Crítica Música

Os labirintos da música renascentista em sublimes interpretações

Dois dos concertos do ciclo Reencontros – Memórias Musicais no Palácio de Sintra, a decorrer até 24 de Junho, foram inesquecíveis.

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O agrupamento vocal De Labyrintho, especializado na música renascentista, foi o protagonista de dois inesquecíveis concertos do ciclo Reencontros – Memórias Musicais no Palácio de Sintra, a decorrer até 24 de Junho. Depois das Noites de Queluz e dos Serões Musicais no Palácio da Pena, com concertos dedicados à música dos séculos XVIII e XIX em conformidade com a época e a estética do palácios que lhe serviram de palco, a temporada promovida pela Parques Sintra e pelo Divino Sospiro - Centro de Estudos Musicais Setecentistas de Portugal (CEMSP) dá pelo terceiro ano consecutivo um lugar de destaque aos repertórios da Idade Média e do Renascimento no Palácio da Vila. Em relação às duas edições anteriores dos Reencontros, com direcção artística de Diana Vinagre, desapareceram os concertos com jovens intérpretes portugueses e as conferências, permanecendo apenas na programação (agora assinada por Massimo Mazzeo) os grupos de reputação internacional.

Entre eles, encontra-se De Labyrintho, dirigido por Walter Testolin, que deu a ouvir a música de dois compositores raramente contemplados nas programações musicais em Portugal, não obstante a sua importância na História da Música: o concerto de sexta-feira foi inteiramente dedicado ao italiano Marc’Antonio Ingegnieri (c. 1535-1592), professor de Monteverdi e hábil polifonista, e o concerto de sábado ao franco-flamengo Josquin Desprez (c.1450-1521), figura máxima do período internacional do Renascimento, autor de uma vasta produção frequentemente apontada como exemplo do conceito humanista de “ars perfecta”.

Para a interpretação das Lamentações de Jeremias, de Ingegnieri, publicadas em Veneza em 1588, no mesmo ano dos Responsórios da Semana Santa, De Labyrintho recorreu a um quarteto vocal masculino, portanto com um cantor por parte, privilegiando assim a inteligibilidade do texto e da textura polifónica, princípios de clareza inerentes ao discurso musical de um compositor que, não obstante o seu rigor contrapontístico e equilíbrio na relação texto-música, deixa vislumbrar tendências maneiristas e uma certa audácia no tratamento expressivo das palavras. A plasticidade da enunciação das características letras do alfabeto hebraico que abrem cada Lamentação e a polifonia das restantes secções oferece igualmente nítidos contrastes, bem delineados pela interpretação eloquente de cantores que apresentam uma forte individualidade, mas que conseguem combinar as suas vozes num todo orgânico de grande riqueza tímbrica.

Também na formação maior que interpretou as obras de Josquin Desprez no sábado — um octeto que desta vez juntou vozes femininas (duas sopranos e uma contralto) ao ensemble masculino — se manteve o jogo entre diversidade e unidade. Em contraste com a imagem etérea, estática e uniforme que no passado se associava a boa parte dos grupos que interpretavam polifonia renascentista (em especial os do norte da Europa), De Labyrintho explora o relevo, o colorido e a sensualidade sonora emergente das, frequentemente complexas, texturas polifónicas, sem deixar por isso de lhe conferir a necessária luminosidade e dimensão celestial.

A exuberante Missa Gaudeamus, na qual Josquin Desprez recorre a diversas técnicas em torno de um cantus firmus (melodia pré-existente, neste caso o Introito gregoriano Gaudeamus Omnes), combinando-as com passagens em ostinato (motivo ou frase musical repetida de forma persistente) e contraponto livre, bem como os notáveis motetes Vultum tuum deprecabuntur, Alma Redemptoris Mater e Virgo Salutiferi, contaram com a sólida técnica, experiência e profundo conhecimento deste repertório do agrupamento De Labyrintho, cuja carreira tem sido marcada por repetidos êxitos e distinções no âmbito da música dos séculos XVI e XVI.

A obra de Josquin, exemplo paradigmático do equilíbrio entre razão (na elaboração e sofisticação das técnicas de composição) e emoção, foi assim interpretada ao mais alto nível apesar das dificuldades colocadas pelo excessivo calor que se fazia sentir no sábado à noite. A qualidade musical contrastou com a escassez, ou mesmo ausência no caso do concerto dedicado a Josquin, de informação sobre os compositores e obras no programa de sala e com as imprecisões nas traduções (por ex. na biografia do grupo diz-se que este nasceu do desejo de reunir alguns instrumentistas!). O ciclo Reencontros continua nos dias 23 e 24, com o grupo Accordone, dirigido por Guido Morini.