No top 10 de 2017 há espécies como um insecto muito esquivo e um tomate que sangra

No dia do aniversário de Carlos Lineu, o pai da taxonomia, costuma ser divulgada uma lista de dez espécies que fizeram furor no ano anterior. Em 2016 descobriram-se 18 mil espécies, entre elas uma orquídea parecida com a figura de um diabo e uma centopeia que mergulha.

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A espécie Eulophophyllum kirki Peter Kirk
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A espécie Eulophophyllum kirki Peter Kirk
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A espécie Eulophophyllum kirki Peter Kirk
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A orquídea Telipogon diabolicus que tem cara de diabo M. Kolanowska
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Aranha da espécie Eriovixia gryffindori Sumukha J. N.
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Tomate da espécie Solanum ossicruentum Jason T. Cantley
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Tomate da espécie Solanum ossicruentum Jason T. Cantley
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Roedor da espécie Gracilimus radix Kevin Rowe/Museus Victória da Austrália

Carlos Lineu fez esta terça-feira 310 anos. O naturalista sueco nascido a 23 de Maio de 1707 foi o responsável pelos nomes científicos das espécies passarem a ser compostos por dois termos: o nome do género e o respectivo restritivo específico. Antes de Carlos Lineu, para designar um ser vivo era necessário escrever uma frase, que podia até ocupar um parágrafo. Ficou assim conhecido como o pai da taxonomia, a disciplina que ajuda os biólogos a catalogar os seres vivos.

Para assinalar a data do seu aniversário, o Instituto Internacional para a Exploração de Espécies da Faculdade de Ciências Ambientais e Florestais (ESF, na sigla em inglês), em Syracuse (EUA), faz todos os anos, desde 2008, uma lista com as espécies descobertas no ano anterior. Este ano, o comité que elaborou esta lista seleccionou dez espécies entre as cerca de 18 mil espécies descritas em 2016. Na lista constam espécies descobertas na Ásia, na América do Norte, na América do Sul e na Oceânia. 

“Desde a nossa primeira lista top 10, já foram descobertas e descritas quase 200 mil espécies. Isto pode não parecer nada, mas as notícias não se ficam por aqui, estamos perante uma crise de biodiversidade e a perder espécies mais rapidamente do que as que estamos a descobrir”, diz Quentin Wheeler, presidente da Faculdade de Ciências Ambientais e Florestais, citado no comunicado do ESF. “A velocidade da extinção é mil vezes mais rápida do que a da pré-história. A menos de que aceleremos a exploração das espécies, corremos o risco de nunca conhecermos milhões de espécies ou de aprendermos as coisas maravilhosas e úteis que elas nos podem ensinar.” Quentin Wheeler diz ainda que o maior perigo para a extinção são os seres humanos ao alterarem os ecossistemas ou a poluírem a água.  

Tem o chapéu de Harry Potter

É uma aranha com menos de dois milímetros de comprimento e um aspecto muito semelhante ao Chapéu Seleccionador dos livros e dos filmes de Harry Potter, de J.K. Rowling. Em forma de cone e com uma dobra estreita na parte de cima, basta olharmos para uma fotografia e ficamos sem dúvidas: é como o Chapéu Seleccionador. Como tal, o seu nome científico é Eriovixia gryffindori, afinal o chapéu pertencia originalmente a Godric Gryffindor, o fundador da casa Gryffindor, uma das quatro casas fundadas no início da Escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts.

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Aranha da espécie Eriovixia gryffindori Sumukha J. N.

A espécie foi descoberta na Índia e o “chapéu à Harry Potter” é uma forma de camuflagem, para se esconder entre as folhas secas. Pensa-se que seja uma espécie nocturna das florestas do centro dos Gates Ocidentais, no Oeste da Índia, onde há vegetação perene e semiperene, assim como árvores de folha caduca. Até ao momento, não foram encontrados os machos desta espécie.

Parece uma folha

Enquanto uma equipa de cientistas estava a observar tarântulas e serpentes na Malásia, descobriu algo que não estava à espera: uma nova espécie de insecto, uma esperança. Como estavam numa área protegida, não recolheram nenhum exemplar, justificam. Por isso, a única prova da sua existência são as fotografias do fotógrafo Peter Kirk. Em sua homenagem, o nome científico desta esperança é Eulophophyllum kirki. O facto de haver fotografias desta espécie de esperança pode dificultar a identificação de novas espécies no futuro. E o que se sabe desta esperança? Tem cerca de 40 centímetros de comprimento e as fêmeas têm uma coloração verde e rosa, enquanto os machos são todos verdes.

Um roedor que tem boa boca

A uma altitude de mais de 1600 metros, nas Celebes, na Indonésia, foi encontrado um roedor que se alimenta tanto de plantas como de animais e raízes. Este roedor é assim omnívoro. E é pequeno, esguio e o pêlo acinzentado e acastanhado. As orelhas são arredondadas e a cauda não tem muito pêlo. O seu nome científico Gracilimus radix vem da palavra em latim radix, que significa “raiz”, uma vez que a população local pensava era isto que comia. Desde 2012, foram descobertas sete novas espécies de roedores (incluindo esta em 2016), o que pode querer dizer que há muitos roedores desconhecidos nas Celebes.

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Roedor da espécie Gracilimus radix Kevin Rowe/Museus Victória da Austrália

Para andar precisa de 414 patas

Tem pelo menos 414 patas e cerca de 20 milímetros de comprimento. Foi descoberto no Parque Nacional das Sequóias (nos EUA), e vive entre as fissuras do solo. O nome científico deste milípede é Illacme tobini, em homenagem a Ben Tobi, um especialista em grutas e recursos hídricos do Parque Nacional do Grande Canyon (EUA). A linhagem de que descende surgiu há cerca de 200 milhões de anos, ou seja, ainda viveu antes da separação do supercontinente Pangeia, que começou a fragmentar-se há cerca de 200 milhões de anos. Apesar da dimensão reduzida, tem algumas particularidades bem visíveis, como uma boca pequena e bizarra, não tem olhos, quatro das suas patas adaptadas para a transferência de esperma para as fêmeas, lançam um produto químico ainda desconhecido para se defenderem e ao longo da sua vida ainda acrescentam partes ao seu corpo, como patas.

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Milipede da espécie Illacme tobini Paul Marek/Virginia Tech

Quando uma formiga é um dragão

Encontrada na Papuásia-Nova Guiné, os espinhos que esta formiga tem no corpo são a sua identidade. Primeiro, pensava-se que eram um mecanismo de defesa. Depois, os cientistas fizeram imagens de raios X em 3D e perceberam algo diferente: servem para apoiar os músculos desta formiga e também segurar a sua grande cabeça e as mandíbulas, que os exemplares maiores destas formigas usam para esmagar as sementes. Por causa dos espinhos, o seu nome científico é Pheidole drogon. E isto a propósito dos dragões comandados por Daenerys Targaryen, uma personagem dos livros e da série A Guerra dos Tronos.

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Formiga da espécie Pheidole drogon Georg Fischer

Uma rainha das águas doces

Nas águas do rio Tocantins, no Brasil, foi descoberta uma raia com cerca de 1,10 metros de comprimento e os maiores exemplares podem pesar até 20 quilos. Outra das características bem diferenciadoras desta raia é a sua coloração: é castanha escura às bolinhas amarelas e laranjas. As grandes dimensões desta raia de água doce levaram a que se chamasse de Potamotrygon rex (rex significa “rei” em latim). “A descoberta de uma raia tão grande e colorida mostra quão incompleto está o nosso conhecimento dos peixes nos neotrópicos”, lê-se no comunicado do ESF.

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Raia da espécie Potamotrygon rex Marcelo R. de Carvalho

Uma centopeia mergulhadora

Pela primeira vez, observou-se uma centopeia capaz de mergulhar na água e de percorrer o fundo do mar, assim como também anda em terra firme. Quando foi descoberta debaixo de uma rocha, correu rapidamente para se esconder numa rocha que estava na água. Agora chama-se Scolopendra cataracta (cataracta significa “catarata”), é preta, tem 20 pares de patas e cerca de 20 centímetros de comprimento. Pode ser encontrada na Tailândia, no Vietname e Laos. A sua população está em risco de extinção sobretudo devido às actividades turísticas nos diques e nos riachos, onde fica o seu habitat.

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Centopeia Scolopendra cataracta Siriwut, Edgecombe e Panha

Um tomate espinhoso

Os botânicos já conheciam estes exemplares de tomate há 50 anos, mas confundiam-no com outra espécie, a Solanum dioicum. Agora observaram-no melhor e viram que cresce em arbustos entre um e dois metros de altura no Oeste de Austrália, tem entre 1,5 a 2,5 centímetros de diâmetro e o seu fruto está envolto em espinhos. É duro que nem um osso (esta palavra vai ser importante) quando está maduro e, depois de ser aberto, a sua polpa oxida e passa de um tom verde esbranquiçado para um vermelho cor de sangue, ou seja, é como se sangrasse. Por isso, 150 alunos da Pensilvânia, nos EUA, baptizaram-no com o nome científico Solanum ossicruentum, que combina ossi (que é ossudo) e cruentum (sangrento).

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Tomate da espécie Solanum ossicruentum Jason T. Cantley

Orquídea com cara de diabo

A nova espécie de orquídea encontrada na Colômbia, a Telipogon diabolicus, tem na sua flor o que parece a representação de um diabo. Além disso, tem uma mistura de estruturas reprodutivas masculinas e femininas e é epífita, ou seja, cresce por cima das outras plantas sem se alimentar delas. Na Colômbia há já cerca de 3600 espécies de orquídeas e muitas mais, pensa-se, por descobrir. Uma das más notícias é que esta orquídea está “criticamente em perigo” de extinção.

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Orquídea da espécie Telipogon diabolicus M. Kolanowska

Um churro vindo do fundo do mar

Os oceanos continuam a ser uma surpresa e, desta vez, escondiam-nos um verme marinho muito parecido com os churros que podemos encontrar nas feiras populares. Por isso mesmo, o seu nome científico é Xenoturbella churro, em alusão à massa frita muito conhecida na América Latina, em Espanha e em Portugal. Foi encontrado a cerca de 1722 metros de profundidade no Golfo da Califórnia, no México, e tem cerca de dez centímetros de comprimento. Esta criatura tem boca, mas é desprovida de ânus. A sua tonalidade está entre o rosa e o laranja e pensa-se que se alimente de moluscos, como as amêijoas.

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Verme marinho da espécie Xenoturbella churro Greg Rouse