Será este o verdadeiro Jack, o Estripador?

Um diário vitoriano pode ser a chave para resolver um dos mistérios mais famosos do século XIX. A acreditar nesta teoria que se tenta provar há 25 anos, o serial killer terá sido um rico negociante de algodões que acabou por morrer envenenado. Novo livro sai já em Setembro.

James Maybrick fotografado por volta de 1885
Foto
James Maybrick fotografado por volta de 1885 Hulton Archive/Getty Images

Não é difícil perceber por que é que os crimes de Jack, o Estripador alimentaram dezenas de obras de ficção, tanto na literatura como na televisão e no cinema. Não é difícil perceber por que razão se deixaram fascinar por eles investigadores habituados a seguir pistas e a mergulhar em arquivos, uns mais sérios do que outros. A histeria da imprensa da época, associada à aparente incompetência da polícia e às largas dezenas de teorias à volta do brutal homicida que em 1888 chocou Londres e cuja identidade permanece por apurar, cria um cocktail que pede um guião.

Agora, e segundo o jornal britânico The Telegraph, um grupo de estudiosos do Estripador está em condições de provar que um diário descoberto em 1992, alegadamente assinado pelo homem que em 1888 terá sido responsável pelo assassínio de pelo menos cinco prostitutas no East End londrino, está longe de ser uma falsificação sofisticada, como até aqui têm defendido muitos especialistas.

Neste documento com nove mil palavras, um rico negociante de algodões de Liverpool chamado James Maybrick confessa o homicídio das cinco mulheres em Londres e de mais uma em Manchester e fecha o relato desta forma: “E deixo o meu nome que todos conhecem para que a história conte o que o amor pode fazer a um homem bem nascido. Cordialmente, Jack, o Estripador.”

Bom de mais para ser verdade, disseram em coro muitos dos investigadores que se dedicam a estudar os crimes deste famosos serial killer, colocando em causa a proveniência do manuscrito que em breve vai ser reeditado (25 Years of the Diary of Jack the Ripper: The True Story, de Robert Smith, sai a 4 de Setembro).

Entre os que acreditam ter agora reunidas provas de que o diário é genuíno está Bruce Robinson, o homem que escreveu e realizou Withnail e Eu (1987), um dos filmes de culto do cinema britânico da década de 1980, e que é também o autor do guião de Terra Sangrenta, de Roland Joffé. Robinson defende, no entanto, que, apesar de original, o manuscrito tem dois narradores e que o verdadeiro assassino é o irmão de James Maybrick, um músico de sucesso chamado Michael (já lá iremos).

Segundo o livro que será lançado em Setembro, o diário de James Maybrick foi descoberto sob as tábuas do soalho da sua casa em Liverpool, a Battlecrease House, quando o imóvel entrou em obras no começo dos anos 1990.

Até aqui, sabia-se apenas que o documento fora dado a conhecer por Mike Barrett, um empresário de sucatas desta cidade do Noroeste de Inglaterra que alegava tê-lo recebido de um amigo da família, Tony Devereux; este viria a morrer pouco depois, sem ter revelado como o volume lhe tinha ido parar às mãos.

“Quando o diário apareceu, Mike Barrett recusou-se a dar uma explicação satisfatória sobre a sua origem, mas depois de uma pesquisa meticulosa, feita sobretudo por Bruce Robinson, podemos agora mostrar uma série de pistas que nos levam directamente à casa de Maybrick”, diz ao jornal The Telegraph Robert Smith, que publicou originalmente o diário de que é dono em 1993.

Autenticidade em causa

Barrett era também conhecido nas redondezas da Battlecrease House como um aspirante a escritor e, talvez por isso, terá sido contactado pelos electricistas encarregados das obras de remodelação da casa para que os ajudasse a publicar o manuscrito que tinham encontrado, explica Robert Smith ao jornal inglês. Foi o sucateiro que a 9 de Março de 1992 contactou a agente literária londrina Doreen Montgomery com uma frase que, imaginamos, a terá deixado intrigada: “Tenho o diário de Jack, o Estripador; estaria interessada em vê-lo?...”

O facto de o manuscrito ter sido encontrado sob o chão do quarto do negociante de algodões que viria a morrer em 1889, um ano depois dos célebres assassínios de Whitechapel, e de, no mesmo dia da descoberta, Doreen Montgomery ter recebido o estranho telefonema do homem a quem fora entregue leva Robert Smith a acreditar na sua autenticidade, quando muitos dela duvidam.

“Mike Barrett não era um homem muito culto e a ideia de que seria capaz de produzir uma falsificação tão sofisticada e credível não é sequer remotamente plausível”, defende Smith, em resposta aos que acreditam que o documento é um embuste, produto de uma colagem engenhosa de informações retiradas dos jornais da época.

PÚBLICO -
Foto
O caso foi amplamento difunfifo pela imprensa da época, que considerava escandalosa a incomeptência da polícia londrina DR

Os que contestam a autenticidade do diário viram a sua posição reforçada quando em 1995 Barrett assinou uma declaração em que garantia ter inventado toda a história, confissão que mais tarde retirou. Isto quando os três electricistas que alegadamente o descobriram tinham já negado qualquer ligação ao manuscrito de Maybrick.

Apesar de tudo, Robert Smith nunca duvidou de que o documento é verdadeiro. “James Maybrick é o seu autor mais provável. Será ele Jack, o Estripador? Ele tem de ser um dos suspeitos principais, mas o diferendo sobre a identidade do Estripador pode muito bem durar mais um século, pelo menos.”

130 anos de teorias

Muitos foram os que durante os últimos 130 anos tentaram identificar o assassino que degolara e esfaqueara no abdómen pelo menos cinco prostitutas, quatro nas ruas do East End e outra no quarto onde vivia. Foi precisamente com esta última, Mary Jane Kelly, que o serial killer passou mais tempo, esventrando-a e espalhando alguns dos seus órgãos pelos cantos da pequena divisão.

Estes homicídios, cuja brutalidade apimentada por requintes macabros foi muitas vezes descrita em detalhe, e as sucessivas cartas enviadas à polícia por indivíduos que alegavam ser os seus autores foram amplamente difundidos pelos jornais e originaram uma onda de teorias, algumas envolvendo a casa real britânica.

Entre as mais de 500 pessoas que ao longo de décadas reclamaram a sua autoria ou foram consideradas suspeitas pela Scotland Yard, pelas autoridades policiais da cidade, por investigadores privados e escritores estão pessoas de origens muito diferentes. Do príncipe Alberto Vítor, neto da rainha Vitória, ao cabeleireiro de origem polaca Aaron Kosminski, passando por Randolph Churchill, pai do célebre primeiro-ministro, Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas, Mary Pearcey, uma mulher condenada à morte na forca pelo assassinato da amante do seu companheiro e da filha de ambos, e Walter Sickert, um pintor nascido na Alemanha.

A norte-americana Patricia Cornwell, autora de policiais habituada às listas de bestsellers, está entre os que acreditam que Sickert é o Estripador. O livro que publicou em Fevereiro – Ripper: The Secret Life of Walter Sickert – é o segundo que escreve sobre aquele que é um dos maiores mistérios da história do crime (o primeiro foi Jack, o Estripador: Retrato de um Assassino, editado em Portugal pela Presença) e foi feito, tal como o anterior, com base numa análise exaustiva de provas e documentos.

O ambicioso projecto de investigação custou a Cornwell 5,7 milhões de libras (6,3 milhões de euros) e implicou a contratação de peritos em ADN, detectives privados e até a compra de pinturas de Sickert, explica a ficcionista num vídeo disponibilizado pela Universidade de Leicester.

Cornwell acredita que as vítimas de Jack, o Estripador são muito mais do que cinco – podem chegar mesmo às 20, disse ao jornal The Times, “nunca saberemos ao certo quantas mulheres matou” – e que Walter Sickert, que pintou cenas muito semelhantes às dos crimes e tem até uma obra intitulada Jack the Ripper's Bedroom, não parou em 1888.

A ficcionista encontrou incongruências no testemunho dado pelo artista quando foi interrogado na época – estava em Londres na altura de três dos assassínios quando dizia estar em França, por exemplo – e descobriu que ele usava o mesmo papel, oriundo do mesmo lote, do de algumas das cartas enviadas à polícia pelo alegado homicida.

PÚBLICO -
Foto
Johnny Depp na pele do detective Abberline em From Hell (2001), dos irmãos Hughes, uma das muitas adaptações da história dos homicídios de Whitechapel ao cinema DR

Bruce Robinson discorda, obviamente, desta teoria. O realizador e escritor passou 15 anos a estudar o caso e em 2015 lançou um livro com mais de 850 páginas sobre o crime e os contornos da investigação que é, sobretudo, um retrato da hipócrita Inglaterra vitoriana e do papel que nela tinha a maçonaria. They All Love Jack: Busting the Ripper defende, entre outras coisas, que os homicídios de Whitechapel fazem parte de um ritual maçónico e foram cometidos por um membro desta sociedade.

Charles Warren, comissário da polícia de Londres encarregado da investigação, sabia que o Estripador era um maçon como ele e é até provável que conhecesse o seu verdadeiro nome, escreve Robinson. E foi para proteger a maçonaria que se rodeou de agentes e médicos legistas que a ela pertenciam.

“Parte da ética da maçonaria passa por proteger a irmandade, independentemente do quê e do como – e foi isso que aconteceu”, disse ao The Telegraph há dois anos, aquando do lançamento do livro. “Eles não estavam a proteger Jack, o Estripador, estavam a proteger o sistema que ele ameaçava. Para proteger o sistema, tinham de o proteger a ele. E o Estripador sabia disso.”

A ligação a esta sociedade secular no que ao caso dos homicídios de Whitechapel diz respeito começou a ser feita em 1976 pelo jornalista Stephen Knight, autor de Jack the Ripper: The Final Solution, livro em que avançava a hipótese de o príncipe Alberto Vítor, reconhecido maçon, ser o assassino, imediatamente descartada pelos historiadores da maçonaria em Inglaterra.

James Maybrick, o autor do diário de Liverpool, “adúltero em série que morreu envenenado” (a sua mulher foi condenada pelo crime e mais tarde libertada), também era maçon, assim como o seu irmão, Michael, um compositor muito popular na época que trabalhava sob o pseudónimo de Stephen Adams e que no seu reportório tinha êxitos como Nancy Lee e… They all ove Jack, canção escrita um ano antes dos brutais homicídios. À data, Michael era um homem bem-parecido de 47 anos, solteiro e atlético, provavelmente homossexual, escreve Robinson. “Acredito que Michael Maybrick era um psicopata que odiava as mulheres e a autoridade”, diz ao The Telegraph.

O compositor é o suspeito preferido do realizador, que acredita que o diário encontrado na casa do irmão – escrito em três actos – é uma obra a quatro mãos. O segundo acto, referente aos homicídios, será da responsabilidade de Michael, o homem que se retirou misteriosamente da vida pública depois de lançar mais um êxito e que se refugiou na ilha de Wight, casando com a empregada.

É claro que a credibilidade desta teoria foi contestada como tantas outras, o que não surpreendeu o escritor e realizador que gastou 15 anos e 500 mil libras (550 mil euros) no trabalho de pesquisa que conduziu ao livro. Como foi possível tamanha conspiração? Ele explica ao diário The Guardian como quem aponta uma evidência: “Porque o Estado britânico estava podre até ao osso, o ‘mano’ Jack safou-se. Nada podia ameaçar a maçonaria porque a elite vitoriana não podia funcionar sem ela.”

Provavelmente nunca se saberá quem era o homicida de Whitechapel. A verdadeira identidade de Jack, O Estripador é um daqueles mistérios que parecem destinados a eternizar-se.