de uma empresa como a Google tenha sido capaz de explicar que ali não há espaço para a discriminação.

Agora está na moda reagir a críticas com o argumento de se está a prejudicar a liberdade de expressão e a policiar o discurso. É importante desmistificar estas ideias: os limites à liberdade fazem parte da vida em sociedade. Nas democracias, a liberdade conquista-se a pulso todos os dias e faz parte dessa conquista não atacar os direitos alheios. E é preciso ser claro: promover o discurso de menorização de um qualquer grupo é odioso e ignorante. A discriminação nasce na ignorância. Esta combate-se com educação e a denúncia é essencial.

A ausência de mulheres em certas áreas do saber é um problema real. Ela tem consequências dramáticas na sociedade que estamos a construir, que é um ecossistema cada vez mais dependente da tecnologia e da engenharia. Se confiamos essa solução aos homens brancos de classe média-alta, estamos a servir apenas quem quer viver num mundo dominado e pensado por homens brancos de classe média-alta. E sim, este problema é o mesmo dos brinquedos para meninas e meninos, só que amplificado: é o da reprodução de estereótipos que nos limita desde pequeninos e que só terminará quando todos formos capazes de educar a geração que se segue a não discriminar. É que é mesmo só isto.