Trump riu-se da linha vermelha de Obama na Síria e agora pintou um alvo na Coreia do Norte

Secretário de Estado norte-americano veio dizer que os americanos "podem dormir descansados", mas a forte e inédita ameaça do Presidente Donald Trump aumenta o risco de um erro de cálculo.

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O Presidente dos EUA ameaçou a Coreia do Norte com "fogo e fúria" Jonathan Ernst/Reuters

Longe vão os tempos em que a agência de notícias da Coreia do Norte tinha o exclusivo das ameaças que fazem lembrar uma pessoa alcoolizada a recitar em voz alta o Manifesto Anti-Dantas. Esta semana, um Presidente dos Estados Unidos da América – neste caso, Donald Trump – prometeu descarregar "fogo e fúria como o mundo nunca viu" sobre o país mais isolado do planeta, e com isso amarrou a reputação do seu Governo a uma estratégia que tanto criticou em Barack Obama: tal como o anterior Presidente traçou uma linha vermelha na Síria e não reagiu quando Bashar al-Assad a ultrapassou, Trump mostrou os dentes a Kim Jong-un e foi mais longe do que qualquer antecessor no jogo das declarações públicas dirigidas a um inimigo que está perto de se tornar numa potência nuclear.

Apesar de as palavras de Trump terem sido surpreendentemente agressivas até para um Presidente que habituou meio mundo a tweets coléricos (ou politicamente incorrectos, consoante a posição de cada um), ainda não está em causa uma guerra de proporções inimagináveis nos próximos dias. Quem o garante é o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, que depois de ter ouvido as palavras do seu Presidente veio a correr tentar apagar o fogo e a fúria.

"Os americanos podem dormir bem, sem se preocuparem com a retórica dos últimos dias. Não vi nada que indique uma alteração dramática da situação nas últimas 24 horas", disse Rex Tillerson enquanto o avião que o transportava da Malásia para os Estados Unidos estava a ser abastecido no território norte-americano de Guam.

O secretário de Estado (um cargo equivalente ao do ministro dos Negócios Estrangeiros português) ensaiou ainda uma justificação para os motivos que levaram Donald Trump a dizer o que disse – um exercício que lhe correu mal no início de Julho, quando tentou aliviar a tensão no Qatar e, apenas uma hora depois, ouviu o seu Presidente a acusar o país de financiar organizações terroristas.

"O Presidente está a enviar uma mensagem forte à Coreia do Norte numa linguagem que Kim Jong-un entende, porque ele parece não perceber a linguagem diplomática. Como comandante supremo [das Forças Armadas], o Presidente quis enviar uma mensagem muito forte à Coreia do Norte, mas penso que apenas reafirmou que os EUA têm total capacidade para se defenderem e defenderem os seus aliados de qualquer ataque", disse Tillerson.

Linha vermelha contra ameaças

Mas, na verdade, o Presidente Trump não se limitou a reafirmar a linha oficial dos EUA em relação à Coreia do Norte. Até aqui, a política oficial era fazer o possível para não inflamar ainda mais a situação sempre que o líder norte-coreano (ou a agência de notícias KCNA em seu nome) prometia transformar Seul num "mar de fogo" e "varrer os inimigos da face da Terra com meios nucleares poderosos e sofisticados", por exemplo. O que o Presidente norte-americano fez na terça-feira foi algo muito diferente – e mais perigoso, porque parece ter sido feito ao sabor do momento, sem coordenação com os seus conselheiros e generais, segundo o jornal The New York Times.

Na prática, o Presidente dos Estados Unidos disse que a Coreia do Norte arrisca-se a ter de enfrentar uma reacção militar no mínimo superior à devastação provocada pelas bombas nucleares em Hiroxima e Nagasáqui – e disse-o precisamente no dia 8 de Agosto, a meio de mais um aniversário do lançamento das bombas nas duas cidades japonesas, a 6 e 9 de Agosto de 1945. E esse eventual ataque não está sequer dependente de um ataque norte-coreano contra um aliado dos Estados Unidos ou contra o território norte-americano – "É melhor que a Coreia do Norte não volte a ameaçar os EUA. Essas ameaças serão recebidas com fogo e fúria como o Mundo nunca viu", disse Trump. Ao contrário do que disse o secretário de Estado, o Presidente não deu uma segunda demão na linha vermelha traçada há anos (um ataque); pintou uma nova linha vermelha (uma simples ameaça), mais avançada e mais difícil de apagar sem reflexos na estabilidade da península coreana ou na reputação da sua Casa Branca.

Se as declarações de um Presidente norte-americano devem ser levadas a sério – e haverá poucas dúvidas de que devem –, então Trump já sabe que o líder norte-coreano passou por cima da sua linha vermelha. Poucas horas depois de ter sido ameaçada com "a fúria e o fogo" dos Estados Unidos, a Coreia do Norte ameaçou criar uma "barreira de fogo" na ilha de Guam com os seus mísseis de médio e longo alcance Hwasong-12.

Mas o que torna as declarações de Donald Trump mais perigosas a curto prazo (por aumentarem o risco de um erro de cálculo numa situação que envolve vários outros países, como a Coreia do Sul e o Japão) também pode revelar que há pouca gente na Casa Branca e no Pentágono disposta a defender a linha vermelha traçada pelo Presidente – segundo o The New York Times, uma pessoa que falou com Trump pouco antes da conferência de imprensa de terça-feira disse que o Presidente estava com uma "predisposição belicosa" porque tinha acabado de ser informado de uma notícia do The Washington Post sobre os progressos no programa nuclear norte-coreano.

A espada ou a parede

Chegados aqui, o principal problema é que a linha vermelha de Trump também retira margem de manobra a Kim – o primeiro tem de sair do canto em que se meteu sem ficar ainda mais embaraçado do que quando a Casa Branca anunciou, erradamente, que um porta-aviões nuclear estava a caminho da Coreia do Norte, e o segundo não vê nenhum incentivo para recuar nas ameaças.

Durante décadas, a Coreia do Norte foi desenvolvendo o seu programa nuclear mesmo a remar contra a maré de sanções aprovada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas – apesar do garrote económico, o regime tem conseguido subsistir com a colaboração de países e organizações que aproveitam a possibilidade de negociarem com um país limitado na sua capacidade externa.

Agora que a Coreia do Norte parece estar mais perto do que nunca de ser, de facto, uma potência nuclear, só restam más opções aos Estados Unidos: ou atacam de forma preventiva e arriscam-se a provocar milhares ou milhões de mortos na Coreia do Norte, na Coreia do Sul e no Japão; ou respondem a um ataque e o resultado pode ser igualmente trágico; ou aprendem a conviver com mais uma potência nuclear no mundo. Ou então a Administração Trump tira um coelho da cartola e consegue fazer algo que a Administração Obama nunca conseguiu, e que tem de envolver a China e a Rússia: voltar a sentar a Coreia do Norte à mesa de negociações.