Opinião

O Governo do “incha, desincha, mas não passa”

E surpresa das surpresas, o mesmo primeiro-ministro que deu o assunto por indiscutivelmente encerrado, afinal aceita e compreende as demissões.

1. A demissão ao retardador de três secretários de Estado é o exemplo acabado do modo como o Governo Costa encara a política. Desde o início de funções — e até antes disso —, Costa adopta uma atitude puramente táctica. Só o curto prazo interessa; a substância dos problemas não o mobiliza e não o desperta. Porque será que esta onda de demissões é tão reveladora da verdadeira índole do Governo Costa? Justamente porque os efeitos das suas acções e posições só se vêem e sentem ao retardador. Quando já toda a gente esqueceu as causas, rebentam com estrondo as consequências.

Há um ano atrás, Costa jurava que o assunto das viagens ao Euro estava encerrado e que nada mais havia a fazer ou a dizer. E durante um ano, os ditos governantes conviveram sobranceiramente com esta “fatwa” de “assunto encerrado”. Assim que perceberam que o Ministério Público não comungava da mesma ligeireza e havia já constituído arguidos os seus mais directos colaboradores, trataram de se antecipar. Cura-se não de uma demissão voluntária, mas sim de uma demissão forçada e oportunista, para não passar pelo vexame de, depois de juras de irrelevância dos seus comportamentos, ter de carregar o ónus da constituição de arguido em pleno exercício de funções. E surpresa das surpresas, o mesmo primeiro-ministro que deu o assunto por indiscutivelmente encerrado, afinal aceita e compreende as demissões. Ora, das duas, uma: ou o Governo não via qualquer mal nas ditas viagens ou o Governo já há muito se tinha apercebido do risco de suspeições éticas (mesmo acreditando que não havia ilícito) e obviamente tinha de ter dispensado os visados. Eis um episódio — mais um — que revela em todo o seu esplendor o lema natural do “costismo”: “incha, desincha e passa.”

2. Precisamente por causa deste mote do “incha, desincha e passa”, pode até ter passado pela cabeça de Costa que esta crise, decerto não desejada, veio mesmo a calhar. Ao falar-se das falhas éticas de três governantes e ao castigá-las com demissões, pode ser que a opinião pública se esqueça das tribulações por que passam o Ministério da Administração Interna e o Ministério da Defesa. Pensará quiçá que, enquanto se fala das viagens ao Euro 2016, não se volta a falar da derrocada de todos os serviços da protecção civil e da evidente falta de liderança da ministra que os tutela, supervisiona ou até dirige. E não se torna também a falar do mais grave incidente de segurança das Forças Armadas portuguesas depois do 25 de Abril, que pôs seriamente em causa a reputação internacional dessas mesmas forças e que está a abalar visivelmente a sua coesão e disciplina interna.

3. Claro que o primeiro-ministro tudo vai desvalorizar, nessa óptica de banalização, vulgarização e normalização das disfunções governativas, que lhe permitiu fazer ou manter férias num momento de crise aguda. Só a mentalidade do “incha, desincha e passa” pode explicar que António Costa se tenha eclipsado por mais de oito dias. Silêncio, inércia e displicência especialmente graves no caso das forças militares, porque não houve uma palavra ou um gesto de reforço da confiança, da coesão e da autoridade no Exército. O contraste com o sentido de responsabilidade e de devoção institucional do Presidente da República não podia ser mais gritante. Pode ser que, por agora, esta sobranceria negligente não rebente nem expluda. Mas, tal como sucedeu com as incautas viagens dos ora demissionários, os efeitos produzir-se-ão ao retardador.

4. Para se perceber que a tripla demissão é um afloramento de vícios governamentais da mesma natureza dos que afectam os ministérios de soberania, basta tomar dois exemplos. Na Administração Interna, já alguém se deu ao trabalho de repescar as declarações da ministra no ano passado e, designadamente, no início deste ano, sobre a preparação dos serviços de protecção civil para a prevenção e o combate a incêndios? A ministra não podia ser mais categórica: tudo estava como nunca esteve! Basta compulsar estas declarações para imediatamente assacar responsabilidade política à ministra. Como pode alguém fazer aquelas afirmações peremptórias sobre a futura época de incêndios e depois vir dizer que afinal ela nada tem a ver com a descoordenação, o falhanço e a derrocada dos vários corpos institucionais envolvidos? A atitude da ministra imita a de Costa: dá os casos por encerrados, bem antes de eles terem o seu epílogo. A ministra bem pode fugir e fingir que nada é com ela; mas não subsistam dúvidas: um incêndio que mata 64 pessoas não poderá nunca ser encapsulado na “máxima máxima” deste Governo: “incha, desincha e passa.”

5. E se formos à Defesa, vejamos o caricato de, em plena comissão parlamentar, o ministro vir sustentar que a reputação das Forças Armadas portuguesas não ficou abalada por este gravíssimo roubo. A citação de uma afirmação de confiança em Portugal no telefonema privado do secretário-geral da NATO só pode colher num país sem grande tradição de escrutínio parlamentar e mediático. Ninguém duvida de que o secretário-geral tenha dito isso. Mas nesse telefonema, não terá mostrado preocupação e inquietação com esta falha do Exército? Terá mesmo telefonado só para assegurar essa confiança? E acaso alguém mede a reputação pelo que diz um responsável oficial? Não se aquilatará ela pelo alarme revelado na imprensa internacional? Alguém, conhecendo o alerta terrorista subsistente em tantos países, nomeadamente na França e no Reino Unido, pode mesmo crer que um assalto com estas características não abala fortemente a credibilidade das Forças Armadas? O argumento da conversa telefónica, depois também glosado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, releva, mais uma vez, dessa perniciosa regra de ouro do Governo: “incha, desincha e passa.”

Infelizmente, mais cedo do que tarde, acordaremos com a certeza contrária: inchou, desinchou, mas não passou.     

SIM e NÃO

SIM. Presidente da República. A forma como tem sabido estar presente e actuante na mais grave crise da nossa protecção civil e num delicado momento das forças armadas é exemplar.

NÃO. Primeiro-ministro. A ausência em férias, no auge de uma séria crise militar, é de uma displicência gritante. Para um político com a sua experiência, não há atenuantes nem desculpas.

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