Afinal, os nossos cães vieram todos de um único sítio?

A história evolutiva dos cães tem muito que se lhe diga. Agora foi publicado um trabalho que refere que os cães domésticos poderão ter surgido numa única localização geográfica. E tudo terá acontecido entre há cerca de 20 mil e 40 mil anos.

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O cão doméstico (<i>Canis lupus familiaris</i>)
O cão doméstico (Canis lupus familiaris) Brendan McDermid/Reuters
Arqueólogo dentro da gruta de Cherry Tree, onde foi encontrado um crânio de um cão com cinco mil anos
Arqueólogo dentro da gruta de Cherry Tree, onde foi encontrado um crânio de um cão com cinco mil anos Timo Seregely
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Na história da evolução dos cães domésticos (ou Canis lupus familiaris) algo é certo: descendem dos lobos. Mas depois, não se sabe bem quando, tornaram-se os melhores amigos do ser humano. E agora são conhecidos por serem animais leais, inteligentes ou até bons farejadores. Contudo, tem sido mesmo difícil farejar a sua evolução. Se se fizesse um interrogatório para se desvendar o passado dos cães, algumas das perguntas mais frequentes seriam: Quando foram domesticados? Tiveram uma origem geográfica comum ou em vários sítios? E quando divergiram dos lobos?

Esta terça-feira foi publicado mais um estudo deste “apertado” inquérito na revista Nature Communications. Relatório final da equipa: os cães podem ter tido uma origem genética comum e devem ter sido domesticados entre há cerca de 20 mil e 40 mil anos.

O cão foi o primeiro animal a ser domesticado. O primeiro fóssil de um cão, que já não é claramente de um lobo, tem cerca de 14 mil anos e foi encontrado numa gruta do Paleolítico Superior, em Oberkassel (na Alemanha), diz-nos Krishna Veeramah, da Universidade de Stony Brook (Estados Unidos) e coordenador do trabalho na Nature Communications. “Há outros fósseis que podem ser potencialmente mais velhos (com cerca de 30 mil anos) mas isso é altamente controverso.” E controversa tem sido a origem da domesticação do cão. Se alguns estudos referem o Leste da Ásia há cerca de 15 mil anos, outros indicam o Sudeste da China há 16 mil anos, ou outros apontam ainda para o Médio Oriente. Tudo isto sugere que o cão pode ter sido domesticado em diferentes sítios ao mesmo tempo.

Mas no ano passado, uma equipa de cientistas divulgou na revista Science que os cães tinham sido domesticados em duas localizações diferentes. A equipa coordenada por Greger Larson, da Universidade de Oxford (Reino Unido), analisou sequências genéticas de cães antigos e um genoma completo de um cão do Neolítico com cerca de cinco mil anos, encontrado na Irlanda. Concluiu-se então que os cães tinham sido domesticados na Europa e na Ásia. E propuseram ainda que uma subpopulação de cães domesticados se deslocou para a Europa durante o Neolítico (há cerca de sete mil ou cinco mil anos) e substituiu os cães europeus originais do Paleolítico. O cão irlandês do estudo, por exemplo, ainda tem alguma ascendência do Paleolítico.

O cão antigo encontrado na Irlanda também se deslocou para o recente estudo publicado na Nature Communications. A ele juntaram-se outros dois restos de cães encontrados na Alemanha. “O uso destes cães aconteceu um pouco por acidente”, começa por contar Krishna Veeramah. A equipa procurava “material não humano” e com ADN antigo para testes. E eis que se fez luz em grutas na Alemanha.

Em 2010, tinha sido descoberto um crânio inteiro de um cão adulto na gruta de Cherry Tree, na Alemanha. Então, enviaram um estudante de Nova Iorque para a Europa para se perceber se era possível extrair ADN desse exemplar. “Ele voltou e disse que este exemplar tinha muitas quantidades de ADN, o que não era muito normal para material com mais de cinco mil anos”, recorda Krishna Veeramah. Além disso, ainda conseguiram um osso temporal (na caixa craniana) de um exemplar com cerca de sete mil anos, que foi descoberto no sítio arqueológico de Herxheim (no Sudoeste da Alemanha), em 1996. “Os cães antigos nunca tinham sido sequenciados a este ponto, decidimos então analisar o seu genoma”, salienta o investigador.

Cães portugueses no estudo

Ao longo do estudo, ainda foi considerado ADN de 5649 cães de todo o mundo (informação que já vinha de estudos anteriores), sobretudo da Eurásia. Neste grupo também estavam cães portugueses, nomeadamente nove cães pária (que vagueiam pela aldeia ou pela cidade), informa-nos Laura Botigué, principal autora do artigo e também da Universidade de Stony Brook.

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Gruta de Cherry Tree, na Alemanha, onde foi encontrado o crânio de um cão com cinco mil anos Timo Seregely
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Crânio de um cão com cinco mil anos (final do Neolítico) Amelie Scheu

O que se viu então neste estudo? “A variação genética que encontrámos tanto nos cães antigos como nos cães modernos é, em grande parte, a mesma. Há muito poucas mutações genéticas que encontrámos nos nossos cães antigos que não encontrámos nos cães modernos”, explica Krishna Veeramah. As semelhanças genéticas eram sempre maiores entre os cães antigos e os cães modernos do que com os lobos e os cães modernos.

Então, concluíram que os cães que viveram com os primeiros agricultores europeus há sete mil anos são antepassados dos cães domésticos de hoje em dia. “Os nossos dados também parecem mostrar que todos os cães modernos do mundo foram domesticados a partir de uma única população de lobos entre há cerca 20 mil a 40 mil anos, mas não sabemos ainda como isso aconteceu.” Esta conclusão está em contradição com o resultado do estudo na Science em 2016, que o atribuía a populações de lobos de dois sítios distintos.

Contudo, os autores não atribuem um sítio a esta única origem geográfica. E porquê? “O nosso exemplar mais velho tem sete mil anos, ou seja, é mais recente do que o momento da domesticação. Além disso, quase todo o genoma dos cães antigos está restrito à Europa”, justifica Krishna Veeramah, e acrescenta que espera que mais genomas de cães antigos sejam sequenciados.

Através das semelhanças genéticas também concluíram que os lobos e os cães divergiram há cerca de 40 mil anos. “O processo de domesticação foi provavelmente passivo, com uma população de lobos a viver nos arredores dos acampamentos dos caçadores e a viver à custa dos restos produzidos pelos seres humanos”, argumenta Krishna Veeramah. “Estes lobos eram mais mansos e menos agressivos e tiveram sucesso devido a isso. Enquanto os humanos não ganharam nada com este processo, ao longo do tempo, foram desenvolvendo uma relação simbiótica com estes animais. Por fim, evoluíram para os cães de hoje em dia.”

Um dente velhinho

Mas calma, este é apenas mais um passo na história da domesticação dos cães. “O estudo sobre o local e a data da domesticação do cão ainda não está fechado por causa das variantes usadas em cada investigação”, considera Elisabete Pires, investigadora em zooarqueogenética no Laboratório de Arqueociências (da Direcção-Geral do Património Cultural) e no Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-InBIO) da Universidade do Porto (e que não fez parte do estudo). A investigadora refere que as conclusões dos estudos acabam por ser diferentes porque se uns usam ADN mitocondrial (herdado por via materna) outros consideram o ADN nuclear (do pai e da mãe). Ou ainda, algumas investigações só usam animais modernos e outras acabam por incluir fósseis.

“No caso deste estudo, temos a produção de imensos dados a nível genómico de dois restos antigos de cão do período Neolítico (do princípio e do final). Foi um estudo paleogenómico, mas, como se pode constatar, são só dois restos e da região da Alemanha”, argumenta. “Apesar do detalhe genómico de cada resto ser muito profundo, não temos informação recolhida directamente de outros restos, de outros locais e de outros períodos com este nível de cobertura [número de vezes que um genoma foi sequenciado].” Os próprios autores destacam isso mesmo no final do artigo científico: “Embora as análises de três genomas do Neolítico da Europa tenham ajudado a reduzir o momento da domesticação, não são suficientemente velhos nem têm a amplitude geográfica para resolver esta questão.”

O que traz então de novo este estudo? “Traz informação genómica extensa adicional para os cães antigos do Neolítico. Este estudo revê o assunto do período da domesticação do cão e avança com um intervalo mais curto para uma data [provável depois ser apontada] ”, responde Elisabete Pires. “Um estudo multidisciplinar que inclua zooarqueogenética, história (para períodos mais recentes) é o que se espera”, frisa.

E cá por perto, desde quando há cães? Se considerarmos toda a Península Ibérica, o vestígio mais antigo de um cão é um úmero, encontrado em Erralla (no Norte de Espanha), e estima-se que tenha entre 19 mil a 12 mil anos, informa-nos Elisabete Pires, que estuda a origem e evolução dos cães, sobretudo dos que viveram na Península Ibérica e no Norte de África.

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Esqueleto de cão com cerca de 7600 anos exposto no Museu Geológico, em Lisboa Filipe Arruda/Arquivo

Se nos restringirmos só a Portugal, encontramos dois esqueletos de cão quase completos do período Mesolítico com cerca de oito mil anos. Um foi encontrado num dos concheiros de Muge, no concelho Salvaterra de Magos. O outro foi descoberto no concheiro de Poças de S. Bento, em Alcácer do Sal, e até tem um nome: é o Piloto. Além destes cães quase completos, há mais quatro vestígios. “O vestígio de cão mais antigo encontrado em território português até ao momento é um dente, encontrado em Vale de Boi, no Algarve, e tem a datação directa por radiocarbono de 7965-7848.”

E assim, pista a pista, vestígio a vestígio, se vai farejando a história evolutiva do cão.