Opinião

As viúvas de Donald Trump não estão sozinhas

Temos dois novos vícios pouco produtivos: apontar o ridículo dos Trump e analisar em excesso a linguagem corporal do Papa Francisco.

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Em inglês chamaram-lhe “stone-face”, uma boa expressão para caracterizar a cara que o Papa Francisco mostra na fotografia do seu encontro com os Trump que se tornou viral. As pedras não riem e o Papa, no mínimo, não está contente.

Evan Vucci, da Associated Press, o autor da imagem, já explicou que o Papa sorriu pouco depois deste clique. Que, ao todo, a sessão não demorou mais do que 30 segundos. E que o ambiente na sala não estava “sombrio”. “O Papa estava a sorrir e eles estavam a trocar umas palavras um com o outro. Nada pareceu estranho ou fora do habitual”, disse Vucci à revista Time.

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Como na fotografia de Fevereiro da (falsa) hesitação do primeiro-ministro canadiano em dar um aperto-de-mão a Donald Trump, o mundo discute hoje uma coisa que não aconteceu. O Papa sorriu ao lado de Donald Trump e isso não significa que tenha passado a acreditar que o Presidente norte-americano é, afinal, um bom cristão. Do mesmo modo que o facto de não ter sorrido à chegada a Fátima não significa que já não acredite na Nossa Senhora.

Vale a pena ver o vídeo do encontro entre Justin Trudeau e Donald Trump na Sala Oval. Não há qualquer dúvida de que o líder canadiano não perdeu um milésimo de segundo a ponderar se iria ou não apertar a mão do seu vizinho. Simplesmente, Trump tomou a iniciativa e, ao fim de oito segundos de cliques "sem acção” dos protagonistas (eles), disse “parece-me que devemos dar um aperto de mão...” ao mesmo tempo que levantou o braço na direcção de Trudeau.

A fotografia-estrela desta semana parece abrir duas hipóteses de leitura. A de que Francisco é mau diplomata e incapaz de esconder os sentimentos, nem em nome das relações institucionais nem da importância em estabelecer pontes com todos, incluindo os "maus cristãos". Ou, segunda hipótese, a de que o Papa quis transmitir uma mensagem política de repúdio ao novo Presidente dos EUA.

A verdade talvez seja outra. O Papa não sorriu simplesmente porque não está sempre a sorrir. Além disso, no caso da fotografia viral, ele nem estava sozinho com os Trump. No reenquadramento feito pela Associated Press, aparece no extremo direito da imagem, um pouco distante dos Trump, sugerindo que se afastou de forma intencional. Mas na situação real — e na fotografia tirada — o Papa está ao centro. Da sala e da imagem. À esquerda tem os Trump e mais três visitas e, à direita, tem outros cinco convidados. No total, são 13 pessoas. Uma está de boca aberta, outra está de cabeça baixa e uma terceira parece que vai chorar.

Andamos a ver coisas a mais? Ou andamos a ver coisas a menos?

Arrumado o não-sorriso do Papa, resta a "roupa ridícula" da mulher e da filha de Trump, que estão integralmente vestidas de preto e grandes toucados na cabeça. Conheço uma boa católica que riu à gargalhada e acredita que a "cara de pau" do Papa é — "só pode ser!" — por causa da roupa de Melania e Ivanka Trump.

Achei graça porque nós já vimos esta imagem milhares de vezes. As regras do protocolo dizem que, nas visitas de Estado ao Vaticano, as mulheres têm de cobrir a cabeça e só podem usar duas cores. As rainhas católicas vestem branco, todas as outras mulheres vestem preto. Ponto final. Lembram-se da rainha Isabel II de vestido e chapéu preto com João Paulo II? Ou da rainha Masenate Mohato Seeiso do Lesoto, de vestido e lenço preto, com Francisco? Claro que não. Estamos viciados em apontar o ridículo dos Trump (que existe em abundância) e estamos a sofrer de excesso de análise da linguagem corporal do Papa. É mais produtivo usar toda essa energia para ir à praia ou ler um livro.