Crítica Cinema

Parem o mundo que eu quero sair

Um actor em boa forma, uma história inteligente contada de maneira adulta, um filme com uma ideia narrativa e formal – andam a fazer-nos falta mais assim.

<i>A Vida em Espera</i> tem uma dimensão literária incomum
A Vida em Espera tem uma dimensão literária incomum
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Não falta pedigree a esta segunda realização da argumentista Robin Swicord: a nora do falecido Elia Kazan, nomeada para o Óscar por O Estranho Caso de Benjamin Button, de David Fincher, adapta aqui um conto de 2008 do romancista E. L. Doctorow (já de si, uma variação sobre uma novela de Nathaniel Hawthorne), que esteve ainda ligado à produção mas morreu antes do início das filmagens. Essa dimensão literária torna A Vida em Espera uma espécie de “corpo estranho” no actual cinema americano — um filme adulto com um dispositivo invulgar, substituindo os diálogos pela voz off, ancorado inteiramente numa única interpretação que tem de transportar todo o filme, e as suas múltiplas mudanças de tom, aos ombros.

Bryan Cranston é francamente muito bom no papel deste advogado nova-iorquino que literalmente sai da sua própria vida aparentemente perfeita: depois de um “daqueles dias” terminado com uma avaria no comboio suburbano, Howard Wakefield decide passar a noite no sótão da garagem e, em vez de retomar a vida normal na manhã seguinte, deixa-se ficar e desaparece sem deixar rasto da vida que antes levava. Robin Swicord fica com ele no sótão (e também nas traseiras da casa dos Wakefield e nas ruas dos subúrbios onde moram, e nas memórias que pontualmente surgem para iluminar alguns pontos da trama) durante esta espécie de “retiro monástico” em que Howard literalmente “muda de pele” enquanto observa pela janela do sótão a esposa e as filhas a refazerem a sua vida sem ele. “Mudar de pele”, aqui, implica deixar para trás o supérfluo e concentrar-se na essência, reconstruir a vida fora do mundo. Fantasia aspiracional do privilegiado de colarinho branco frustrado com o rame-rame quotidiano? Sim, claro: é assim que A Vida em Espera começa, pintando Howard como um idiota convencido, para depois deixar o seu voyeurismo narcisista trazer ao de cima a verdadeira solidão e insatisfação de um homem que se deixou vencer pelas suas ilusões e acreditou nas suas próprias manipulações.

Swicord acaba muito bem o filme e começa-o ainda melhor, mas não tem tarimba para aguentar sempre A Vida em Espera ao mesmo nível. A história exige algumas mudanças brutais de tom que a realizadora nem sempre maneja com sucesso; a banda-sonora derivativa de Aaron Zigman (que começa a pastichar Philip Glass mas chama demasiado a atenção sobre si); sobretudo, há uma sensação de que na sua maioria as personagens secundárias são meros pretextos funcionais para Howard aprender a sua lição de vida. Mas a força da interpretação de Cranston e a maneira como Swicord lhe dá espaço para respirar, construindo uma espécie de “laboratório emocional” que encara de frente muita da insatisfação social contemporânea, transformam A Vida em Espera numa obra singular mesmo que aquém das ambições.