Opinião

Ao encontro do notável progresso em Portugal da ciência e tecnologia

É fundamental embarcar num novo e ambicioso programa que permita rentabilizar nas engenharias e nas empresas o sucesso das ciências do Universo.

O Encontro Ciência 2017 [esta semana em Lisboa] permite celebrar o extraordinário percurso da ciência portuguesa nos últimos 30 anos, reflectir sobre as razões desse sucesso e apontar ideias para o futuro.

Não foi apenas a ciência e a tecnologia que mudaram de tal modo em Portugal. De 1981 a 2015 a média anual de crescimento da produção científica foi 13%, a mortalidade infantil decresceu em média 6,7% por ano, e a média do PIB nacional cresceu 1,9% por ano. Em resumo, a ciência e o Sistema Nacional de Saúde, indicadores importantes do posicionamento do país no contexto europeu e mundial, tiveram uma evolução positiva muito superior à evolução da economia nacional.

Foquemo-nos agora na área das ciências do Universo, ou ciências do espaço, como exemplo de boas práticas internacionalmente reconhecido. Na sequência das Primeiras Jornadas Científicas organizadas pela Junta Nacional de Investigação Científica em 1986, foram feitos os primeiros contactos com as duas organizações intergovernamentais nesta área: a Agência Espacial Europeia (ESA) e o Observatório Europeu do Sul (ESO).

Em 1989 Portugal negocia e assina um acordo com o ESO, a organização europeia para a astronomia, contemplando: a) o acesso dos investigadores portugueses aos telescópios; b) o compromisso de investir nacionalmente durante dez anos a quota que Portugal pagaria como membro; c) a decisão de adesão ao fim desse período.

Esse investimento permitiu desenvolver uma comunidade de investigadores em ciências do Universo, financiou a investigação numa multiplicidade de vertentes (teórica, computacional/modelização, experimentação/observação) e tecnologias associadas às mais diversas subáreas (como a gravitação, planetas, buracos negros, cosmologia, estrelas ou galáxias). Criou-se em Portugal de uma comunidade científica jovem, bem treinada e internacionalmente competitiva.

O ESO é responsável pela construção e operação de diversos grandes observatórios no Chile, instalados em locais com condições atmosféricas excepcionais para a observação do Universo. Está agora a construir o que será o maior telescópio do mundo – o Extremely Large Telescope (ELT) em Armazones, que ficará concluído durante a próxima década.

Portugal é membro do ESO desde 2000 e participa na construção e manutenção das infra-estruturas através de contratos competitivos às empresas. E apesar da contribuição nacional representar apenas 1,2% do orçamento do ESO, os nossos cientistas asseguram a utilização competitiva de cerca de 2,4% do tempo de telescópio disponível e representam 2,9% dos peritos nos painéis de avaliação. Proporcionalmente Portugal utiliza, em termos científicos, cerca do dobro do que contribui para o ESO.

O sucesso na área das ciências do espaço não se resume apenas ao ESO mas também ao envolvimento no programa científico da ESA, com uma actividade que não se esgota nos telescópios no solo e no espaço.

As ciências do espaço são em Portugal a área científica com maior visibilidade relativa quando comparada com os países da União Europeia (dados da DGEEC).

Os dados do programa Incentivo da FCT mostram também que no 7º Programa-Quadro (FP7) por cada euro de financiamento da FCT as unidades de investigação nesta área obtiveram 2,4 euros de financiamento FP7, enquanto que a média nacional foi 0,54 euros. As ciências do espaço multiplicam, em fundos europeus, mais do dobro o financiamento nacional.

Quanto à ligação das ciências do Universo à sociedade, em Portugal há um vigoroso programa de divulgação científica e promoção do conhecimento envolvendo as unidades de investigação, o Ciência Viva, os municípios, as escolas e associações, e diversas colaborações internacionais. Descobertas surpreendentes, como por exemplo as ondas gravitacionais ou planetas extra-solares, que estão associadas às tecnologias mais recentes, são meios poderosos para captar a atenção de públicos diversificados e motivar as novas gerações para a ciência e a inovação tecnológica.

Apesar de todos estes sucessos, é nossa opinião que as ciências do Universo se encontram numa encruzilhada. A comunidade tem grande visibilidade mas é de pequena dimensão. Tem um elevado grau de internacionalização mas a sua interacção em Portugal com grupos de engenharia e empresas tecnológicas é ainda limitada.

Parece-nos por isso fundamental embarcar num novo programa que permita rentabilizar nas engenharias e nas empresas o sucesso das ciências do Universo. A participação na construção do maior telescópio do mundo – o ELT – durante a próxima década é um desafio que não pode ser perdido por Portugal. As oportunidades de negócio e de desenvolvimento tecnológico associadas (da metalomecânica de precisão ao software para sistemas críticos, entre outros) constituirão uma oportunidade única para reforçar o cluster do espaço em Portugal. Será necessário, a nível nacional, programar cuidadosamente, mas com ambição, para que a próxima década seja potenciadora de um desenvolvimento tecnológico e científico no país tão determinante como nos últimos 30 anos.

Teresa Lago (delegada científica ao Conselho do ESO até 2013) e Paulo Garcia (delegado científico ao Conselho do ESO desde 2014)