Reportagem

Oh não, outra vez os passadiços do Paiva…

São a estrela dos passadiços nacionais e percebe-se porquê. O percurso ao longo do rio Paiva é fabuloso e o caminho agora percorrido por milhares de pessoas mudou a vida de Arouca. Se ainda não foi lá, atreva-se. Vale mesmo a pena.

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Adriano Miranda
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,Rio Paiva
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Passarelas do Paiva
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Mesmo que já se tenham escrito milhares de caracteres a descrever as maravilhas dos passadiços do Paiva é impossível não voltar a eles quando o tema é, precisamente, passadiços. Até porque, não sendo os maiores nem os mais antigos do país, eles são bastante únicos pela sua inserção numa paisagem muito diferente da da maior parte das estruturas deste tipo, mais associadas à beira-mar e às dunas. Aqui, estamos no Geopark de Arouca, num trajecto ao longo de um rio caprichoso, com a rocha como companhia e o verde a oferecer uma muito bem-vinda sombra.

Passaram dois anos desde a inauguração oficial dos passadiços do Paiva, mas já muita coisa mudou desde que a entretanto premiada estrutura de madeira permitiu que o rio e as suas encostas fossem apreciados com uma nova proximidade. Dois incêndios, em dois anos consecutivos, queimaram porções da estrutura, obrigando à sua reconstrução. O acesso deixou de ser gratuito e passou a ter o custo simbólico de um euro [em 2019, o preço passa a 2 euros comprado online e a 4 se comprado presencialmente no dia da visita], além de o número de visitantes ser agora condicionado – cerca de 3500 pessoas por dia, duas mil das quais controladas através de uma pré-inscrição online e as restantes chegando através dos operadores turísticos. Nos dois extremos do percurso de 8,7 quilómetros (Areinho e Espiunca) nasceram parques de estacionamento. Surgiram cafés com esplanadas e a praia do Vau ganhou casas de banho. Além disso, há táxis alinhados nas pontas do caminho, à espera de levar de regresso aqueles que não querem fazer a pé o trajecto inverso e não têm outro meio de deslocação.

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O que não mudou, para quem escolhe passar o dia por ali, é a beleza da paisagem. E são muitos os que se continuam a deslumbrar com ela. Uma média de 20 mil pessoas por mês, segundo José Pedro Brandão, da agora bem mais atarefada loja interactiva de turismo de Arouca. “90% das pessoas que cá vêm procura informações sobre os passadiços”, diz. Curiosamente, são também bastantes as que optam por fazer uma visita guiada – “entre 500 a mil por mês”, diz o funcionário –, o que lhes permite descobrir mais sobre o universo que está prestes a percorrer: o rio, as rochas, os animais e as plantas. Mas o caminho não tem que enganar. Calce as sapatilhas, leve água e algo para comer, chapéu e protector solar e é só seguir o trilho (ou o último grupo de pessoas antes de si, o que aparecer primeiro).

Se não pretende percorrer o trilho e regressar, a pé, pelo mesmo caminho ao ponto de partida, aceite o nosso conselho e comece a caminhada no Areinho. Está a ver aquela escadaria imensa, encosta acima, junto à fabulosa garganta do Paiva? Se ela parece um pouco desmotivadora e ainda nem começou a caminhar, imagine ao que se assemelhará se a encontrar no fim do percurso, depois de já ter andado quase oito quilómetros. Pois é, é por aqui que quer começar – vencer o mais difícil quando ainda não lhe doem as pernas, porque depois o trajecto é quase sempre a descer. E quase sempre no piso confortável em madeira dos passadiços, embora existam alguns troços em terra batida (e é por causa destes que, mesmo estando calor, não vai querer levar sandálias).

Agora que já está no caminho não há grandes conselhos a dar-lhe, excepto este: leve o tempo que for preciso. Respire. Levante o olhar do caminho. Não se esqueça de parar de vez em quando. É um passeio, não uma corrida de obstáculos que é preciso vencer com rapidez. O rio Paiva corre sempre à sua direita, ganhando diferentes rostos e força ao longo do caminho. Às vezes, parece quase uma lagoa plácida, como se tivesse desistido de correr. Outras vezes, abre caminho entre as rochas e deixa-se cair em minúsculas cascatas, como se todo ele assentasse em socalcos.

A forma como o rio se apresenta vai influenciar o modo como o ouve (mais calmo, nas zonas em que é quase um lago, mais barulhento, quando tem que vencer o leito irregular), mas o som da água estará sempre presente. E, se houver vento, o das folhas das árvores a agitarem-se. Há carvalhos, salgueiros, amieiros e, mais feios e mais presentes perto de Espiunca, eucaliptos. Os animais são mais fugidios. O rio tem lontras, mas elas gostam de se manter invisíveis. Pode ver várias borboletas, se for a época certa, ou pode não ver mais do que nós: caganitas de cabra espalhadas pelo piso de madeira, a mostrar que não são só as pessoas que se passeiam por ali.

E, depois, há toda a superfície rochosa, de granito e xisto, que bordeja o passadiço e, às vezes, entra por ele dentro. As rochas, redondas, com arestas, invadindo o seu espaço, cobertas de raízes ou nuas e mostrando os efeitos de milhares de anos de movimento da crosta terrestre, também valem a pena que olhe para elas, lembrando que este é um pequeno paraíso a várias dimensões.

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A última, e que não pode ser deixada de fora em pleno Verão, é a das praias fluviais que vai encontrar pelo caminho. Tem três, uma junto a cada acesso e, mais ou menos a meio do percurso, a praia do Vau, o local ideal para descansar e experimentar o Paiva antes de seguir caminho. Ali ao pé, não falta quem se deixe fotografar junto a uma esguia queda de água (não é a cascata das Aguieiras, essa ficou lá para trás, se vem do Areinho) ou quem finja entrar num maravilhoso mundo de aventuras, cruzando a ponte suspensa sobre o rio.

Os passadiços do Paiva hão-de crescer. Os planos da Câmara de Arouca já foram anunciados e passam por pólos museológicos, um bar suspenso e a extensão do percurso. Em 2015, o ano em que abriram, a autarquia acreditava que 2017 seria a data de concretização destes projectos, mas o processo atrasou-se. Margarida Belém, vereadora do Turismo, explica que estão em curso os projectos para novos equipamentos de apoio junto aos acessos e acredita que em 2018 os passadiços que, este ano, estão nomeados na categoria Melhor Atracção Turística Europeia, dos World Travel Awards, vão ter uma novidade capaz de continuar a levar a Arouca ainda mais visitantes. “A nova ponte suspensa, com 480 metros de extensão e 150 de altura, que vai ligar a zona da escadaria à cascata das Aguieiras, vai ser a maior do mundo e tem o projecto pronto. Estamos na fase final do concurso e depois será feita a adjudicação”, diz. [Em 2019, a ponte está ainda em construção]

Enquanto as novidades não chegam, não se acanhe. Elas não são precisas para se deixar encantar. E se por acaso já não conseguir ir lá este Verão, não desista. Os passadiços estão abertos todo o ano e, quando o Outono chega, a terra tem outra cor e outro cheiro e as chuvas do Inverno incham o Paiva. Vá lá, vá. Seja em que época for. Pelo menos, experimente-os uma vez na vida, antes de suspirar, “Oh não, outra vez os passadiços do Paiva…”. Vai ver que há mesmo uma razão para se falar tanto neles.