Quanto menos calorias, mais fracos vão ficar os parasitas da malária

Equipa de Maria Mota publica um artigo na revista Nature que demonstrou, em ratinhos, que uma redução calórica de 30% na dieta faz abrandar a multiplicação de parasitas da malária, tornando a infecção menos agressiva.

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Mosquito Anopheles que transmite aos humanos o parasita da malária JamesGathany

Quando estamos doentes, dizem-nos que é importante estarmos bem alimentados para combater a infecção. Dizem-nos que, assim, teremos forças para combater o mal que ataca o nosso organismo. Ora, os resultados da investigação de Maria Mota, cientista do Instituto de Medicina Molecular (IMM) de Lisboa, vêm agora dizer-nos o contrário. Num artigo publicado na edição desta quinta-feira da revista Nature, os investigadores mostram que uma redução calórica de 30% na dieta de ratinhos com malária fez abrandar a infecção.

“O que descobrimos parece um bocadinho óbvio. Qualquer agente infeccioso que causa uma doença depende de dois factores importantes: da genética do agente infeccioso (se é muito virulento ou não) e da nossa capacidade de resposta (se e como o conseguimos debelar ou não)”, começa por explicar Maria M. Mota ao PÚBLICO. Neste trabalho demonstra-se que o parasita da malária (o Plasmodium falciparum, um parasita que só afecta os humanos e que é transmitido pela picada dos mosquitos (pela fêmea) Anopheles) tem “a capacidade sensorial de determinar qual é o estado nutricional do hospedeiro”. Mais do que apenas saber o que comemos, este agente infeccioso é capaz de se adaptar ao ambiente nutricional. O artigo publicado na Nature, que tem como primeira autora Liliana Mâncio Silva, investigadora da equipa de Maria M. Mota no IMM, relata as experiências (e resultados) feitas com animais. 

Neste caso, a equipa tinha um grupo de ratinhos a beneficiar de uma permanente happy hour no laboratório, com acesso a uma dieta equilibrada mas sem limites de quantidade, e outros a receber uma dieta equilibrada mas controlada, com um corte calórico na ordem dos 30%. “O que vimos foi que no grupo com corte calórico o parasita replica-se muito menos, torna-se muito menos agressivo e causa muito menos doença”, refere Maria Mota. Aliás, a cientista acredita que outros parasitas e até bactérias ou vírus deverão comportar-se da mesma forma. 

É claro que há um limite para esta dieta. A solução para derrotar o parasita da malária não é passar fome. Aliás, pode até nem implicar qualquer corte calórico, que eventualmente provocaria outros efeitos indesejáveis no nosso organismo. “Atenção, nós não estamos a propor que as pessoas deixem de comer quando estão infectadas com o parasita da malária ou qualquer outro. O interessante disto é que descobrimos que o parasita se replica menos porque tem uma antena que detecta o estado nutricional do hospedeiro e o que pretendemos agora é tentar encontrar maneiras de enganar esta antena.”

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Maria M. Mota é investigadora no Instituto de Medicina Molecular Tiago Machado

“Sabotar” uma antena

A “antena” é, na realidade uma enzima (a enzima KIN), que envia um sinal para o parasita. E Maria Mota espera conseguir sabotar esta comunicação com um fármaco que actuará sobre esta antena e fará com que envie o sinal de “redução calórica” para o parasita sem que seja necessário algum corte calórico ou outra alteração da dieta. Desta forma, será possível transformar o parasita muito agressivo num parasita atenuado, independentemente da alimentação do hospedeiro. “Já temos um projecto aprovado e financiamento do European Research Council para tentar cumprir este objectivo. Até já temos um fármaco que é usado para moléculas do hospedeiro que também ligam algumas destas antenas”, adianta.

De qualquer forma, a investigadora faz questão de sublinhar que o corte de 30% na dieta manteve os ratinhos perfeitamente saudáveis. E porquê 30%? “Porque só estamos autorizados a fazer esse nível de restrição nos animais”, explica.

Apesar de não ter sido possível fazer experiências com diferentes regimes alimentares com os ratinhos, a cientista adianta que foram realizados testes in vitro em células que mostraram que a redução do número de parasitas acompanhava a redução das calorias. “À medida que reduzíamos as calorias, o parasita multiplicava-se cada vez menos.”

Actualmente, a malária será responsável pela morte de uma criança a cada minuto que passa e apesar de uma redução do número de casos, todos os anos, há cerca de 200 milhões de novas infecções. Em África, todos sabemos, há severos problemas nutricionais e, por outro lado, este é o continente muito afectado por casos de malária. Como é que se explica este aparente paradoxo que se cria quando confrontamos a realidade com os resultados desta investigação? Maria Mota tem uma resposta simples: se os problemas de alimentação em África não existissem, o flagelo da malária seria ainda mais grave. A investigadora avisa ainda que a “África está a mudar muito”. “Neste momento, as Nações Unidas consideram que em 2020, 40% das mulheres africanas vão ser obesas.” 

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A investigadora do Instituto de Medicina Molecular Liliana Mâncio Silva é a primeira autora do artigo DR

Por outro lado, a relação entre a alimentação do hospedeiro e a agressividade da infecção não é sequer um dado novo, nota Maria Mota. “Depois de descobrirmos isto, fomos olhar para a literatura [científica] para ver o que já se sabia sobre isto. E em 1975 foi publicado um artigo na revista The Lancet que mostrava que mães que chegavam com as crianças aos hospitais para serem tratadas a outros problemas acabavam por receber refeições no hospital e, apesar de não terem qualquer sintoma de malária quando lá chegavam, então ficavam com níveis altíssimos de parasitas e muitas acabavam por morrer em pouco tempo.”

E o excesso de calorias? Há uma relação entre obesidade e malária? “Ainda não sabemos. Aqui simplesmente alterámos os níveis de calorias mantendo uma alimentação saudável”, diz, admitindo que este cenário também está a ser estudado. Porém, Maria Mota adianta que uma das experiências que foi feita em laboratório com os ratinhos passou por “levantar” as restrições calóricas a um grupo de animais que depois foi infectado com o parasita. “Ao fim de dois, três dias estes animais morreram com malária.” Apesar de não terem experimentado cortar as calorias a um grupo de ratinhos alimentados sem restrições e já infectados, a investigadora acredita que o número de parasitas iria abrandar rapidamente. “O parasita responde em 24 horas.”

O exército e a guerra

Há vários anos que os cientistas tentam encontrar uma vacina eficaz para ganhar a velha guerra contra a malária. Enquanto se espera por esta solução ideal, há várias frentes de ataque em curso. Algumas estratégias de combate têm como alvo a fase mais silenciosa da doença, quando o parasita se instala no fígado do hospedeiro, e outras apontam para a etapa sintomática da doença que acontece quando o parasita invade as células do sangue. O objectivo é, enquanto não conseguimos eliminar este inimigo, conseguir enfraquecê-lo e minimizar os danos.

O estudo de Maria Mota é mais uma possível arma para tornar o exército do parasita da malária mais fraco. Ao “sabotar” o sistema de alerta usado pelo parasita, conseguir-se-á reduzir o número de soldados. Ou seja, um parasita atenuado. O desenvolvimento de um fármaco capaz de forçar o sinal emitido pela enzima quando o hospedeiro sofre um corte calórico é o próximo passo da investigação. Falta também perceber melhor o processo de comunicação que está por trás da emissão do alerta, nomeadamente, identificar os intermediários desta mensagem. Como é que a antena recebe o sinal do corte calórico? E como a emite? Quem são os intervenientes (moléculas) responsáveis pela transmissão desta mensagem? Só assim sabemos como e onde interferir. “Não percebo muito de guerras, mas sei que quando atacamos um exército temos de o conhecer o melhor possível para descobrir os seus pontos fracos e garantir o sucesso do ataque.”