Opinião

O que pode Macron fazer pela França e pela UE?

Ninguém de boa-fé pode esquecer a enorme simpatia que o programa de Hollande gerou em França e em toda a Europa. Foi o que se viu.

Pode a política que engendrou a enfermidade de que padece a União Europeia e os países do euro ser a salvadora da crise? A ter em conta as notícias acerca da vitória eleitoral de Macron parece que sim, embora, por amor à verdade, também há as que dão conta das dificuldades de, mantendo estes medicamentos, curar a doença.

Macron é um político ligado à política desastrosa de François Hollande, tendo sido seu principal conselheiro económico e ministro da Economia. Foi participante instigador desse desnorte. Vai continuar, a partir do Palácio do Eliseu, a impulsioná-la.

Foi essa política que levou a Frente Nacional de Marine Le Pen a chegar perto dos 40% dos votos, o que era inimaginável há uma dezena de anos. Foi ainda essa política cega de combate aos direitos sociais que levou ao estilhaço dos partidos do chamado arco do governo envoltos em escândalos que fazem as populações fugirem e desconfiarem até ao tutano de semelhantes elites.

Aliás, a desconfiança campeia por toda a Europa. Há cerca de um ano foi o referendo no Reino Unido. Há meses ficou suspensa a aguardar os resultados das eleições na Holanda. Agora foi em França, que de novo ficará em stress com as eleições legislativas. O PS e a direita (Republicanos e a União dos Democratas Independentes) lambem as feridas dos duros golpes sofridos. Os que chegaram ao PS por arrivismo político já fogem, como é o caso de Manuel Valls, seguindo o especialista em sprintes Macron. Lá para o outono terão lugar as eleições na Alemanha, onde a direita e o SPD governam de braço dado impondo a toda a União esta política que gera a desconfiança em cada país.

É evidente que entre Macron e Le Pen o mal menor é o banqueiro, mas nem por isso deixa de ser um mal. E um mal é sempre um mal, não é um bem, e do que nós todos precisamos é do bem e não do mal. Macron é um símbolo perfeito do establishment francês e europeu. O programa eleitoral do movimento de Macron para conseguir uma maioria que o apoie na presidência tem de ser encarado com toda a desconfiança. Ninguém de boa-fé pode esquecer a enorme simpatia que o programa de Hollande gerou em França e em toda a Europa. Foi o que se viu.

Macron precisa de uma maioria e de se apoderar dos destroços dos partidos do poder de onde ele saiu quando vislumbrou a possibilidade de desdizer o que fez por Hollande e o PS. Se conseguir uma maioria parlamentar, terá todo o poder e fará o que lhe vai na alma — esmifrar o Estado social e intensificar a precariedade nos locais de trabalho. A França de Macron é a de Hollande. Saiu porque quis aproveitar a situação que ajudou a criar. É esta duplicidade que faz recrudescer o populismo e desacreditar as instituições democráticas minadas por dentro pelos que as colocam ao serviço dos mercados financeiros. O problema que vai criar é o de cansar ainda mais os cidadãos que, de novo, se vão sentir ludibriados e assim afundar a separação entre os governantes e os governados, olhando estes para os de cima com total desconfiança.

Os países da União Europeia, salvo a Alemanha, vivem uma crise que resulta da tomada das decisões políticas em cada país por parte de entidades e instituições financeiras sem rosto e que existem para retirar a cada nação a riqueza criada e assim poderem continuar a medrar. A financeirização da vida económica levou a que os países ficassem reféns de um conjunto de instituições ao serviço dessas entidades e que uma vez na União e no euro não mais possam erguer a sua voz, sob pena de, se o fizerem, serem encostados ao paredão do default e impedidos de decidirem o seu futuro.

Esta União não é uma União, é uma camisa-de-forças que amarra os países (hoje uns, amanhã outros) ao pelourinho da austeridade com o sentido de empobrecer cidadãos, desmantelando o setor público, embaratecendo os salários e tornando os vencimentos dessa corte ao serviço da financeirização escandalosos. Pode ser uma União se um dos Estados, a Alemanha, se financia no mercado e, em vez de pagar juros, recebe por se financiar enquanto outos pagam juros elevados?

Esta deriva neoliberal levou a que o dinheiro não desça à terra e crie riqueza, sendo aplicado na especulação como se de repente os países passassem a ser casinos onde os especuladores vão destruindo o seu tecido económico para se engordarem. Os investidores vão para qualquer canto do mundo onde paguem o menos possível e recebam o máximo de lucro, sacrificando o futuro de cada país.

É esta a verdadeira crise da União Europeia — o seu modelo político social. Ou continuar a estrangular os países impedindo-os de crescer e obrigando-os a empobrecer as populações, pagando a crise do sistema financeiro para que este se reerga e volte a poder competir com novos atores no terreno; ou mudar de agulha e apontá-la para um desenvolvimento económico e social baseado no respeito pela democracia política, económica, social e ecológica.

Os que levaram a União Europeia para o descalabro em que se encontra não podem retirá-la da crise, tanto mais quanto a receita proveniente da França, da Holanda e de outros quadrantes próximos de Merkel e Schäuble não mostram qualquer ensejo de mudar, antes reclamam manter a mesma direção com novos agravamentos, como é o caso da reforma laboral de Macron.

Vale a pena fazer esta pergunta: Quantas reformas laborais se fizeram? Quantas são ainda precisas? Será sempre exigida uma nova reforma até que acabem os tribunais de trabalho por inutilidade face à ausência de Direito do Trabalho.

Fica-se com a sensação que o modelo escondido destes reformadores é entregar as relações laborais ao patronato fazendo este o que quiser, na esteira de Donald Trump que, ao mesmo tempo, em matéria de impostos sobre os lucros, quer decretar uma baixa histórica. É também esta política cansativa, desligada do coração e das aspirações das populações, que faz germinar o populismo e a demagogia em relação aos migrantes e refugiados. É ela que gera desespero para quem foi habituado a uma vida minimamente digna ceifada por esta loucura de querer fazer os ricos mais ricos e alargar o número de pobres, fazendo os pobres mais pobres.

A Alemanha imperial, como a águia, olha do cimo da União Europeia para o resto das nações e fala consigo própria acerca do seu bem-estar. Impõe aos outros a austeridade por via de uma coligação que se assemelha a uma espécie de União Nacional em liberdade, apagando as suas diferenças em nome dos seus excedentes e da sua posição privilegiada.

Só que isto não é uma União, isto é um torniquete do mais forte contra os mais fracos. Por isso não irão os Macrons de todas as latitudes resolver o problema que criaram e escondem. Só um corajoso impulso que leve os social-democratas a rejeitar esta política, os comunistas e outras formações de esquerda a manterem as suas identidades renovadas e todos a forjarem uma convergência corajosa que possa transmitir às populações e aos povos a existência de uma alternativa para uma vida melhor, pois os políticos do establishment prometem uma vida pior para a imensa maioria e uma vida de luxo insuportável para uma ínfima minoria.

O autor escreve segundo as normas do novo Acordo Ortográfico