Por descaminhos se descobrem diamantes no Alto Minho

O festival Desencaminharte termina neste domingo, mas a arte não foge do Alto Minho. As instalações vão continuar escondidas em dez diferentes municípios, para desencaminhar os visitantes e denunciar a beleza que se esconde sob mantos de silêncio.

Fotogaleria
Penha da Rainha, Monção Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
Penha da Rainha, Monção Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
Penha da Rainha, Monção Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
Penha da Rainha, Monção Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
Penha da Rainha, Monção Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
Sofia Leitão, autora de "Mnemosynite" Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
"Mnemosynite" Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
Sistelo, Arcos de Valdevez Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
Sistelo, Arcos de Valdevez Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
Sistelo, Arcos de Valdevez Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
Pascal Ferreira, autor da "Medeira" Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
"Medeira" Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
Monte de Santo António, Viana do Castelo Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
Monte de Santo António, Viana do Castelo Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
D. Mila Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
Monte de Santo António, Viana do Castelo Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
Iva Viana, autora da "Homenagem à mulher afifense" Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
"Homenagem à mulher afifense" Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
Sr. João Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
Espigueiros de Lindoso, Ponte da Barca Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
Castelo de Lindoso, Ponte da Barca Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
"Sulco espigaitado", de Mariana Barrote Adriano Miranda/Público
Fotogaleria
"Sulco espigaitado", de Mariana Barrote Adriano Miranda/Público

Quando Mariana Barrote recebeu o convite para plantar espantalhos em volta dos Espigueiros de Lindoso, em Ponte da Barca, não gostou da ideia: não fazia sentido fazê-lo num local destinado a armazenar os cereais já depois da colheita. Por isso, deu a volta à situação. Usou as figuras para delinear um percurso entre os espigueiros, talhado pelo movimento e pelo som que o vento retira dos chocalhos, das fitas e dos panos. O tecido branco que esvoaça como bandeira de guerra em frente ao Castelo de Lindoso também é obra da artista. Mas não vai ficar branco para sempre. Mariana vai lá pintar um símbolo da fertilidade, retirado de um dos vídeos que produziu para o festival, que começou nesta quinta-feira e termina neste domingo.

Durante os quatro dias do Desencaminharte, de três espigueiros saíram sombras de corpos que revelaram a dualidade em que o agricultor vive, explicou a artista: “Ele vê o mundo de uma forma muito dual, porque está sempre próximo da vida e da morte, através do trabalho com a terra”. As danças das sombras enunciaram a mística da terra, da fertilidade e da profusão de vida.

No final deste domingo, vão-se os vídeos, mas ficam os espantalhos. Para o Sr. João, as figuras são “uma novidade” numa paisagem já muito familiar. O pastor é reformado, mas de manhã continua a levar as ovelhas a pastar. Fala com elas como fala com gente. A certa altura, aproxima-se de um espigueiro e de lá atira ao chão várias espigas de milho. E é vê-las correr, até as mais fracas. Em segundos, o rebanho reúne-se em volta do manjar.

Uns quilómetros a Norte e para o interior, esconde-se uma das pérolas do Alto Minho. Sistelo, em Arcos de Valdevez, está nomeado para as Sete Maravilhas de Portugal Aldeias. Mas o trilho até à instalação de Pascal Ferreira desencaminha os visitantes do centro da vila e alonga-se em mais de 100 degraus.

Custa a subir, custa a descer, mas o conceito é esse. “Para ser tudo simples e fácil, vai-se a Serralves. A ideia aqui é levar as pessoas por um roteiro alternativo aos lugares comuns do Alto Minho e mostrar aqueles que são invisíveis e silenciosos, apesar da sua beleza”, explica um dos membros da Comunidade Intermunicipal do Alto Minho, que organizou o festival.

Pascal Ferreira já perdeu a conta das vezes que o percorreu o trilho. O artista, conhecido por reciclar e reinventar materiais dos locais que visita, viu na aldeia a sua vida dificultada: “Eu queria reciclar madeiras utilitárias, como móveis, portas ou janelas. O presidente da Junta até fez uma chamada na missa para convencer os habitantes a reunir material. Mas eles não têm nada, porque já reciclam tudo. E o resto vai para a lareira”.

A madeira teve de vir de outro sítio e veio dos ramos da poda de um terreno. Daí nasceu “Medeira”. A palavra não está escrita no dicionário, mas qualquer local consegue explicar que uma medeira se faz de fardos de palha em forma de cone, com uma haste a meio, e se usa para armazenar o feno. Foi o elemento da paisagem de Sistelo que prendeu o olhar de Pascal. E, por isso, quis recriá-lo.

Com poucos dias de estadia, Pascal já fez da aldeia sua casa. Já se habituou a ver os locais andar com os bois e as vacas, dá um travo de conversa com todos que por ele passam e termina o dia com um banho no rio Vez. Mas, antes, um outro ritual é cumprido: “A Igreja celebra a missa às seis da tarde. E eles têm altifalantes. Por isso, enquanto trabalho, ouço a missa todos os dias”, conta, rindo.

Cristalizar imaginários

Em Abedim, no concelho de Monção, também é preciso enfrentar degraus arcaicos para chegar ao alto da Penha da Rainha. Os locais fazem-no de ano a ano, numa festa em honra de S. Martinho, para se sentarem numa pia cavada onde Martinho de Dume se terá banhado. Outra lenda conta que do cume já se levantou um castelo de uma Rainha, castigada pelo seu Rei por se ter convertido ao cristianismo. São histórias do imaginário minhoto e que estão na origem da peça de Sofia Leitão.

A arte não se encontra no topo, vislumbra-se na subida. Os mais desatentos podem nem reparar, é “uma obra camuflada”. E é esse o objetivo, explica a artista: “Queria fazer uma intervenção que estivesse em simbiose com o espaço, que se confundisse com uma planta invasora, que as pessoas tivessem de descobrir.” O respeito ao lugar foi prioridade. O material de que os cristais são feitos e o sítio onde estão escondidos fazem com que a reflexão da luz não traga qualquer perigo de incêndio.

Às crianças que já lá foram e perguntaram o significado da coisa, Sofia respondeu que este era “um mineral que só crescia nos sítios onde existiam lendas colectivas”. Aos adultos, a explicação é semelhante: “As lendas estão em contínua construção, mas ao mesmo tempo são cristalizações de um tempo que já não existe. Existe uma ideia de um espaço um pouco estagnada. E os cristais nascem daí.”

O Minho das mulheres

Mais a Sul e colado ao litoral, surge Afife, a freguesia de Viana do Castelo onde os diamantes são feitos de estuque. Iva Viana, estucadora, ficou feliz ao receber uma proposta da que é considerada a terra-mãe da sua arte. Mas, desta vez, virou a coisa do avesso: “Quis homenagear as mulheres que, na altura em que os estucadores desceram para o Porto e Lisboa para se tornarem os famosos estucadores de Portugal, ficaram a trabalhar nas terras.”

A ideia resultou num painel horizontal, que não o é por acaso. Simboliza a lavoura. Vergam-se as costas para se ver o conjunto, com cores que também elas são da terra. As rendas inscritas no estuque são “crochés de espera”, malhas que se fazem na conversa entre mulheres num aguardo permanente. A simplicidade da peça é também a simplicidade das mulheres que homenageia, explica Iva.

A D. Mila não tem dúvidas: “É um trabalho muito bonito, sim senhora.” Viu de perto a realidade que Iva retrata: “Antes, era tudo trabalhado pelas mulheres e pelas vacas com o arado. Os homens iam para o estuque, iam pelo mundo fora. E as senhoras ficavam no campo a fazer tudo o que fazia falta.”

Mas “da gente nova” há poucos a trabalhar o estuque e ninguém quer saber das rendas, conta. A D. Mila ainda chegou a fazer duas colchas rendadas. Agora estão escondidas no fundo das gavetas. “Mas a gente tem o valor e o trabalho, que conta muito”, diz, sorrindo.

Texto editado por Isabel Aveiro