O Museu dos Coches vai ser inaugurado outra vez

Mostrar o que foi feito para a rua dentro de casa; mostrar o que foi feito para andar, parado. Eis dois dos desafios que impõe um acervo como o dos Coches. Dois anos depois, a exposição está finalmente pronta.

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As projecções nas paredes totalmente brancas das duas naves expositivas ajudam a criar ambiente e a contextualizar a colecção Rui Gaudêncio
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Passaram dois anos da inauguração e o novo Museu Nacional dos Coches está já a ser reinaugurado. E isto porque só agora a colecção do museu, composta por dezenas de coches, carruagens, liteiras, cadeirinhas e todo o tipo de elementos acessórios deste mundo de homens e cavalos, vai ser exposta como inicialmente previsto.

A museografia concebida por Paulo Mendes da Rocha – o Pritzker brasileiro que assina o projecto do edifício com o português Ricardo Bak Gordon – e pelo arquitecto Nuno Sampaio está finalmente instalada, o que significa que os coches e carruagens que ali se mostram, produzidos entre os séculos XVI-XVII e XIX, deixaram de estar apenas estacionados nas duas grandes naves expositivas, têm agora alguma coisa a dizer.

As baias de aeroporto que antes os separavam dos milhares de visitantes do museu (383 mil visitantes em 2016, o que faz dos Coches o mais popular dos museus da Direcção-Geral do Património Cultural) foram agora substituídas por umas estruturas brancas assentes no chão a lembrar molduras, onde estão inscritas as legendas que identificam estes carros de reis, príncipes, bispos e infantes. É também nestas estruturas que servem de “caixilho” aos coches que estão fixados os monitores, uns estáticos e outros interactivos, que permitem explorar a colecção, acendendo ao seu contexto histórico, ao interior de alguns dos carros em 360º, às personalidades que a ela estão ligadas, às características técnicas destes veículos que muito evoluíram ao longo dos séculos e aos elementos decorativos que transformam cada um destes meios de transporte em guarda-jóias sobre rodas.

“Os elementos contemporâneos não podem sobrepor-se aos coches porque eles é que são as verdadeiras estrelas. As baias que escolhemos são no chão porque as verticais atrapalham a leitura das peças, sobretudo quando os grupos de visitantes são grandes.” A solução das molduras brancas que agora encontramos nas galerias não é um pormenor, diz Nuno Sampaio ao PÚBLICO, porque os Coches é “um museu de multidões”.

O projecto museográfico, lembra, foi concebido ao mesmo tempo que o do edifício, o que faz com que não haja "qualquer desencontro entre conteúdo e contentor".

Coches e cinema

O desafio a que os autores da museografia tiveram de dar resposta, acrescenta este arquitecto português, não teve apenas a ver com a apresentação de um acervo histórico num edifício contemporâneo: “Era preciso garantir que a museografia dava acesso a vários níveis de leitura da colecção, que cativava os estetas, que só se interessam pelo objecto, pela pintura e pela escultura, e também os que são atraídos pela mecânica da coisa, sem deixar de fora as crianças – um público importantíssimo – e os que são simplesmente curiosos.”

Quando esta sexta-feira for reinaugurado pelo ministro da Cultura, Luís Filipe de Castro Mendes – encerrado para a instalação da museografia desde 26 de Abril, o edifício só reabre ao público no dia seguinte, com entrada gratuita –, o museu já terá a correr, nas duas grandes paredes imaculadamente brancas das naves expositivas em que muitos dos coches se alinham como se de um desfile no Terreiro do Paço em tempo de monarquia se tratasse, as grandes projecções que ajudarão a criar ambiente e a fazer a ligação ao cinema que sempre existiu na cabeça de Paulo Mendes da Rocha.

"Você conhece aquele filme de Mastroianni sobre Casanova [Casanova e a Revolução, Ettore Scola, 1982]?”, perguntava o arquitecto brasileiro ao PÚBLICO em Março de 2013, “há coches por todo o lado": "Os coches fazem-me pensar em cinema, ficam muito bem na tela."

A instalação sonora, que reproduzirá música do século XVIII ou o som dos rodados de um coche na gravilha, também estará a funcionar, proporcionando a quem ali entre, diz Sampaio, não apenas uma visita, mas uma “experiência”.

Aos que criticam os gastos que consideram “excessivos” – 1,1 milhões de euros, segundo Nuno Sampaio – numa museografia que depende demasiado da tecnologia, algo que rapidamente se desactualiza, o arquitecto português responde: “Aqui a tecnologia não se interpõe, não separa a pessoa do objecto. Mais, se algum monitor avariar, pode ser rapidamente retirado sem que o visitante dê pela sua falta. O mesmo se passa com as projecções. Além disso, as estruturas das molduras, que se montam como um lego, permitem actualizações do discurso da exposição, permitem mudar os coches de sítio sempre que se quiser.”