Opinião

Um Verão que não envelhece

Mercê da memória e do comércio, o “Summer of Love” não envelhece, ao contrário dos seus protagonistas.

Vai começar. Ou melhor, já começou. A revista Uncut de Junho vem lembrar-nos (e a isso dá capa e grande destaque) que o Verão de 1967 faz 50 anos e todos sabemos o que isso quer dizer. Para os que viveram a época, hoje mais ou menos septuagenários, é a recordação dos alvores do fenómeno hippie e do que ficou conhecido como “Summer of Love”. Para a indústria, sobretudo a musical, é a reabertura de uma arca inesgotável: reedições de discos, livros, memórias várias, um novo remexer nos fundos de catálogo para voltar a colocar no mercado edições com extras e, pelo menos durante uns dez anos, de 2017 a 2027, não há-de faltar material para isso. Basta pensar no Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, que este mês completa 50 anos e acaba de ser reeditado (e isso enche a capa de outra revista, a Mojo) com extras, edições de luxo, espectáculos em Liverpool, um documentário em DVD e Bluray (It Was Fifty Years Ago Today! The Beatles: Sgt. Pepper & Beyond) e o que mais virá. 1967 é o ano do Festival Pop de Monterey, na Califórnia, que em termos históricos inaugurou a era dos grandes festivais de rock (de jazz e de folk já havia), mas no rol das comemorações futuras virão ainda os festivais de Woodstock (fortemente celebrado nos 40 anos, em 2009, mas que ainda há-de guardar sobras para o cinquentenário, em 2019), de Wight (50 anos em 2020), de Glastonbury (50 anos em 2021) ou até para esse epitáfio do “peace & love” que foi o concerto dos Stones em Altamont (Gimme Shelter, também 50 anos em 2019). Tudo isto já foi editado e reeditado, com extras e sem extras, abordado e documentado em livros, jornais e revistas, mas ainda assim tudo voltará, porque a memória vende e tem compradores.

A Uncut, que dedicou dezoito páginas ao tema (além da capa, em grafismo psicadélico), lembra o festival californiano de Monterey, onde, como é visível nos registos videográficos da época, as pessoas ainda se sentavam em cadeiras de jardim decentemente alinhadas, como se estivessem num espectáculo “normal”. E faz uma lista de 50 “canções essenciais” do Verão de 1967, onde não podiam faltar Light my fire (Doors), For what It’s worth (Buffalo Springfield), Strawberry fields forever (The Beatles), A whiter shade of pale (Procol Harum), San Francisco (be shure to wear flowers in your hair) (Scott McKenzie), I-feel-like-I’m-fixin’-to-die-rag (Country Joe & The Fish), We love You (The Rolling Stones), White Rabbit (Jefferson Airplane) ou Down on me (Big Brother and the Holding Company), mas também I’ve got levitation (The 13th Floor Elevators), Omaha (Moby Grape), Can’t seem to make you mine (The Seeds), Feelin’ Reelin’ Squeelin’ (Soft Machine), Paper Sun (Traffic), Underdog (Sly & the Family Stone) ou Revolution (Tomorrow).

Pois é em Revolution que a Uncut coloca o marco inicial deste Verão cinquentenário. Foi num sábado à noite, no UFO, um clube irlandês no centro de Londres, quando uma pequena multidão se juntou depois de uma acção pública de protesto contra a condenação, por posse de drogas, dos músicos Mick Jagger e Keith Richards (ambos dos Stones) e do galerista Robert Fraser. Ali se exibia a recém-nascida banda Tomorrow que, a dada altura, tocou Revolution. A multidão, ainda “quente” pelos protestos, fixou-se no refrão “Revolution now” (revolução já) e isso serviu de combustível ao que viria depois. “Este foi o verdadeiro espírito do Verão do Amor, um momento único em que música, arte, moda e política se uniram contra o mundo socialmente ‘correcto’, em busca de uma forte mudança cultural e de novas formas de expressão.” Chamaram-lhe contracultura, mas não tardou a que o comércio e a indústria a absorvessem para “novas formas” mercantis. Do resto, encarregou-se a história. Ou encarrega-se ainda, porque, mercê da memória e do comércio, este é um Verão que não envelhece, ao contrário dos seus protagonistas. Twink, o cantor britânico e baterista dos Tomorrow (grupo sem amanhã, pois desfez-se em 1968) que recordou a história do “Revolution now” à Uncut, tem agora 72 anos e na verdade chama-se John Charles Edward Alder. Ou melhor, chamava-se; mudou o nome para Mohammed Abdullah, depois de se converter ao Islão. Outro sinal dos tempos, neste Verão menos pueril, menos idealista e perigosamente mais sério em que vivemos.