Crítica Cinema

Engana-me que eu gosto

Nas mãos de Luc Bondy e com a divina Huppert à cabeça, um clássico teatral de Marivaux torna-se numa comédia romântica desconstruída e reconstruída.

Isabelle Huppert explora aqui o seu lado mais vulnerável, mais descontraído, mais ligeiro, que não vemos tanto como gostaríamos
Isabelle Huppert explora aqui o seu lado mais vulnerável, mais descontraído, mais ligeiro, que não vemos tanto como gostaríamos
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Vamos, por um momento, abstrair-nos da presença da divina Isabelle Huppert a encabeçar o elenco de As Falsas Confidências para falar da questão que começa por colorir esta adaptação sui generis da peça de Marivaux, um dos dramaturgos-chave do Século das Luzes. Filmado pelo encenador Luc Bondy (1948-2015) durante a sua produção da peça no teatro parisiense do Odéon, com o exacto mesmo elenco, o filme assumiu desde o início uma direcção completamente distinta da encenação. Em vez de filmar a encenação de palco, Bondy usou o próprio edifício do Odéon — átrios, camarins, escadarias, bastidores, bares, varandas… tudo, à excepção do palco e da sala — como “palco”, rodando durante o dia enquanto à noite se representava a peça.

Mas Bondy morreu em Novembro de 2015, antes de terminar a montagem do filme, que foi completado de acordo com as suas indicações pela viúva, Marie-Louise Bischofsberger, e pelo produtor, Pierre-Olivier Bardet, e se estreou em Agosto de 2016 no Festival de Locarno. O que aqui se vê, então, é um filme “póstumo” que se quer fiel à concepção do seu verdadeiro autor, mas onde é legítimo questionar a adequação de alguns elementos menos felizes (um ou outro pormenor de montagem mais abrupto, a banda-sonora de Bruno Coulais).

No entanto, a leitura que Bondy propõe destas Falsas Confidências — elaborada teia de enganos românticos à volta de uma trama interesseira, que descamba em amor verdadeiro entre uma dama nobre e um jovem arrivista — é uma construção tão robusta quanto delicada, tão profundamente teatral quanto intrinsecamente cinematográfica. Ao usar o próprio edifício do Odéon como palco de um jogo romântico onde toda a gente representa um papel, e ao deixar de fora a sala de teatro, Bondy transfere a comédia de enganos para os espaços privados onde ela realmente pertence; sublinha como o verdadeiro amor de que todos falam e que todos procuram é algo que pertence à esfera pessoal, que não é feito para estar sob os holofotes ou o olhar público.

Agora, sim, podemos ir buscar a Huppert. Que explora aqui o seu lado mais vulnerável, mais descontraído, mais ligeiro, a sua graça de comédienne que não vemos tanto como gostaríamos, mas que está tão em sintonia com a leveza sempre em movimento da proposta de Bondy que é difícil não a seguirmos, hipnotizados, mesmo que ela própria se apague com prazer para deixar o restante elenco brilhar. O estado de graça resultante desse encontro entre Bondy e Huppert envolve todo o filme, anula as dúvidas do “filme póstumo” e eleva As Falsas Confidências acima do estatuto de “filme menor”, para o tornar numa comédia romântica desconstruída e reconstruída perante os nossos olhos.