Opinião

Os burocratas da indignação

Sempre que abrimos a boca, há hoje um burocrata de indignação a medir cada palavra, e a encontrar nelas curvaturas proibidas.

O pensador alemão Hans Magnus Enzensberger tem um livrinho que eu gosto muito de citar chamado O Afável Monstro de Bruxelas ou a Europa Sob Tutela. É um pequeno ensaio onde reflecte sobre os problemas da burocracia europeia e o seu frenesim regulatório. A explicação de Enzensberger é simultaneamente simples e iluminada: Bruxelas regula muito porque tem muitos funcionários cujo trabalho é regular. No início da construção europeia, essa regulação era uma necessidade real, por ser indispensável uniformizar as principais regras da actividade económica no seio de uma nova comunidade de países. Só que depois de o essencial ter sido feito, o exército de funcionários cujo emprego era produzir regulamentos continuou à disposição, e sem vontade de voltar para casa. Daí Bruxelas ter acabado a regular a curvatura dos pepinos (máximo de 10 milímetros de curvatura para 10 centímetros de comprimento, se querem ser comercializados nos mercados europeus) e a espessura das bananas (mínimo de 27 milímetros).

Estou convencido que as cada vez mais bizarras e escabichadas reivindicações da comunidade LGBTI+, e dos muitos grupos que se entretêm a vitaminar a hipersensibilidade das minorias, padecem do mesmo mal. Como procurei explicar no meu texto anterior (“Breve história da comunidade LGBTQQIAAP”), nos países ocidentais a maior parte dos direitos pelos quais os gays lutaram durante décadas já lhe foram justamente reconhecidos. Só que as organizações pela luta desses direitos continuam a existir, tal como os activistas que dedicaram a vida inteira à causa, envolvendo subsídios do Estado, ordenados, funcionários e uma certa cadência protestativa. Assim sendo, e tal como acontece com os burocratas em Bruxelas, muitos dos membros mais vocais dos grupos que lutam pelos direitos de minorias historicamente oprimidas transformaram-se em burocratas da indignação – hoje em dia protestam contra coisas absurdas porque a sua profissão (nalguns casos, o seu hobby) é protestar.

Note-se: é claro que continuam a existir boas razões de protesto. Enquanto um casal homossexual for incapaz de circular pelas ruas com o à-vontade e as manifestações de carinho de um casal heterossexual, a discriminação continuará a existir. Estas são atitudes que demoram décadas a mudar, infelizmente. Contudo, se olharmos para as mais graves discriminações, existe hoje um consenso social generalizado: já não são permitidas; estão reguladas; a saída do armário é cada vez menos problemática. Há milhares de pessoas dispostas a proteger publicamente os direitos gay, como se viu no caso Gentil Martins. Os gestos discriminatórios são efectivamente considerados inaceitáveis pela maior parte da população. E, talvez por isso, a luta evoluiu. Deixou de estar concentrada nos gestos e nas leis, e passou para o território das palavras discriminatórias – porque é preciso manter acesa a chama do protesto.

O problema é que esse tour de force tem duas consequências profundamente perversas: em primeiro lugar, aliena antigos aliados, porque muitas pessoas que sempre lutaram pelas grandes reivindicações LGBT são subitamente enviadas para o território da homofobia; em segundo lugar, ao saltar da vigilância dos gestos para o policiamento das palavras, invade aquilo que para muitos é o território sagrado da liberdade de expressão. Sempre que abrimos a boca, há hoje um burocrata de indignação a medir cada palavra, e a encontrar nelas curvaturas proibidas. É irritante – e muito insensato.