Editorial

Os primeiros desafios de Macron

O novo Presidente francês inaugura o mandato com uma viagem a Berlim e com a nomeação de um primeiro-ministro.

O oitavo presidente da República francesa foi ontem empossado e começa hoje a exercer o seu lugar no Eliseu. Não é uma estreia de somenos: Emmanuel Macron viaja de Paris até Berlim para tentar fazer renascer o eixo franco-alemão e assim relançar o projeto europeu. Vai encontrar uma Angela Merkel sensível, mas pouco disposta a compromissos antes das eleições alemãs de Outubro.

Ao mesmo tempo terá de anunciar a sua escolha para ocupar o cargo de primeiro-ministro. A tarefa não é fácil: metade da classe política francesa gostaria de ficar com o lugar mas poucos serão capazes de representar um misto de experiência e renovação, para além de força para concretizar as reformas pretendidas.

O programa é muito ambicioso e reformista, o que provoca incómodos. Os maiores opositores do Presidente não estarão na Frente Nacional. Estão nos interesses corporativos defendidos de forma acérrima numa sociedade que ainda aposta em manter as coisas como estão. Será difícil convencer os sindicatos a aceitar mexidas na lei laboral, e não seria a primeira vez que a força das ruas seria capaz de impedir o sucesso de uma reforma Macron. Modernizar o tecido económico não se fará sem dores, apostar na inovação implica investimentos públicos massivos para os quais não há fundos disponíveis. Resolver o problema da insegurança, que mantém o país num estado de emergência permanente, é outro problema com poucas soluções à vista. E isso liga-se aos milhares de soldados que combatem o extremismo islâmico em dezenas de locais que vão do Mali ao Afeganistão, cujas operações também deverão ser reavaliadas.

E depois há a mudança de mentalidades, que precisa de ser operada numa nação que nunca abraçou o multiculturalismo e ainda se dá mal com a globalização. O problema islâmico em França vem precisamente da incapacidade em integrar, cultural e economicamente, as massas imigrantes. Este conservadorismo social tem-se mostrado, de outra forma, com os ataques mais ou menos velados ao casal presidencial. Brigitte Macron tem sido insultada devido à diferença de idades entre o casal presidencial – que só é tema Porque a mais velha é ela. É a velha França, machista e misógina, a fazer erguer a sua face. Mas é também para essa França que Macron terá de governar, impondo a sua agenda de diversidade – e modernizando o país também nesse sentido. Será preciso reconciliar uma nação dividida em várias frentes – e esse é um desafio para durar todo o mandato.