Morreu Martin Landau, o único Béla Lugosi a ganhar um Óscar

Estrela da TV americana dos anos 1960, trabalhou no cinema com Mankiewicz, Hitchcock, Coppola ou Woody Allen. Com Tim Burton, ressuscitou a figura mítica de Lugosi em Ed Wood. Tinha 89 anos.

Martin Landau arrecadou, em 1995, o Óscar para Mehor Actor Secundário
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Martin Landau arrecadou, em 1995, o Óscar para Mehor Actor Secundário Reuters/Blake Sell

Martin Landau morreu neste sábado, aos 89 anos, informou o seu agente, Dick Guttman. O actor norte-americano, que venceu um Óscar para Melhor Actor Secundário em 1995 por Ed Wood, esteve brevemente hospitalizado no UCLA Medical Center, mas “complicações inesperadas” no seu estado de saúde acabaram por ser-lhe fatais.

A longa carreira de Martin Landau, que nasceu a 20 de Junho de 1928 em Nova Iorque, arrancou na década de 1950. Começou pela televisão, onde viria a tornar-se uma estrela como o mestre do disfarce na série Missão Impossível, e só depois chegou ao cinema. Trabalhou com realizadores como Joseph L. Mankiewicz, Alfred Hitchcock, Francis Ford Coppola ou Woody Allen, e ainda se mantinha no activo (tem filmes por estrear).

A Academia distinguiu-o com uma estatueta dourada pelo desempenho em Ed Wood, de Tim Burton, no qual interpreta o actor húngaro Béla Lugosi – famoso ele próprio pelo Drácula de 1931, mas sempre longe do reconhecimento formal que Hollywod reserva aos seus favoritos.

“Lugosi tinha uma intensidade palpável e uma presença que não se pode comprar, mas esta merda desta cidade [Hollywood, claro] cagou nele… E eu posso identificar-me com isso. Já vi acontecer o mesmo muitas vezes. Já vi acontecer-me o mesmo”, disse sobre o colega pouco tempo antes de ganhar o Óscar pela sua interpretação no filme de Burton, em 1995, sublinhando uma cruel semelhança entre ambos, lembra o jornal britânico The Guardian.

Eterno secundário

Apesar de ter escolhido fazer carreira no cinema, foi pelos jornais que Landau começou. Filho de imigrantes judeus nascido em Brooklyn, juntou-se ao New York Daily News como cartoonista aos 17 anos. Foi aí que trabalhou durante cinco anos, até que decidiu que queria ser actor e se candidatou ao célebre Actors Studio, a fábrica de estrelas de Lee Strasberg. As provas eram apertadas e nesse ano de 1955 só dois candidatos foram aceites – Landau dividiu a honra com aquele que viria a ser um dos ícones da indústria norte-americana, Steve McQueen, mas suas carreira não podia ter sido mais diferentes. A de McQueen, bem mais próxima da mistura de glamour, irreverência e escândalo que os estúdios procuravam (e ainda procuram, dirão alguns) foi bem mais fulgurante e acabou mais cedo – o actor de Bullitt morreu em 1980, aos 50 anos. McQueen era sempre a estrela, Landau o que passava quase sempre despercebido aos olhos da indústria.

A carreira de Landau no cinema arrancou em 1959, num pequeno filme sobre a guerra da Coreia, e seguiu pela mão do mestre do suspense numa produção de grande orçamento em que todos recordam a presença de Cary Grant e uma célebre perseguição com um avião (Intriga Internacional). Seria de esperar que esta colaboração inicial com Hitchcock, ainda que num papel discreto, lhe abrisse portas, mas os anos 60 foram difíceis, com pequenas participações em grandes sucessos como Cleópatra e A Maior História de Todos os Tempos.

Foi a televisão que lhe deu a primeira oportunidade de agarrar uma personagem de relevo. Foi em 1966 com Missão Impossível, com Martin Landau na pele – será mais rigoroso dizer nas múltiplas peles – de Rollin Hand, mestre do disfarce. Este papel, escreve o Guardian, deu-lhe a possibilidade de mostrar muitas das ferramentas técnicas que tinha adquirido no Actors Studio, mas tornou-lhe a vida em Hollywood ainda mais difícil. “Ninguém me conhecia. Só sabiam [produtores, realizadores, directores dos estúdios] que eu era o tipo de Missão Impossível.”

Na década seguinte voltou a ser a televisão a fazer dele a estrela na série de ficção científica Espaço 1999, com Martin a voltar a contracenar com a actriz que já conhecera em Missão Impossível e que já era então sua mulher, Barbara Bain. Um êxito global, transmitida em mais de 90 países, foi uma das grandes divulgadoras do rosto e da carreira de Landau. A série britânica (1975) teve duas temporadas e gerou muitos fãs, teve influência nos efeitos visuais do filme que viria a mudar o seu género - Star Wars - e foi alvo de muitas críticas pela forma solta como encarava a parte científica da ficção científica. Como explicava há dois anos a RTP, que a transmitiu na década de 1970 e a repôs nos anos 1980, foi a primeira grande série de ficção científica a passar na televisão portuguesa - Star Trek (ou Caminho das Estrelas, em português), na qual Martin Landau foi convidado e recusou participar nos anos 1960, viria depois para os ecrãs portugueses.


Space: 1999 - Series Intro with Barbara Bain...

Foi Francis Ford Coppola que em 1987 o resgatou para o cinema fazendo dele o financeiro Abe Karatz no sucesso de bilheteiras Tucker – Um Homem e o seu Sonho (1988), filme biográfico protagonizado por Jeff Bridges sobre o designer de automóveis Preston Tucker. O filme, um projecto que Coppola esperou dez anos para fazer e que no original tinha Marlon Brando no papel principal, acabou por valer a Landau o Globo de Ouro de actor secundário, categoria em que receberia ainda uma nomeação da Academia.

Um ano mais tarde Hollywood repetiria a nomeação quando Landau entrou em Crimes e Escapadelas, comédia de Woody Allen em que se transforma em Judah Rosenthal, um rico oftalmologista cujas infidelidades o levam a lidar com o homicídio e a culpa.

As atenções da Academia só se transformaram em Óscar com Ed Wood, filme de Tim Burton em que Landau é um Lugosi pobre, envelhecido e viciado em morfina. Atenções que foram partilhadas com os Globos de Ouro, com várias associações de críticos (Nova Iorque, Los Angeles, Chicago, Boston) e o sindicato dos actores (Screen Actors Guild) – todos o premiaram.

Numa entrevista ao The Jewish Journal, recorda agora a revista Hollywood Reporter, Martin Landau admitiu que a carreira de actor foi “uma jogada impulsiva”, um “sonho” que o levou a deixar um emprego bem-pago (o de cartoonista) para o qual tinha talento sem certezas nenhumas. “Até hoje consigo ouvir a voz da minha mãe a perguntar-me: ‘fizeste o quê?!’.”

Mesmo que o seu percurso o tenha transformado num protagonista na televisão – nos últimos anos fez sobretudo pequenas participações como actor convidado – e num eterno secundário no cinema, muitas vezes ignorado pela indústria, Landau sempre foi elogiado pelos seus pares, que lhe reconheciam o talento para trabalhar em diferentes registos.

Foi por gostar de fazer uso das ferramentas de que dispunha como intérprete que Landau recusou o papel de Mr. Spock em Star Trek – “francamente, um tipo que fala num tom monocórdio, que nunca se entusiasma, nunca sente qualquer culpa, nunca tem medo nem é afectado de forma visceral… Quem é que quer esse papel?”, perguntava em jeito de reflexão a respeito de Spock – e teve uma carreira bem-sucedida como professor (Jack Nicholson foi seu aluno e orgulha-se disso).

Está a ser preparado um documentário sobre a sua vida e chama-se, apropriadamente, An Actor’s Actor: The Life of Martin Landau. Será que nele se fala da sua amizade com James Dean e dos meses em que Landau pôde dizer que Marilyn Monroe era sua namorada?