Opinião

A economia circular da ciência

O custo real da actividade científica é grande e o preço da ciência é uma mensagem que deve ser transparente e nunca envergonhada. As pessoas são dispendiosas e a ciência é extraordinariamente cabeça-de-obra intensiva.

A investigação científica produz ideias e as ideias renovam, regeneram e reciclam o mundo. É um sistema vivo, com um grande potencial de criação de valor social e económico, mas também de desperdício se não houver investimento financeiro e social. Neste tempo, que ambicionamos verde, é preciso pensar uma economia circular para a própria ciência, e assim sustentar uma comunidade global de ideias de todas as cores.

A economia circular colhe da aprendizagem feita num século XX que explorou o modelo linear até à exaustão. Os novos modelos são cíclicos, adaptativos, reflexivos – vivos. Há uma robustez grande na vida, nos indivíduos e nas gerações, que inspira um modelo orgânico, também na ciência.

Já sabemos que estão hoje vivos mais cientistas do que a soma de todos os anteriores. A quantidade de publicações científicas produzida por esta comunidade alimenta uma indústria editorial acelerada pelos sistemas de avaliação académica e muitos cientistas confessam-se atordoados pelo spin. Quer isto dizer que é preciso desacelerar, travar, parar? Não. Quer dizer que é preciso fortalecer as instituições com coesão social, e entrar no carrossel com responsabilidade e investimento.

Uma ideia de responsabilidade, uma ideia verde e sustentável, é a importância da comunicação na ciência. Paul Romer, o economista-chefe do Banco Mundial, Nobel em potência há vários anos, foi novamente notícia pela cruzada implacável pela clareza nos documentos produzidos pela sua equipa. Claro que houve queixas. Como já nos tinha dito antes “toda a gente quer progresso, mas ninguém quer mudança”. A comunicação é uma fonte segura de mudança. As ideias são um arsenal de construção maciça, mas precisam de ser circuladas ou perdem-se.

Não precisamos de estar sempre a ter ideias novas de desgaste rápido. A reciclagem de ideias é, aliás, uma actividade com muito futuro. A ciência fá-lo todos os dias com evidente sucesso. As ideias em 2ª, 3ª, enésima mão são uma prática energeticamente eficiente e um combate permanente ao desperdício. Mas para isso acontecer é preciso que o sistema seja aberto e a ciência aberta é uma ideia verde pela qual precisamos de lutar.

O custo real da actividade científica é grande e o preço da ciência é uma mensagem que deve ser transparente e nunca envergonhada. As pessoas são dispendiosas e a ciência é extraordinariamente cabeça-de-obra intensiva. Hoje, no mundo, a falta de investimento científico é uma ameaça para a sustentabilidade. As alterações climáticas são reais e a escassez de financiamento também. Numa economia circular as externalidades negativas são reveladas e contabilizadas. Sabemos bem que a ignorância é sempre mais cara do que o conhecimento.

Acontece que, na ciência, falhar pode ser uma maneira contraintuitiva de suceder (o biólogo Stuart Firestein tem um livro delicioso sobre isto) o que perturba as expectativas de um investidor de curto prazo. Na verdade, um dos grandes desafios da ciência é comunicar a noção de sucesso e insucesso. No universo mediático dos empreendedores, principalmente de base tecnológica, fez-se mesmo o spin do insucesso e há quem defina o objectivo das incubadoras como ajudar os empreendedores a falhar o mais depressa possível. A dorida frase do Beckett “Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.” tornou-se o mantra de Silicon Valley.

A vantagem das instituições científicas de referência é a robustez na combinação liberdade e responsabilidade. A universidade é um laboratório de testes para o erro honesto, corrigido, circular nas gerações de jovens que falham para a frente, enquanto a escola sucede também para trás, avaliando, reciclando, reutilizando as suas melhores ideias.

Daqui a importância do investimento público na ciência. Mariana Mazzucato, economista da inovação e do valor público, discute habilmente com políticos de todo o mundo o papel do estado como empreendedor e investidor no capitalismo moderno do século XXI. Um estado activo na definição e suporte de missões claras; já fomos à Lua, mas ainda não chegámos ao alto mar; será a ciência a abrir o caminho para os espaços internacionais comuns, os princípios da terra.

Como é evidente no inglês re:search, a ciência procura repetidamente respostas para o mundo. Com as tecnologias digitais este mundo tornou-se um lugar mais pequeno e próximo, o que permite circular mais facilmente as perguntas (os grandes desafios societais são globais) mas, melhor do que isso, circular as respostas, tantas vezes locais, específicas e diferentes.

A diversidade é, aliás, um dos conceitos mais poderosos da ciência. Basta pensar que não existe tal coisa na natureza como o organismo médio. Qual é a pessoa mundial média? Ou o português médio? É uma ficção, uma proxy estatística que deve ser encarada com precaução, como já se percebeu na saúde com o desenvolvimento dos cuidados personalizados ou no retalho com a customização em massa.

Quando se abraça a diversidade, completa-se um círculo virtuoso. A ciência como um clube de pares tem os dias contados. A comunidade científica real integra também os ímpares, e percebeu inclusive que a ciência não se faz só com cientistas. Os aspectos éticos, ambientais, políticos, jurídicos ou financeiros da ciência reforçam cada vez mais o significado social e económico da investigação. As ideias circulam e essa é a geometria que ambicionamos, de volta, em volta. 

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