Turquia avança para detenção de 35 jornalistas

O clima de repressão continua elevado no país de Erdogan. De acordo com as autoridades turcas, os jornalistas são acusados de estarem ligados à tentativa de golpe de Estado.

Oposição acusa Erdogan de se estar a aproveitar do golpe de Estado
Foto
Oposição acusa Erdogan de se estar a aproveitar do golpe de Estado Reuters/MURAD SEZER

A polícia de Istambul emitiu esta quinta-feira mandados de detenção direccionados a 35 jornalistas. A ordem revela a crescente tensão na Turquia, onde só na última semana foram detidas 1098 pessoas por alegadas ligações à tentativa falhada de golpe de Estado de 15 de Julho do ano passado. Os números são do Ministério do Interior e aumentam agora com o novo grupo de jornalistas detido, detalha o Le Monde, citando a agência de notícias estatal Anadolu.

Os jornalistas são acusados de estarem ao serviço do líder religioso Fethullah Gülen, o clérigo que Ancara acusa de ter orquestrado a tentativa de golpe de Estado.

Na base da acusação da procuradoria turca está o facto de os jornalistas terem usado a aplicação de mensagens encriptadas ByLock, uma aplicação utilizada por cerca de 215 mil pessoas em todo o país. De acordo com as autoridades turcas, foi desenvolvida para permitir a comunicação encriptada entre os golpistas.

Pelo menos nove pessoas, incluindo antigos e actuais jornalistas dos órgãos de comunicação turcos, já foram presas durante a manhã, avança a mesma agência. De acordo com o Governo de Ancara, os jornalistas são acusados de “pertencer a uma organização terrorista”. Esta é uma acusação que vai ao encontro da avaliação feita pelo secretário-geral dos Repórteres Sem Fronteiras, Christophe Deloire, que denuncia uma perseguição em que “os jornalistas são tratados como terroristas por terem feito o seu trabalho”. A ONG posiciona a Turquia em 155.º lugar em 188 países no ranking de liberdade de imprensa mundial.

Um dos jornalistas detidos é Burak Ekici, editor do diário da oposição BirGün, que denunciou a detenção através da rede social Twitter. "Têm-me sob custódia", lê-se na sua conta. No site, o jornal informa ainda que as autoridades também apreenderam computadores e telemóveis.

Durante o último ano, as autoridades da Turquia detiveram cerca de 50 mil pessoas e despediram cerca de 150 mil, incluindo deputados da oposição e activista. De acordo com o balanço mais recente, cerca de 170 presos são jornalistas. Face ao clima de repressão generalizada, os opositores ao regime acusam o Presidente turco de estar a usar o golpe para neutralizar a oposição legítima ao abrigo da lei anti-terrorismo turca.

Para além do elevado número de detenções – incluindo a de jornalistas, o que reduz e limita a circulação de informação –, em Abril, a Turquia bloqueou também todos os acessos da Internet à enciclopédia online Wikipédia. O bloqueio estende-se também às principais redes sociais.

No final de Julho, o tribunal turco ordenou a libertação de sete dos 17 jornalistas, cartoonistas e executivos do jornal turco Cumhuriyet  – o mais antigo do país. Alguns dos jornalistas que estão a ser julgados podem ser condenados a penas de 43 anos de prisão.