Confeitaria Serrana é uma obra de arte mas a curiosidade está a acelerar a degradação

O edifício da Rua do Loureiro, onde no início do século funcionou a ourivesaria Cunha passou a ser um dos locais obrigatórios da visita dos muitos turistas que visitam a cidade que procuram descobrir o que existe além da fachada. Com o aumento das visitas aumentou também o desgaste do espaço.

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Passam poucos minutos depois das 18h de um dia da semana e falta menos de uma hora para a Confeitaria Serrana, na Rua do Loureiro, Porto, fechar. Entra nessa altura um casal de turistas estrangeiro para espreitar a obra de arte que se esconde dentro do edifício, que nos últimos anos foi descoberta por muitos dos locais e forasteiros que até então não adivinhavam o que lá dentro se escondia.

Já não é novidade para muitos dos que passam frente ao número 52 da rua que, além da montra composta pelas bolas de Berlim recheadas que também dão fama à casa, há mais para descobrir para lá da fachada que poderia passar despercebida.

Como este casal que por lá passa, durante o dia foram muitas as dezenas que lá também foram para matar a curiosidade. Todos os dias é assim.

Quem entra na confeitaria, à primeira vista, parece estar num estabelecimento do género igual a tantos outros. No piso de baixo, há um balcão, paredes espelhadas e luzes neon em redor de todo o andar inferior. É no primeiro piso que está a curiosidade. No tecto, para “espanto de muitos”, por cima do varandim com gradeamento de ferro que dá a volta a todo o andar de cima, de estilo Arte Nova, está um quadro que ocupa quase toda a área, pintado por Acácio Lino. Na mezzanine estão ainda dois anjos esculpidos por José de Oliveira Ferreira. É este o “tesouro”, que de acordo com Mónica Oliveira, proprietária da Serrana, tem atraído muitos turistas que nos últimos anos aumentaram em número. Os número de turistas aumentou, aumenta também o desgaste do espaço.

A pintura está lá desde 1912, já depois de o edifício ter sido construído “antes ou durante o século XIX”. A proprietária diz que o primeiro registo que se conhece do edifício data de 1869, altura em que foi construído o primeiro andar. Mas foi há menos de uma década, sobretudo quando a obra de Acácio Lino completava o centenário, que a afluência de turistas aumentou. A exposição que teve na imprensa e o “passa a palavra”, transformaram a confeitaria num dos sítios de passagem obrigatória de quem visita a cidade.

Para a proprietária o interesse demonstrado e o movimento que se tem vindo a registar são mais valias para o negócio. Contudo há um senão. Já há vários anos que a a pintura precisa de um restauro, assim como o estuque do tecto e o varandim. Com a maior afluência de visitantes desgasta-se também o piso de madeira do primeiro andar e da escadaria.

Ainda durante o mandato de Rui Rio, tentou junto da câmara um apoio para restaurar o varandim e o quadro pintado por Acácio Lino (1878-1956), que se licenciou em Belas Artes, depois de desistir do curso de medicina, actividade profissional de grande parte dos 12 irmãos do pintor. A resposta não foi favorável. Cada ano que passa é mais um ano em que o estado de conservação da tela se agrava. A pintura, onde estão representadas joias, algumas figuras angelicais e um pavão está numa zona permeável a infiltrações de humidade. Num dos cantos do tecto é possível ver algumas marcas dessas infiltrações.

O trabalho do artista, a quem o pai cortou a mesada depois de ter trocado Medicina por Belas Artes, o que o obrigou a pintar retratos para poder garantir uma fonte de rendimento para poder pagar o curso, pode ser visto, de acordo com a biografia disponibilizada no site da faculdade que frequentou, em museus e entidades portuguesas, públicas e privadas, como o Palácio de S. Bento (Sala Acácio Lino), o Museu Militar, em Lisboa; a Biblioteca Pública Municipal do Porto, a Câmara Municipal do Porto, o Museu Nacional Soares dos Reis, a igreja dos Congregados ou o Teatro Nacional de S. João, também na mesma cidade.

Há esta obra isolada no edifício onde entre 1911 e 1914 esteve a Ourivesaria Cunha até se mudar para a Rua 31 de Janeiro. De resto, foi durante este período que a obra foi executada e quando foi feito o arranjo arquitectónico realizado por Francisco de Oliveira Ferreira, irmão do responsável pelas esculturas do piso superior. Nesta fase este edifício e o da Casa Arcozelo, ao lado, não estavam divididos. No prédio funcionou ainda uma loja de fazendas, em 1932, e um restaurante a partir de 1943. Desde 1953 que é Confeitaria Serrano, que a partir de 1976 é gerido pela família de Mónica Oliveira, que ainda divide a responsabilidade com a mãe. Actualmente, desde que o pai faleceu há sete anos, “é negocio da responsabilidade apenas de mulheres”. Como pasteleira contam com os braços de uma terceira.

É um espaço alugado. Não consta ainda da lista das primeiras 37 lojas históricas protegidas no âmbito do programa Porto Tradição que visa proteger espaços comerciais da nova Lei de Arrendamento, que poderá levar ao aumento de algumas rendas. Acredita que poderá ser abrangida por este programa, o que “será uma ajuda”. O aumento da renda poderá pôr em causa o negócio e o futura da proprietária, afirma. Até lá foi criando soluções para poupar pelo menos o desgaste do piso de madeira. A entrada para o piso de cima está vedado a clientes que não consumam até ao equivalente a 1,5 euros. “Posso assim ir poupando algum do desgaste”, diz.

Apesar de existir quem entre na confeitaria apenas para tirar fotografias, continua a querer receber cada vez mais visitantes, mas para isso gostaria de garantir que o espaço fosse reabilitado. “Trata-se de uma obra de arte e isso exige profissionais habilitados que não consigo pagar. Não quero dinheiro para as obras. O que peço é ajuda na mão-de-obra”.