Editorial

Terrorismo contra o turismo

Isto não tem nada que ver com turismo, e menos ainda com a independência da Catalunha.

Em Espanha há uma nova forma de protesto que usa o argumento da pressão turística para cometer actos de violência à medida das discussões nas redes sociais — onde o discurso violento tem rédea solta. A ideia dos extremistas associados à esquerda catalã é atacar o turismo de forma a debilitar o sustento social de uma cidade onde a pressão dos estrangeiros continua a aumentar, mas o fenómeno que agora chegou a Barcelona já andou por Maiorca e Valência. Não é algo novo: cada vez que uma cimeira política ou financeira reúne líderes mundiais numa qualquer capital há quem, a coberto do protesto político, aproveite para cometer crimes violentos, normalmente em grupo e a coberto de uma qualquer ideologia que promove a crítica social.

Em Barcelona as autoridades foram lentas a reagir e evitaram condenar o partido responsável pela célula de jovens — os compadrios políticos falaram mais alto e a tolerância demonstrada só criou condições para que o fenómeno se repita com maior dimensão. O argumento mais usado tem olhado para o problema como originado em grupos “anarquistas” e “anticapitalistas”. Em Espanha houve vozes de responsáveis políticos a justificar o ocorrido com chavões como “a voz das ruas” ou “a defesa dos direitos dos oprimidos”. É uma perspectiva errada. Os grupos são de criminosos, a ideologia que dizem professar é irrelevante para o caso.

Isto não tem nada que ver com turismo, e menos ainda com a independência da Catalunha. Na verdade, a motivação é absolutamente irrelevante: apresentar justificações políticas para estes crimes significaria que se aceita que a representação política é impossível. Não é assim. Se fosse, o nosso sistema democrático estaria posto em causa. O que interessa aqui é o crime, que tem de ser combatido de forma decidida em nome da preservação da vida social.

Quando esta mesma forma de crime organizado chegar a Portugal, será preciso recordar que é apenas uma questão de lei e ordem. E será melhor que não apareçam agentes sociais a tentar branquear comportamentos criminosos com argumentos desculpabilizantes com base em ideologias. Seja sob o manto de uma claque desportiva com motivações fascizóides ou a coberto de uma qualquer juventude de extrema-esquerda, um acto de violência tem de ser tratado apenas como o que é. Será importante ignorar as motivações pseudopolíticas e clarificar que a lei e a ordem existem precisamente para preservar a lógica social da democracia e da liberdade. Um crime é um crime e nenhuma ideologia justifica a destruição de propriedade ou a agressão.

 

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