Pescadores da Tunísia travam navio que quer perseguir migrantes no Mediterrâneo

Grupo de extrema-direita europeia que navega com bandeira mongol é mais uma vez travado.

Organização de extrema-direita quer impedir salvamentos como este, feito pela Save the Children
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Organização de extrema-direita quer impedir salvamentos como este, feito pela Save the Children Stefano Rellandini/REUTERS

O navio C-Star, fretado por uma organização de extrema-direita francesa para dificultar as operações de resgate de migrantes no Mediterrâneo por organizações humanitárias, foi bloqueado pela associação de pescadores do porto tunisino de Zarzis, perto da fronteira com a Líbia.

“Já seguíamos com preocupação as actividades deste grupo. Quando soubemos que vinham para Zarzis, mobilizámo-nos para evitar que entrassem no porto. Não queremos o barco fascista na Tunísia”, disse ao El País Shamseddin Bourasin, presidente da associação de pescadores local, que conta com cerca de 500 membros. “Há dez ou 15 anos que salvamos migrantes que naufragam. Não queremos que um barco que quer que se afoguem e usa lemas fascistas e contra o islão seja ajudado nos nossos portos”, declarou.

Nas duas últimas semanas, o C-Star foi travado em Chipre e na Sicília, mas pôde sempre continuar o seu caminho. Na origem deste barco da extrema-direita está a organização juvenil francesa Geração Identitária – que se expandiu para outros países europeus, como Itália, Alemanha, Áustria, República Checa, Holanda, Bélgica e Eslovénia – que se organizou no projecto Defend Europe. Querem “defender” a Europa de refugiados e migrantes, para evitar “a grande substituição” – um conceito popular entre a extrema-direita nacionalista europeia, que teme que os muçulmanos substituam os cristãos no Velho Continente.

Estes identitários lançaram uma subscrição online, via PayPal, para financiar a sua missão, que é impedir as organizações humanitárias de resgatar os imigrantes que se afogam no Mediterrâneo a tentar fazer a travessia da Líbia para um porto italiano.. Mas a PayPal travou a subscrição em Junho, após várias queixas, diz o Le Monde.

Até ao momento, escreve o El País, a missão Defend Europe obteve 160 mil euros, e o navio C-Star, que pertence a Sven Tomas Egerstrom, um empresário sueco várias vezes condenado por fraude, diz o diário francês, navega com bandeira da Mongólia. A sua posição é seguida de perto pelas organizações humanitárias e partilhada nas redes sociais. Não houve ainda confrontos – mas não é excluir essa possibilidade.