Fernanda Fragateiro olha de frente a ausência das mulheres na arquitectura

A exposição de Fernanda Fragateiro inaugura um novo ciclo no MAAT dedicado a artistas portugueses com percurso internacional e a meio da sua carreira. Mostra obras dos últimos dez anos que reflectem sobre o espaço.

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Construir é destruir é construir, de 2009. LUSA/NUNO FOX
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Muro, de 2017 LUSA/NUNO FOX
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Architecture, a place for women?, de 2016 (durante a montagem) Leonor Carrilho
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A escultora Fernanda Fragateiro LUSA/NUNO FOX
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Fernanda Fragateiro está em frente à peça que deu origem à exposição que esta quarta-feira abre ao público no Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT), em Lisboa. A artista explica que Architecture, a place for women? foi adquirida no ano passado por Pedro Gadanho, director do MAAT, no Armory Show, a mais antiga feira de arte de Nova Iorque, e que foi esta interrogação sobre a visibilidade das mulheres no mundo da arquitectura que despoletou o convite para fazer a exposição na Galeria 2 do Edifício Central.

Fernanda Fragateiro: dos arquivos à matéria, à construção, comissariada por Sara Antónia Matos, inaugura, ao mesmo tempo, um novo ciclo no MAAT dedicado a artistas portugueses a meio da sua carreira, já com um reconhecido percurso internacional, que fazem parte da colecção de arte da Fundação EDP, a que pertence o museu lisboeta.

A peça, que passou a integrar a colecção EDP ao lado de outras duas obras mais antigas de Fragateiro, junta-se às outras 18 esculturas que ocupam a Galeria 2 do Edifício Central Tejo até Setembro, seis delas concebidas de propósito para esta exposição.

Como “o tema da ausência das mulheres na produção de espaço é para olhar de frente”, sublinha a artista durante a visita guiada que fez aos jornalistas, é mesmo em frente aos nossos olhos — mais exactamente à altura dos olhos de Fernanda Fragateiro — que esta viga construída através de milhares de folhas foi colocada, dificultando a circulação, porque atravessa um dos espaços da montagem de parede a parede. “Está colocada ao nível dos nossos olhos para sentirmos que nos intimida”, continua.

Como é habitual, a artista justapôs verticalmente um conjunto de textos e imagens, neste caso revistas de arquitectura cortadas, a Domus e a Abitare. Da revistas, só vemos o perfil milimétrico das páginas enquadradas por um fino suporte de aço inox, transformando-as num objecto a cujo conteúdo não temos acesso. Fernanda Fragateiro encara também estes objectos-esculturas, de que há vários exemplos na exposição com formatos mais pequenos, como desenhos, por causa da superfície colorida criada pela mancha impressa das páginas. Aqui, ganha nova escala e é transformado numa viga, um elemento estrutural da arquitectura.  

No início da visita, Fernanda Fragateiro explicou que nesta exposição que junta trabalhos dos últimos dez anos, interrogou o lugar que as obras ocupam, numa das várias camadas e relações que o seu trabalho estabelece com o espaço e com a arquitectura, mas também com as obras de outros artistas plásticos que fazem parte da história da arte. “Todas as obras têm referências a outras obras de arte ou a outros arquitectos.”

Por isso, começando pelo princípio, Fernanda Fragateiro questionou porque é que transformaram um espaço com características tão belas como o edifício da Central Tejo num “white cube”, com as suas incontornáveis paredes brancas, num modo de expor que tem dominado as galerias e os museus um pouco por todo o mundo. “Fui retirando camadas de alguma artificialidade para que o espaço respirasse”, acrescentando a artista que deitou abaixo algumas paredes de Pladur, o gesso cartonado com que são feitas estas divisórias, tornando visíveis as grandes janelas deste exemplar de arquitectura industrial ou furando-as para criar circulações inesperadas ou explorar o que está por detrás de uma montagem. “Quis inverter esta tentativa de domesticar o espaço.”

Demolição 2, o título da grande peça de parede que nos recebe no início da exposição, é feita com os destroços de uma remodelação de um prédio pombalino que Fernanda Fragateiro foi encontrando dentro de um contentor, ao longo dos últimos meses, na rua onde mora em Lisboa, a Rua da Madalena, enquanto preparava esta exposição, bem como uma intervenção para a Porta 14, um espaço expositivo do atelier do arquitecto Pedro Pacheco, um vizinho e amigo, onde mostrou uma versão reduzida desta nova série. “Não sabemos bem se estamos a olhar para uma ruína romana, mas de facto é uma ruína dos anos 1970. É da época em que se usava este material, os blocos de Ytong. É um material pré-fabricado, mas é um resto de alvenaria muito leve. Parece que flutua.”

Se virarmos à esquerda depois de Demolição 2, encontramos Construir É Destruir É Construir, um trabalho que já foi aqui mostrado em 2009 e que também faz parte da colecção EDP. É um contentor forrado a espelho e meticulosamente desenhado, nas palavras da artista. Está cheio de restos de tijolos de uma fábrica do Montijo, onde a artista nasceu, que foram esmagados num caminho pela passagem constante de camiões. Incorpora também alguns tijolos da Central Tejo, num edifício também ele feito de tijolos que está classificado e necessita de uma manutenção constantes.

O laranja dos tijolos, uma cor muito presente na exposição, destacou a artista, cruza-se com a obra Double Words (2011), outra escultura de parede. A própria cor é uma referência ao trabalho do artista minimalista norte-americano Donald Judd, cujo catálogo Kunst + Design, de capa laranja, dialoga com uma escolha que parece mais feita por impulso, a de um livro sobre os protestos políticos do século XX alemão — pelo menos é assim que a artista também a apresenta. A essa capa acedemos apenas através do reflexo de uma superfície de aço inox polido, para descobrirmos uma mancha laranja que Fernanda Fragateiro diz identificar a camisola de um manifestante entre uma multidão fotografada a preto e branco.

Este duplo discurso, intelectual e sensorial, é muito presente em Fernanda Fragateiro, sendo o primeiro muitas vezes deliberadamente oculto pelo segundo. O laranja volta a estar presente em Modernity Unbound (2017), “uma pintura encontrada” nas páginas fechadas do livro do historiador da arquitectura Detlef Mertins, cujo perfil é colorido, que fazem aqui um novo bloco (tijolo?) inexpugnável.

A presença da ausência das mulheres na arquitectura volta com os trabalhos Stones Against Diamonds e Built, à volta da figura da brasileira Lina Bo Bardi, com Measuring E1027, uma reflexão sobre uma casa de Eileen Gray que estava atribuída a Le Corbusier, e ainda Having Words, sobre Denise Scott Brown, a mulher de Robert Venturi, que trabalhou em dupla com ele e foi excluída do Prémio Pritzker. “Essa história da Eileen Gray descobri numa Domus de 1968, porque quis ver o que se discutia nesse período de grande agitação social. A peça também pode ser só uma bela escultura monocromática, além de contar uma história.”

Entre as seis esculturas novas está Muro (2017), outra das ruínas da exposição, neste caso uma reflexão sobre a “des-arquitecturalização” e uma referência ao trabalho do grupo pós-modernista SITE da década de 70 e ao seu projecto Indeterminate Façade. Feito como blocos maciços de betão cor-de-rosa, é fácil lê-lo, dizemos nós, como uma paródia às ideias de Trump para o muro com o México ou uma parábola à “fake architecture”. É um contraponto a Biblioteca (2016-2017), uma escultura que replica as estantes da sala de leitura da Biblioteca Pública de Évora, “onde estão paredes imensas cheias de livros antigos, a que está proibido o acesso”. Fernanda Fragateiro também leu essa superfície como uma pintura, desta vez branca, remetendo para o conhecimento adormecido nas bibliotecas. Desde Évora e da exposição que a artista fez no Fórum Eugénio de Almeida, inaugurada em Janeiro deste ano, a escultura cresceu. Às vezes, as obras mudam de nome, diz Fernanda Fragateiro, numa reinvenção, normal no trabalho da artista, porque construir também é demolir.

A inauguração da exposição prevista para esta terça-feira ao final da tarde foi cancelada devido ao luto em memória das vítimas dos incêndios no centro do país.