Editorial

Porquê?

Depois do que aconteceu este fim-de-semana, não podemos fechar mais os olhos — nem que estejam cheios de lágrimas.

Porquê? Sessenta e duas vezes: porquê? Andamos anos e anos — 50 anos pelo menos — a ouvir os especialistas dizer a mesma coisa. Todos os anos perguntamos, todos os anos nos respondem que agora vai ser diferente. Nunca é. Porquê?

Como escreve a Ana Fernandes, num texto sobre a que se transformou na maior das nossas tragédias: “Não há rigorosamente nada de novo a dizer. Já tudo foi estudado, explicado e escrito na última década e meia. Houve comissões para todos os gostos e feitios. E foi feito muito trabalho sério. Faltou tudo o resto.” E de novo perguntamos: porquê? 

Depois do que aconteceu este fim-de-semana, não podemos fechar mais os olhos — nem que estejam cheios de lágrimas. Perdoe-nos o Presidente, mas à maior das nossas tragédias não podemos continuar a dizer que “não era possível fazer mais”.

Já não é, sequer, possível que Portugal se olhe ao espelho e se veja como o terceiro país mais seguro do mundo, achando conforto num qualquer ranking internacional. Seguro? Um país não é seguro apenas porque está longe de Paris, longe de Londres, longe dos lugares do mundo civilizado onde o terror tem batido à porta. O nosso terror é este: ano após ano, morremos em incêndios. Este fim-de-semana, morreram 62 dos nossos. Em Pedrógão Grande, voltou o inferno. Mas porquê?

Este porquê tem muitas perguntas, mas também tem uma consequência: desta vez temos de gritar, de questionar, de exigir. Desta vez não podemos esquecer. E para isso temos de voltar àqueles que andam há 50 anos a dizer-nos a mesma coisa: que não estamos preparados para o pior. E temos de começar pelo princípio: a verdade.

A verdade é que o nosso clima não é só maravilhoso — também é uma ameaça. A verdade é que a nossa floresta não é só uma fonte de riqueza, ainda é uma raiz para a nossa desgraça. E a verdade que mais dói? É que continuamos péssimos a atacar os nossos problemas estruturais. Mas já não temos mais tempo, porque os incêndios não vão acabar, vão piorar. Este porquê tem um nome: alterações climáticas.

É por isso que já não podemos encolher os ombros — e vamos ter de pedir contas. Vamos ter de perguntar porquê — e este porquê tem muitas perguntas dentro: porquê 62 mortos (pelo menos); porquê outra vez; porquê não o conseguimos travar; porquê sempre, sempre isto.  

Sim, vamos ter de falar de responsabilidade política. E de consequência política. Porque já são anos demais a fazer o luto. Porque não podemos repetir a mesma pergunta outra vez. Porque só assim Portugal poderá, sem medo nem vergonha, voltar a olhar-se ao espelho.

Veja aqui toda a cobertura da tragédia de Pedrógão Grande