Reportagem

A angústia da incerteza: não têm casa por uma noite ou não têm casa de todo?

Santa Casa em Pedrógão recebeu este domingo ao início da noite dezenas de desalojados das aldeias evacuadas. Tão mau quanto o fogo é não saberem se ainda têm onde viver.

Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

O pior é não saberem de nada. Não saberem se não têm casa por uma noite ou se não têm casa de todo. Chegaram em ambulâncias, em carrinhas da GNR ou em autocarros. Foram arrancados de casa por causa da ameaça das chamas e não sabem se elas ainda existem. “Tenho fé, dizem que o fogo passou ao lado da aldeia, mas ainda não temos a certeza”, diz Arminda, moradora na Derreada, que estava a passar o fim-de-semana fora.

“Eu disse-lhes que não queria sair de casa. Que a minha casa era no centro da aldeia, mas os bombeiros disseram-me logo que tinha de sair por causa da inalação do fumo”, continua. Arminda é um dos casos que as autoridades querem prevenir. Durante a tarde, tanto o primeiro-ministro como a ministra da Administração Interna foram pedindo às pessoas das aldeias que tinham de ser retiradas para não resistirem. Mas o maior problema é que, no meio da aflição, esses apelos não chegam a quem está a bater-se contra as chamas nessas pequenas aldeias. António Costa pediu às rádios, sobretudo, para divulgarem essa mensagem. Com as comunicações difíceis, a rádio continua a ser o meio que mais pessoas une.

Na Derreada, várias pessoas resistiram a sair de casa. E agora, no centro de acolhimento da Santa Casa em Pedrógão, resta o silêncio e a vontade de regressarem a casa. As autoridades não deixam, apesar de os populares insistirem que querem voltar para casa. Nada sabem. Carlos Bernardo é outro dos desalojados da Derreada. O que sabe é que o fogo estava demasiado perto e que agora (pelas 23h) já estava mais calmo. “Dizem que passou, mas não sei se entrou”. Carlos está inquieto com o que deixou na aldeia, não se lembra de um fogo como este. “Houve um nos anos 90, mas não me lembro de ver isto. Não sei explicar”.

O fogo não tinha convite nem licença para destruir a vida destas pessoas, mas lavra desde sábado, provocando uma onda de desalojados. Ao início do dia, o presidente da Liga dos Bombeiros, Jaime Marta Soares, dizia que a primeira preocupação era a de evacuar as aldeias em perigo. A ministra da Administração Interna não dá números sobre quantas aldeias foram evacuadas, nem quantos desaparecidos, uma vez que há pessoas que chegam aos centros de acolhimento e depois saem com familiares.