Entrevista

Marco António Costa: "Nós não estamos irritados"

O Governo foi pragmático e mudou de estratégia. E o PSD "sente sempre satisfação" quando há boas notícias, diz o vice-presidente. Mas "em 2009 também vivíamos uma euforia sem fim", avisa.

Rui Gaudencio
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Rui Gaudencio

Faltam reformas para o país crescer mais. Mas o PSD não vai apresentar as suas ideias agora: "O ónus está em quem governa", justifica Marco António Costa.

À beira das autárquicas, o PSD tem sido "vítima" das boas notícias económicas que contrariam as previsões feitas pelo partido nos últimos meses. Ficou surpreendido com o crescimento do PIB de 2,8% no primeiro trimestre?
Queria começar por corrigir algumas palavras que disse: nós não estamos a ser vítimas de nada, o país está a beneficiar de um conjunto de decisões e reformas que foram feitas ao longo dos últimos anos. O PSD não se sente vítima, sente sempre satisfação quando há boas notícias.

Mas com alguma surpresa...
... e não contraria as nossas previsões. Confirma é que o Governo mudou de estratégia orçamental na Primavera do ano passado, face ao que estava a acontecer nos primeiros meses do ano. A Comissão Europeia alertou o Governo que estava a caminhar para não cumprir o défice e que a estratégia de induzir crescimento pela devolução de rendimentos não estava a ter resultados. Aí o Governo foi pragmático: lançou mão de cativações definitivas, que bloquearam investimentos; lançaram o programa Peres e a reavaliação de activos para obter receitas extraordinárias. O Governo meteu travão a fundo na despesa e procurou por todos os meios obter receita extra, para assegurar um défice mais baixo do que aquele que previa. Aquele fundamentalismo de que o PS nos acusava? Conseguiu ultrapassar-nos com o que fez na segunda metade de 2016.

E com isso o PSD deixou de ter razões para desconfiar de que viria o diabo. Ou não?
Com isso começou a haver sinais de que se atingiriam os objectivos, mas não da forma adequada. Porque atingimos um défice nominal positivo, mas o saldo estrutural degradou-se.

O Governo anterior, em 2015, também não foi brilhante.
Mas nós pegámos num país em bancarrota que tivémos que recuperar. O que deixámos foi um país numa situação com uma perspectiva de futuro diferente.

Dizendo que o executivo corrigiu o tiro e alinhou no essencial, o PSD não tem que concluir que este Governo de esquerda se normalizou?
O Governo remediou a situação no ano passado. Uma das coisas que procurou fazer foi injectar fundos comunitários na economia alterando as regras. A execução em si mesma é fraca, o que tem havido é um adiantamento de fundos para tentar recuperar o que foi travado de investimento público. O que estamos a ter são resultados que se realinham com o essencial: controlar o défice, procurar que o Estado tenha uma aposta este ano no investimento. 

Que estes dados do INE confirmam.
Estes dados confirmam. O que o Governo fez foi realinhar a estratégia, a nosso ver bem, embora tenha perdido o ano de 2016 naquilo que era uma perspectiva de crescimento mais ambiciosa. 

Essa mudança de estratégia não foi radical? As pessoas sentiram que havia uma política diferente.
O que aconteceu, de facto, é que o Governo acelerou medidas que nós já tínhamos previstas. Foi o nosso Governo que começou a devolução de rendimentos em 2015, que continuaria de acordo com as capacidades orçamentais, sem colocar em risco a recuperação e o crescimento económico.

Portanto, menos acelerado?
Nós fomos bastante conservadores, não tivemos a ousadia de prometer o que não tínhamos a certeza de que era possível. E portanto, paga-se isso em política. Se calhar pagámos isso com a não obtenção de uma maioria absoluta. 

E, pelos vistos ,o PS foi ousado e tem tido razão.
Não sei, vamos ver. Espero que sim, que para o país o Governo tenha sucesso. Essa é sempre a nossa perspectiva, o PSD não tem uma visão dicotómica e negativista. Mas nós, também nos anos da crise, mantivemos o aumento das pensões mais baixas, que foi congelado em 2010 pelo PS. É que a história tem um curso e às vezes há uma certa incapacidade de ter uma visão mais alargada para percebermos onde começam os problemas. E em 2009, que foi um ano com três eleições, vivíamos uma euforia sem fim. E eu queria recordar isso.

Maria Luís Albuquerque reagiu aos dados do INE dizendo que receia que o Governo desista de fazer as reformas de que o país precisa. Quais são?
O Governo tem estado a gerir com um mínimo de impacto possível a governação do país. Porque tem problemas dentro da aliança política que estabeleceu... 

Mas de que reformas precisamos?
Por exemplo, várias vezes nos disponibilizámos para nos sentarmos à mesa para discutir as matérias da Segurança Social. Todos temos noção que o problema de sustentabilidade é sério - basta haver um ciclo económico menos favorável para termos desequilíbrios estruturais fortíssimos. Era importante olharmos com tempo, sem radicalismo ideológicos, estudando os problemas e apresentando soluções. Fizemos três propostas para nos sentarmos, recebemos sempre uma indisponibilidade do PS.

Mas também não vimos uma proposta do PSD que lançasse essa discussão.
Temos as nossas propostas, mas também nos dá o benefício de não sermos ingénuos. Não estamos no Governo. E se apresentarmos a nossa proposta, o Governo aproveitará para nos atacar. 

Não era uma maneira de mostrar que o PSD tem alternativas?
Vou-lhe responder com uma proposta que o primeiro-ministro usou na fase negocial a seguir às legislativas, quando procurámos construir um Governo com apoio do PS: ele dizia que o ónus da solução estava do nosso lado. Mas onde está o do PS? Onde estão as reformas do PS?

Se não vem o diabo e se o PSD esconde as suas propostas, que espaço resta ao PSD?
Eu sou um católico, não me revejo no diabo. Tenho sempre uma visão positiva. Ao longo desta entrevista vocês têm repetido uma ideia subliminar, que é que nós estamos irritados por as coisas estarem a correr bem ao país. Nós não estamos irritados, estamos satisfeitos por uma razão muito simples...

É uma ideia que não é nossa, é a que passa do PSD.
Nós trabalhámos tanto, lutámos tanto, passámos tantas dificuldades para libertar o país de um programa de ajustamento duríssimo - que em 2014 terminou, mas que outros queriam que continuasse... recordam-se que o PS queria um programa cautelar? E hoje estaríamos como está a Grécia! Portanto, temos todo o crédito para dizer que não nos façam essa acusação que é injusta. E é uma forma bastante desonesta de nos tentar posicionar no debate. Não nos vamos deixar diminuir no debate. 

E a crítica que tem sido feita ao PSD de estar sem discurso e sem estratégia.
É completamente falsa. Nós, quando foi discutido no ano passado o Plano Nacional de Reformas apresentámos 222 propostas. Duzentas e vinte e duas! Não sei se tiveram oportunidade de as ler...

Se nós não tivermos, imagine os portugueses.
Mas nós também sentimos que há uma certa dificuldade em passar a nossa mensagem. Este Governo beneficia de uma docilidade absoluta do PCP e BE que, por norma, acicatam sindicatos e sectores da sociedade contra os governos. E desta vez não só aceitam o que criticavam como ainda vêm justificar. Mas para além das 222 propostas de 2016, aquando do OE 2017, apresentámos propostas em três sectores. Na descentralização, todas chumbadas pela esquerda, que agora está a reapresentar algumas que nós apresentámos; outras na reforma da Segurança Social, também chumbadas; e no caso do crescimento económico, para que se mantivesse a reforma do IRC, que teve apoio do PS e dos parceiros sociais, mas foi revertida. Temos apresentado propostas, há um discurso coerente. Nós não vivemos com estados de alma. Por isso, às vezes, muitos dos nossos observadores olham para a atitude serena da comissão política e do seu líder e acham-na estranhamente serena.