Venha daí a décima edição do tão simples e tão fértil Milhões de Festa

Em 2017 o barcelense Milhões de Festa celebra um número redondo. Milhões vezes dez. Já o conhecemos bem. Mas, entre esta quinta-feira e domingo, com faUSt e GNOD, Graveyard, Yves Tumor ou Meatbodies, sabemos que seremos surpreendidos.

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A piscina é o palco dos concertos durante a tarde e uma das imagens de marca do festival PAULO PIMENTA

Já tinha havido duas modestas edições do Milhões de Festa, uma no Porto, em 2006, outra em Braga, no ano seguinte. Depois disso, uma pausa. Três anos depois, estava a equipa da promotora e editora Lovers & Lollypops a investigar os terrenos do Parque Fluvial de Barcelos, a cidade em que o Milhões de Festa iria marcar definitivamente o arranque da sua história, quando apontam para lá ao longe e perguntam: “E atrás daquelas árvores está o quê?”. As piscinas municipais, recordaram-lhes. “E podem-se utilizar?”. Podiam e, naquele momento, ficou decidido que haveria um palco para ser fruído em modo aquático – e que se tornaria, com o passar dos anos, numa das mais célebres cartas de apresentação do Milhões de Festa.

Joaquim Durães, fundador da Lovers & Lollypops, co-organizadora do festival com a Câmara Municipal de Barcelos, conta-nos a história quando já estamos em 2017 e às portas da 10.ª edição do festival, onde ouviremos nomes como os faUSt, históricos do kraut-rock, em concerto conjunto com os britânicos GNOD (sexta-feira, 23h), The Gaslamp Killer (sexta-feira, 1h20), Graveyard (sábado, 23h10), Yves Tumor (sábado, 3h30), Pop Dell’Arte (domingo, 21h), Meatbodies (domingo, 22h)  ou, esta quinta-feira (dia de entrada gratuita), os portugueses Stone Dead (23h15), o sírio Rizan Said (0h30) ou os ingleses Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs (1h45). O arranque oficial dar-se-á com um concerto que já se tornou uma tradição do festival: às 18h, em local por ora mantido em segredo, reúne-se o Ensemble Insano, ou seja, a mega banda que reúne dezenas de músicos barcelenses.

Fua, nome de guerra de Joaquim Durães, rematara a história de como as piscinas se tornaram palco com um sincero: “Foi assim, é muito simples”. Assim parece, mas tem-se revelado muito fértil essa simplicidade. Parte disso é resultado do que Ensemble Insano representa, ou seja, a união comunitária, consequente, de quem ajuda a criar o festival. E a vontade de que ele não seja mera reunião de festivaleiros para assistir a concertos – nunca sabemos exactamente a que soará o Ensemble Insano de formação flutuante, como nunca sabemos que surpresas iremos encontrar ao longo de quatro dias de Milhões de Festa.

Uma coisa é certa, o Milhões não é recomendável a quem gostar de encaixar a música em gavetas muito estanques, sem possibilidade de contágio mútuo. “Nunca seremos num festival com death-metal no primeiro dia, reggae no segundo, e ‘sunset party’ no terceiro”, acentua Joaquim Durães. Essa não é, de todo, a sua natureza. “O Eblis Alvarez [dos colombianos Meridian Brothers], que vem tocar com Chupame El Dedo [domingo, 0h20], é um exemplo perfeito do que é o Milhões. À partida, cumbia e death metal não têm qualquer relação. Mas Alvarez, que é uma figura da nova cumbia, era um metaleiro na juventude e encontrou nesta banda forma de conciliar as duas coisas. Quando percebemos isto, vemo-lo como representação bastante interessante dessa quebra de barreiras que, na verdade, são apenas ideias preconcebidas que é importante desmistificar”.

Ao longo de quatro dias, veremos, divididas pelos quatro palcos (o Piscina e o Taina, activos durante a tarde, o Milhões e o Lovers, nocturnos), música da Serra Leoa, via Nova Iorque (Janka Nabay & The Bubu Gang) e sons dos Gana (DJ Katapila). Ouviremos psicadelismo intenso (TAU) e multiforme (Orchestra of Spheres), rock’n’roll com sangue na guelra (Cocaine Piss), o hip hop político (e apocalíptico) de Moor Mother ou delírio grindcore dos Brutal Blues (“vão ser odiados por muitos, amados por alguns, e estou muito curioso para os ver”, diz Joaquim Durães).

Matrecos e outras descobertas

Implantado em Barcelos em 2010, o Milhões de Festa construiu-se como emanação da cidade minhota. Ali chegou quando a imprensa começava a dar nota de uma cena local, feita de bandas como Glockenwise, Black Bombaim ou La La La Ressonance, o que motivou a atenção da autarquia ao que lhes propunha a Lovers & Lollypops. “Perceberam que não eram apenas uns putos a mandar uns bitaites, que o país estava atento ao que se passava aqui. Temos assim o município a dar apoio a um festival que, à partida, não é tão fácil de perceber” – mas, agora, quando novos cartazes são preparados, os responsáveis autárquicos já questionam se a tal banda que tanto apreciaram numa edição anterior poderá regressar.

Implantado em Barcelos desde 2010, repetimos, digamos que o seu impacto e relevância extravasam as 10 mil pessoas habitualmente contadas ao longo do festival. O segredo está na escala de proximidade em que decorre e na partilha que proporciona. Exemplo 1: durante o festival decorrerá a final do torneio Milhões de Matrecos – porque o Milhões é festa popular e descoberta musical. Dia 15 de Julho, uma das meia-finais, disputada em Barcelos, teve participantes especiais: depois do concerto no Super Bock Super Rock, os Boogarins, que se estrearam em Portugal no Milhões de Festa 2014, fizeram questão de rumar à cidade minhota para matar saudades e prometeram ficar para a final caso as meias-finais lhes corressem bem (não correu). Exemplo 2: quando os faUSt chegaram a Barcelos para iniciar o trabalho conjunto com os GNOD, foi a banda britânica, repetente no festival, que serviu de cicerone às lendas do kraut-rock, levando-os a beber um copo no Xano Bar ou a jogar umas setas no Círculo Católico de Operários de Barcelos.

A forma como o festival e a cidade são vividos são a razão pela qual os Boogarins correm até lá para jogar matrecos, pela qual os GNOD servem de cicerones, ou que leva a que os Alt-J, anunciados esta quarta-feira para a Meo Arena, em Janeiro, recordem certamente que o seu primeiro concerto português foi nas margens do Rio Cávado, em 2012. É a razão pela qual o público interessado e entusiasta regressa para reencontros e descobertas. A partilha e a surpresa são, de facto, essenciais. Na décima edição o Milhões de Festa tem isso bem presente em cartaz. “Aproveitámos o número redondo como alavanca para pensarmos uma série de concertos únicos”, diz Fua. Todos os anos são promovidos alguns, este ano serão mais. Além de faUSt + GNOD, haverá Cave Story + Duquesa + Ra-Fa-El, Lavoisier + Barrio Lindo, Ghost Wavvves + Mike El Nite ou Sarathy Korwar + Hieroglyphic Being. E, revela Joaquim Durães, um outro mantido em segredo por desejo dos músicos. “São dois artistas que vêm do outro lado do Atlântico e acontecerá sábado”.

Chegado à décima edição, o Milhões de Festa está bem afinado. Sabemos o que vamos encontrar. Sabemos que seremos surpreendidos. E enquanto falamos dessas que são as marcas do festival, Fua pede desculpa por ter que interromper por uns segundos a conversa telefónica com o PÚBLICO. Ouvimo-lo falar com alguém. Regressa à conversa. “E depois combinamos entregas de sistemas de som enquanto andamos pela rua”, diz entre risos. Voltamos ao início. É, de facto, muito simples este festival chamado Milhões de Festa. Muito simples e muito fértil.