Como o genoma de 14 esqueletos portugueses antigos conta a história das invasões na Idade do Bronze

Através da sequenciação dos primeiros genomas completos de amostras pré-históricas portuguesas, uma equipa repleta de cientistas portugueses fez a reconstituição histórica das misturas populacionais na Península Ibérica há cerca de 4000 anos, na transição para a Idade do Bronze.

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Enterramento no sítio arqueológico Torre Velha 3, perto de Serpa Palimpsesto – Estudo e Preservação do Património Cultural
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Vista geral do sítio arqueológico Torre Velha 3 Palimpsesto – Estudo e Preservação do Património Cultural

Há cerca de 7500 anos, os primeiros agricultores estavam a chegar à Península Ibérica, vindos da Anatólia – e estes, por sua vez, tinham vindo do Crescente Fértil, onde a agricultura foi inventada há cerca de dez mil anos. Esses primeiros agricultores ibéricos foram-se misturando com os caçadores-recolectores que já cá viviam. Depois, há cerca de 4500 anos, chegavam à Europa do Norte e do centro cavaleiros nómadas vindos das estepes da Europa de Leste e da Ásia, onde se dedicavam à pastorícia. A questão era: será que os cavaleiros-pastores das estepes euro-asiáticas também vieram para a Península Ibérica e se reproduziram com as populações que aí se encontravam – por exemplo, com os primeiros agricultores, que se pensa terem vindo por mar, viajando junto à costa?

Tenham viajado de barco ou a cavalo, tenham sido caçadores-recolectores, agricultores ou pastores, a história populacional da Península Ibérica e das suas migrações pode ser desvendada com a ajuda da genética. Foi isso que aconteceu agora com o trabalho do geneticista português Rui Martiniano desenvolvido durante o seu doutoramento no Trinity College de Dublin (Irlanda) e que actualmente trabalha no Instituto Sanger, em Cambridge (Reino Unido). O resultado é a reconstituição da história genética da Península Ibérica na transição para a Idade do Bronze, num artigo científico publicado esta quinta-feira na revista PLOS Genetics em que Rui Martiniano, de 31 anos, é o primeiro autor e inclui arqueólogos e antropólogos de várias universidades portuguesas (de Coimbra, Lisboa e Algarve), bem como de duas empresas, a Palimpsesto – Estudo e Preservação do Património Cultural e a ERA Arqueologia.

Esta viagem ao passado populacional do território onde fica agora Portugal foi possível porque, antes de mais, foi sequenciado o genoma de 14 esqueletos antigos. Estes esqueletos, de oito sítios arqueológicos (da região de Lisboa e Vale do Tejo, do Alentejo e Algarve), datam desde o Neolítico Médio (4200-3500 a.C.) até à Idade do Bronze Média (1740-1430 a.C.). Dito de outra forma, têm desde 6200 até 3430 anos. Para fazer comparações, a equipa usou ainda dados publicados sobre genomas antigos de humanos da Eurásia (incluindo amostras de Espanha), com idades que iam desde os 27 mil até aos 2000 anos. E, ainda, dados públicos do genoma de quase duas mil pessoas actuais de todo o mundo.

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O ADN dos 14 esqueletos foi descodificado no Trinity College de Dublin: “Das 14 amostras sequenciadas, foi possível obter genomas completos de sete amostras. Isto significa que sete amostras tiveram cerca de 100% do seu genoma sequenciado pelo menos uma vez”, conta ao PÚBLICO Rui Martiniano. “Apresentamos pela primeira vez genomas completos de amostras pré-históricas ‘portuguesas’”, frisa o investigador, dizendo que os restos mais antigos sequenciados têm à volta de seis mil anos. “Esta investigação, além de revelar os primeiros genomas completos da pré-história portuguesa, reflecte o potencial de abordagens interdisciplinares na reconstrução da história genética das migrações humanas, ao envolver investigadores de várias áreas: geneticistas, antropólogos e arqueólogos”, diz a bioantropóloga Ana Maria Silva, da Universidade de Coimbra e também da equipa, citada num comunicado sobre o trabalho.

Migrações a cavalo

Viajemos agora até ao final do Neolítico e o início da Idade do Bronze, que na Península Ibérica foi há cerca de 4000 anos. Nessa altura, a Europa do Norte e do centro já estava a receber uma migração maciça de pessoas das regiões das estepes da Europa de Leste e da Ásia. Por essa altura também, já estava a ser domesticado o cavalo na Ásia Oriental e nos territórios que hoje fazem parte do Sul da Rússia (pensa-se que o antepassado selvagem do cavalo doméstico foi o tarpã, já extinto).

“Quando os cavalos foram domesticados no final do período Neolítico, provavelmente eram criados como animais que forneciam alimento, uma vez que foram encontrados em locais arqueológicos ossos partidos, juntamente com vestígios de outros restos de comida. Mas não deve ter demorado muito até os primeiros agricultores [e pastores] descobrirem que os cavalos podiam ser montados, carregados com bens para transportar e treinados para puxar carroças”, escreveu a zooarqueóloga Juliet Clutton-Brock, especialista em domesticação, no seu livro História da Domesticação dos Animais – Dos Primórdios à Actualidade, de 1999.

“É provável que os bovinos tenham sido utilizados antes dos cavalos para arar e também para a tracção, mas assim que o cavalo se estabeleceu como meio de transporte o modo de vida dos seres humanos foi alterado. Isto aconteceu, segundo parece, surpreendentemente tarde, durante o segundo milénio antes de Cristo [há cerca de quatro mil anos] e apenas um milénio antes [há cerca de cinco mil anos] no Sul da Rússia e na Ásia Oriental”, contextualiza o livro. “O mundo estava aberto aos cavaleiros que podiam viajar para toda a parte e, com a ajuda dos desenvolvimentos posteriores nas técnicas de guerra, podiam conquistar novas terras para onde se deslocassem.”

Por isso, quando perguntamos a Rui Martiniano se as pessoas das estepes vieram para a Europa de cavalo, ele responde: “Sim, terem o cavalo domesticado foi o que lhes permitiu viajarem distâncias tão grandes.”

Da genética às línguas

Ora o que conta o genoma dos 14 esqueletos antigos “portugueses”, bem como a sua comparação com as outras amostras pré-histórias euro-asiáticas e modernas de todo o mundo, é precisamente que aqueles invasores provenientes das estepes ficaram-se mais pelo Norte e pelo centro da Europa, em vez de virem para a Península Ibérica.

Estudos genéticos de outras equipas já tinham revelado, em 2015, a existência dessas grandes migrações das estepes para o Norte e centro da Europa. Essas pessoas que migraram contribuíram bastante o genoma das populações que viviam ali. Agora, o novo estudo mostra que, na Península Ibérica, essas migrações das estepes foram muito mais reduzidas. “Em contraste com outras regiões europeias”, refere Rui Martiniano, segundo o comunicado, “apenas detectámos uma mudança genética muito subtil durante a transição do Neolítico para a Idade do Bronze, em resultado de migrações ou do contacto com outros povos fora da Península Ibérica”.

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O geneticista Rui Martiniano

Portanto, nesta história de migrações e invasões chegaram novas pessoas e os seus genes a algumas regiões – o que significa que houve sexo para que tivessem ocorrido trocas genéticas visíveis agora nas amostras de ADN analisadas, pelo menos em algumas. Mas as migrações populacionais também podem conter uma história de transmissão cultural, de tecnologias e conhecimento. Neste caso agora, a equipa sustenta que a presença dos invasores das estepes mais no Norte e centro da Europa e menos na Península Ibérica terá tido implicações na transmissão das línguas.

“Pensa-se que estas migrações da Idade do Bronze espalharam as línguas indo-europeias por toda a Europa”, diz Rui Martiniano, de que são exemplos o inglês, alemão, espanhol, português ou o mirandês. “Tendo em conta que essas migrações foram reduzidas na Península Ibérica, este fraco fluxo populacional poderá explicar a permanência de línguas não indo-europeias nesta região, como o euskera no País Basco, que ainda é falado actualmente”, acrescenta o geneticista. “As línguas indo-europeias não foram espalhadas na Península Ibérica com tanta intensidade naquela altura.”

Como sabemos, as línguas indo-europeias acabaram por se disseminar pelo mundo, mas o euskera sobreviveu até hoje na fronteira entre Espanha e França como uma língua pré-indo-europeia. “Tem sido sugerido que as línguas indo-europeias se espalharam através de migrações pela Europa a partir da região central das estepes, um modelo que encaixa nestes resultados”, refere um outro comunicado sobre este trabalho.

De todo este manancial genético, a equipa também extraiu informações sobre a evolução da estatura das populações humanas. Para isso, regressemos aos primeiros agricultores do Neolítico. Este ano, uma equipa liderada por cientistas do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S), da Universidade do Porto, e da Universidade de Huddersfield, no Reino Unido, avançou com um artigo sobre a rota “marítima” seguida pelos agricultores do Neolítico até à Península Ibérica. Em diversas bases de dados genéticas, esta equipa, de que Luísa Pereira (do i3S) foi uma das coordenadoras, procurou marcas nos nossos genes (que continuam presentes) da chegada à Península Ibérica de populações vindas do Médio Oriente.

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E concluiu que um pequeno grupo veio do Médio Oriente e chegou primeiro à Península Itálica, onde se misturou com as populações locais. Depois, viajou pela costa, até chegar à Península Ibéria há cerca de 7500 anos, onde voltou a misturar-se com as populações que aí viviam e iniciar a substituição da cultura dominante dos caçadores-recolectores pela agricultura e a domesticação de animais. Baseando-se em achados de cerâmica, o arqueólogo português João Zilhão, da Universidade de Barcelona, também já tinha defendido a importância do Mediterrâneo para a entrada do Neolítico na Península Ibérica e que a Península Itálica teria servido de interposto. Essa rota de expansão da agricultura foi assim diferente da que seguiu por terra para o resto da Europa, onde há cerca de quatro mil anos já estava disseminada.

Pela genética, pôde então ver-se que a revolução da agricultura no Neolítico na Península Ibérica foi iniciada com a chegada de gente nova e dos seus genes. “Houve uma migração pronunciada, que veio da Anatólia. Não foi [só] uma transmissão cultural: não foram os caçadores-recolectores a adoptar a agricultura”, diz Rui Martiniano.

Acontece que os primeiros agricultores da Anatólia tinham uma predisposição genética para serem mais baixos do que os caçadores-recolectores, que existiam na Europa. Por outro lado, os cavaleiros das estepes euro-asiáticas da Idade do Bronze tinham uma predisposição para serem mais altos.

“As populações de hoje em dia na Europa têm alturas marcadamente diferentes. Os portugueses, espanhóis ou italianos – as populações do Sul europeu – tendem a ser mais baixas. As populações do Norte, especialmente os holandeses e alemães, tendem a ser muito altas. Isto depende de factores ambientais, como a alimentação, mas também factores genéticos”, refere Rui Martiniano. “O nosso estudo diz que as migrações do Neolítico provenientes da Anatólia são responsáveis por uma estatura mais baixa. Note-se que as populações do Sul europeu têm mais ancestralidade do Neolítico do que as populações do Norte da Europa.” Este trabalho também confirma os resultados da equipa de Iain Mathieson, da Faculdade de Medicina de Harvard (EUA), na revista Nature em 2015, como conta o investigador português: “As populações da estepe durante a Idade do Bronze tiveram um papel fundamental no aumento da estatura aquando da sua expansão para a Europa.”

E é assim que uma parte da história dos movimentos migratórios na Europa, dos primórdios da agricultura, da expansão de línguas e da estatura das populações ficou agora um pouco mais esclarecida, graças ao contributo do ADN de 14 esqueletos antigos de Portugal.