Editorial

Arrisque antes as suas poupanças, senhor provedor

E se ainda subsistirem dúvidas a Santana Lopes, antes de decidir, poderá sempre interrogar-se se investia as suas poupanças pessoais e se tornava detentor de capital de um banco antes de arriscar as poupanças da Santa Casa.

Não é a primeira vez que alguém refere que hoje em dia ser banqueiro não é currículo, é cadastro. A afirmação é caricatural, mas verdadeira e justa, tendo em conta os comportamentos recentes de muitos banqueiros em Portugal, mas não só. E revela as fortes mudanças ocorrida no sector nos últimos anos.

Vem isto a propósito dos dossiers que marcam a actualidade na banca: o Montepio Geral, em Portugal. E o Banco Popular, em Espanha.

Comecemos por Lisboa. O Governo, sem nada dizer que o comprometa, vai empurrando a Santa Casa de Misericórdia de Lisboa, para que esta instituição dê uma mão ao aflito Montepio. Mas como ninguém empurra o líder da Santa Casa para onde este não queira ir, Pedro Santana Lopes terminava ontem o seu artigo de opinião no Jornal de Negócios a garantir que ainda não tem convicção formada sobre se e como a Santa Casa poderá dar a tal mãozinha ao Montepio. Mas a garantia não convence. Até porque Santana Lopes passa o artigo a justificar, de forma envergonhada, o porquê de a Santa Casa ir mesmo ajudar o Montepio. “Antes, quem tivesse a possibilidade de se tornar accionista de um banco era detentor de um privilégio e era meio caminho andado para aumentar a fortuna, eventualmente já existente”, lembra Santana Lopes para, logo de seguida, lamentar que hoje já não seja assim. Agora, “entrar num banco é um acto de loucura e é meio caminho andado para a ruína”. Santana Lopes critica ainda os críticos que desconfiam dos méritos da tal mãozinha que o Governo quer que a Santa Casa dê ao Montepio. “Fala quem não sabe e quem sabe não fala”, diz o líder da Santa Casa.

E é aqui que entra o Banco Popular e um outro artigo. Desta vez no PÚBLICO de ontem e da autoria do economista Ricardo Cabral sobre a medida de resolução aplicada em Espanha e onde os accionistas do Popular perderam tudo. Ricardo Cabral explica porque é hoje tão arriscado ser accionista de um banco, ou seja, o que Santana Lopes diz não compreender. “Quem quererá deter acções ou títulos de dívida de bancos e outras instituições, se estes podem ser confiscados, sem apelo nem agravo, de um momento para o outro, mesmo de uma instituição [Banco Popular] que ao que tudo indicava cumpria as regras vigentes”, interroga-se o economista.

Mesmo salvaguardando as devidas diferenças entre Montepio e Popular, quer de dimensão, quer regulatórias, ou de estatuto jurídico, fica este contributo para Santana Lopes poder avaliar da entrada da Santa Casa no Montepio.

E se ainda assim lhe subsistirem dúvidas, antes de decidir, poderá sempre interrogar-se se investia as suas poupanças pessoais e se tornava detentor de capital de um banco antes de arriscar as poupanças da Santa Casa.