O museu dos Coches esteve mais de dois anos à espera deste dia

Muitas críticas, muita polémica. E sobretudo muitos atrasos. Por trás de tudo, a falta de dinheiro. O museu desenhado pelo arquitecto Paulo Mendes da Rocha é inaugurado na sexta, mas só amanhã se poderá saber, como diz o arquitecto brasileiro, se vai ser mesmo uma festa, "se o povo gosta".

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O edifício composto por dois corpos, um expositivo e outro anexo, confiado ao auditório e a serviços, vai ser inaugurado praticamente como estava no final de 2012 Daniel Rocha
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Até que a museografia esteja instalada, o bilhete para o novo edifício custará seis euros Daniel Rocha
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O museu como estava a 11 de Maio, na apresentação à imprensa Daniel Rocha
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O museu vai mostrar 78 coches Daniel Rocha
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As oficinas do museu Daniel Rocha

Andava devagar, como quem passeia, parando muitas vezes para dar autógrafos e tirar fotografias com alunos de Arquitectura. Desaparecia de vez em quando para ir fumar um cigarro e, ao regressar, voltava a procurar um detalhe que lhe permitisse falar da relação do museu com a envolvente: os jardins, os palácios e outros monumentos, o Tejo e o casario da Rua da Junqueira, com as traseiras viradas para a praça que desenhou. “Privilégio… Um grande privilégio esse lugar”, dizia Paulo Mendes da Rocha em Março de 2013, quando o novo Museu Nacional dos Coches, que é hoje inaugurado, abriu para uma rara visita, com as galerias de exposição ainda vazias.

Nessa altura o arquitecto brasileiro e o português Ricardo Bak Gordon, que com ele projectou o museu, pediam a todos que fizessem um exercício – o de imaginar os coches naquelas enormes galerias de paredes brancas e chão de betão. Hoje, ainda que as viaturas já ocupem o seu espaço devido, é preciso fazer outro – o de imaginar que a museografia concebida por Mendes da Rocha e pelo arquitecto português Nuno Sampaio está completa, com grandes projecções nas paredes que evocam a relação dos coches com o cinema (o Pritzker brasileiro sempre falou nela, a partir do Casanova de Ettore Scola), com instalações sonoras que reproduzem o barulho das rodas na gravilha, e toda a informação adicional em painéis digitais interactivos que permitem olhar para o interior destas jóias construídas entre os séculos XVI e XIX e conhecer melhor todo o seu contexto.

É que, depois de mais de dois anos de intensa polémica, em que esteve de portas fechadas, o edifício composto por dois corpos, um expositivo e outro anexo, confiado ao auditório e a serviços, vai ser inaugurado praticamente como estava no final de 2012, quando foi dado por concluído (a obra só foi oficialmente entregue no início do ano seguinte). A colecção já lá está, é certo, mas, além da museografia, que estará instalada até ao fim do ano, falta-lhe também a passagem pedonal e ciclável sobre a linha do comboio e a Avenida da Índia, que a partir de Junho de 2016 deverá ligar o novo conjunto arquitectónico ao rio, a cafetaria e o restaurante, já construídos mas ainda vazios: prevê-se que estejam a funcionar no “último trimestre deste ano”, garante João Póvoas, do gabinete do secretário de Estado da Cultura, esclarecendo que sábado, dia da abertura ao público, estará em funcionamento uma gelataria e um espaço de restauração provisório, com produtos portugueses, na praça do museu. A sala de exposições temporárias também estará, por enquanto, vazia, porque “neste momento importa dar destaque à exposição permanente”.

Esta sala, cuja programação dependerá, como é natural, da aprovação da equipa técnica do museu, que continuará a ser dirigido por Silvana Bessone, pelo menos até Março de 2018, é um dos elementos a ter em conta no novo plano de gestão, do qual ainda pouco se sabe. O espaço poderá vir a ser ocupado por privados, assim como o auditório e a praça, “introspectiva, resguardada, intimista”, segundo Bak Gordon, marcada por um edifício principal que “não tem frente nem verso”.

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A mala-posta de meados do século XIX, primeiro transporte público colectivo português, que levava dias a fazer a ligação Lisboa-Porto com 16 passageiros Daniel Rocha

A qualidade do projecto de arquitectura é algo que o secretário de Estado da Cultura (SEC), Jorge Barreto Xavier, nunca pôs em causa, chegando a defender que um museu de Mendes da Rocha em Lisboa era um “activo” a levar em conta. E isto mesmo sendo sempre muito crítico em relação à opção do governo socialista de José Sócrates de aplicar as contrapartidas da construção do Casino de Lisboa numa nova casa para os Coches.

A arquitectura é, aliás, o que o leva a inaugurar hoje um museu que já está pronto há mais de dois anos: “Já esperámos muito e esperar mais não se justificava. O novo museu, já o disse, é como a Casa da Música ou o Museu de Serralves - o exercício da arquitectura e o discurso da arquitectura são muito relevantes.” Se assim é, fica a pergunta: “Porquê inaugurar agora e não há mais de dois anos?”, disse há quase duas semanas, na conferência em que a obra foi apresentada aos jornalistas.

Barreto Xavier rejeita qualquer leitura que associe o timing desta inauguração às legislativas que se aproximam. Uma leitura que é feita, por exemplo, pela historiadora de arte Raquel Henriques da Silva, que nos últimos anos tem sido uma das vozes públicas mais activas contra o novo museu, que define esta abertura como “um acto da campanha eleitoral que já estamos a viver”. Para o SEC, tudo se resumiu a uma questão de dinheiro, ou à falta dele.

Previsões “conservadoras”

Falando na conferência de imprensa de 11 de Maio, o SEC reconheceu os atrasos, atribuindo-os à necessidade de conter despesas, sobretudo em 2013, e à inexistência de um modelo de gestão exequível, capaz de viabilizar um museu cujos custos de funcionamento previstos rondavam, de início, os 3,5 milhões de euros por ano, um aumento extremamente significativo se levarmos em conta que, em 2014, último ano em que o museu funcionou no antigo picadeiro do Palácio de Belém, se ficaram pelos 950 mil, mais de metade dos quais assegurados por receitas próprias.

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Rita Dargent, conservadora do museu,segura a casaca de veludo do príncipe D. Afonso, irmão de D. Carlos e patrono de uma prova equestre Daniel Rocha

Hoje, e afinada que está a estratégia de gestão, segundo Barreto Xavier, a previsão para o funcionamento desceu para os 2,7 milhões de euros /ano, uma redução que fica a dever-se, em parte, a uma diminuição muito significativa do número de funcionários a contratar para o novo museu – as primeiras contas foram feitas prevendo um acréscimo de 56 pessoas, sendo que apenas 30 foram incorporadas na equipa, que passa a contar com 62 elementos nos dois pólos (novo edifício e picadeiro do século XVIII).

Barreto Xavier preferiu não dar pormenores sobre o modelo para o museu, mas garantiu que terá grande participação de privados, com a restauração, loja e aluguer de espaços para exposições, concertos, conferências e outras iniciativas como importantes fontes de receita, para além da bilheteira. A participação do Estado no orçamento de funcionamento deverá ser a mesma que tinha no antigo museu (cerca de 400 mil euros), esperando o SEC receitas na ordem dos 2,3 milhões de euros. Receitas que espera ainda vir a aumentar progressivamente.

Até que a museografia esteja instalada, o bilhete para o novo edifício custará seis euros, sendo a entrada conjunta oito (com o Picadeiro). Depois da exposição completa, a casa de Mendes da Rocha passará a custar oito (os dois pólos ficarão, então, nos dez euros).

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Muitos dos coches são profusamente decorados com pintura e escultura Daniel Rocha

As previsões de visitantes – 350 mil/ano, o mesmo número que o museu teve em 1998, ano excepcional para o turismo em Lisboa por causa da Exposição dos Oceanos – são “conservadoras”, admite o SEC, mas permitem um exercício mais realista do que as que apontavam, logo em 2009, para um milhão de visitantes, “número fantasma” que começou a circular sem se saber muito bem de onde viria, ou, já em 2013, para os 600 mil (em 2014 foram 207 mil os que entraram no antigo picadeiro).

Independentemente do número, não é difícil imaginar a praça cheia de movimento, com turistas em passeio ou nas esplanadas, fazendo uma pausa naquela que é a zona monumental mais visitada do país. É verdade que os Coches terão de disputar atenções com o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém e outros museus circundantes, mas também é verdade que terão a seu favor dois importantes trunfos: uma das melhores colecções do mundo no seu género e um edifício desenhado por um dos mais importantes arquitectos brasileiros.

O edifício principal, que com seis mil metros quadrados quase triplica a área expositiva do antigo museu, é dominado por duas grandes naves de 135X20 metros, números redondos, onde a disposição dos coches obedece a uma ordem cronológica. O pé direito de 8,5 metros nestas galerias permitiu a instalação de passadiços superiores que dão ao visitante uma perspectiva aérea da colecção. Para já não pode comentar-se o efeito cenográfico geral da museografia, mas é seguro dizer que nela a iluminação terá um papel decisivo, já que a luz natural, por motivos de conservação, é muito diminuta nas áreas de exposição. À vista estarão 78 exemplares da colecção, um aumento face aos 55 que o picadeiro mostrava. O antigo museu deixava as viaturas do século XIX quase todas no paço ducal de Vila Viçosa, onde continuará a funcionar outro pólo do museu. Da vila alentejana foram agora transferidas para Lisboa 25 viaturas.

A nave sul do novo edifício faz uma viagem entre os séculos XVI e XVIII, começando no coche de Filipe II (fabricado possivelmente no século XVI), em que o monarca viajou de Madrid a Lisboa em 1619, dois anos antes de morrer, e terminando naquele que é conhecido como o coche da mesa ou da troca das princesas, célebre episódio histórico na fronteira do Caia destinado a fortalecer as ligações entre as casas reais portuguesa e espanhola. A galeria norte começa por apresentar um conjunto de berlindas e viaturas eclesiásticas, detém-se depois em cadeirinhas, liteiras e carros de passeio da burguesia, terminando com uma mala-posta de meados do século XIX, primeiro transporte público colectivo português, que levava dias a fazer a ligação Lisboa-Porto com 16 passageiros, alguns sentados no tejadilho. Nas duas naves em que a sensação de espaço é permanente – juntas formam uma espécie de hangar cuja dimensão é impossível ignorar - o contraste entre a aparente simplicidade da arquitectura e a profusão decorativa dos coches é evidente. E diverte.

O edifício anexo – auditório, biblioteca, restaurante e áreas administrativas - tem uma relação completamente diferente com a luz natural, abrindo os espaços ao exterior. Da grande janela do restaurante é possível “entrar” nos jardins do palácio presidencial, chegar ao Padrão dos Descobrimentos ou acompanhar as filas que se formam à porta dos Jerónimos e dos pastéis de Belém.

Um longo processo

O projecto de um novo museu para os coches reais remonta aos anos 1990, quando Pedro Santana Lopes era secretário de Estado da Cultura e ordenou a compra dos terrenos das antigas Oficinas Gerais do Material do Exército, onde viria a ser construído o edifício de Mendes da Rocha. Foi preciso esperar até 2008 para que Manuel Pinho, ministro da Economia do primeiro governo de Sócrates, viesse a anunciar o projecto do novo museu, que queria ver inaugurado no centenário da República, em 2010. Falhou a data por cinco anos.

Desde que o arquitecto brasileiro começou a dedicar-se ao projecto, há sete anos, até à abertura das portas, muito se disse e escreveu sobre o novo museu. Por vezes a partir de posições extremadas. E quase sempre negativas.

O líder socialista António Costa, então presidente da câmara de Lisboa, chegou a dizer que um novo edifício para os Coches era “desnecessário” e nunca escondeu que preferia ver as contrapartidas do casino aplicadas a outros projectos culturais na capital, como o Museu das Descobertas e o centro de cultura africana, ideias que não chegaram a avançar.

Outro dirigente político que sempre fez questão de manifestar as suas reservas foi o actual secretário de Estado da Cultura. Barreto Xavier afirmou diversas vezes, pelo menos uma delas em sede parlamentar, em Outubro de 2013, que optar por reinstalar os Coches tinha sido um erro e que, num clima de contenção orçamental transversal a todas as áreas da governação, o projecto não era “prioritário”. Em causa estava, lembrou, o custo geral da obra, que hoje se cifra em 40 milhões de euros e foi assegurado na quase totalidade pelas contrapartidas do Casino de Lisboa, e as avultadas verbas que teriam de ser destinadas ao seu funcionamento.

Houve ainda um deputado da coligação no governo a chamar-lhe “mamute branco” e a classificá-lo como “uma obra de regime”. De um “regime”, note-se, que não é o actual. E o arqueólogo Luís Raposo, à data ainda presidente da secção portuguesa do Conselho Internacional de Museus, classificou-o mesmo como um “erro colossal”. No meio da polémica, e já com o edifício praticamente pronto, falou-se até da possibilidade de o vir a afectar a outro museu, algo que nunca foi assumido publicamente.

Em Setembro do ano passado juntou-se mais um dado ao já intricado folhetim do novo museu – António Lamas assumiu a presidência do Centro Cultural de Belém (CCB) com a dupla missão de gerir a casa e de criar um plano de gestão integrada para o eixo monumental Belém-Ajuda. Os Coches, cuja abertura Lamas considerou desde logo “prioritária”, deverá ser um dos elementos deste documento que, segundo o gabinete do SEC, tem Junho como prazo de entregue.

Hoje, na cerimónia de inauguração, Mendes da Rocha voltará a caminhar pelas grandes naves dos Coches. Mas, se quiser ver como reagem os portugueses à casa que desenhou, terá de voltar no dia seguinte, quando a entrada é gratuita e o museu estará, de facto e finalmente, aberto.