Torne-se perito

Na Líbia, há armas de guerra à venda no Facebook

O vazio de poder na Líbia e o acesso livre à internet propiciou o estabelecimento de um mercado internacional de armas que opera através de grupos fechados no Facebook.

Foto

Pistolas para quem teme ser vítima de carjacking. Carabinas para praticar tiro ao alvo. Mas também mísseis anti-tanque e terra-ar e metralhadoras Kalashnikov utilizadas em atentados e conflitos armados. Estas armas estão à venda na Líbia, através do Facebook, e o fenómeno é descrito num relatório publicado na terça-feira pelo Small Arms Survey, um observatório com sede em Genebra, apoiado pelos governos suíço, holandês e canadiano.

As transacções acontecem em grupos de acesso restrito mas de intensa actividade, onde os compradores descrevem o que procuram e os vendedores publicam fotografias e vídeos do armamento. Os primeiros são sobretudo líbios alarmados pela explosão da criminalidade na era pós-Muammar Kadhafi. Procuram pistolas de baixo calibre para se defenderem de tentativas de assalto, e chegam a pagar mais de 6.000 euros por uma arma.

Quem vende é habitualmente jovem e tenta suplementar os rendimentos do trabalho numa economia ainda em convulsão após a queda do anterior regime em 2011. Uma das fontes dos relatores, um estudante de engenharia dos subúrbios da capital, Tripoli, afirma que grande parte dos seus amigos universitários entrou no comércio ilegal de armas para poder pagar o curso.

No entanto, nota o Small Arms Survey, também há indivíduos ligados a milícias e grupos terroristas, dentro e fora da Líbia, à procura de armamento no Facebook. Nos anúncios, indicam preferência por armas de grande calibre e em “qualquer quantidade disponível”.

Grande parte das armas, sobretudo as de fabrico soviético, tem origem nas instalações militares pilhadas em 2011. Outras são produto de apreensões levadas a cabo por milícias que se substituem ao poder e que financiam a sua actividade com este e outros tipos de negócio ilícito. Mas a transformação da Líbia num mercado internacional de armas atraiu outros agentes. Outra fonte do relatório, um homem ligado a um grupo armado de Tripoli, afirma que “a Turquia e outros países estão a enviar armas para a Líbia” para responder a uma crescente procura.

Para além das armas soviéticas e turcas, destaca-se uma larga oferta de pistolas de fabrico belga. Por fim, ainda é possível encontrar à venda relíquias da Segunda Guerra Mundial, quando alemães, italianos, britânicos e norte-americanos batalhavam nos desertos do Norte de África. Grande parte deste stock, indica o relatório, ainda se encontra em condições de uso ou é facilmente reparável.

Estes grupos de Facebook violam as regras da rede social. No entanto, o acesso restrito permite-lhes operar durante vários meses, reunindo milhares de membros, antes de serem encerrados. Uma vez denunciados, são rapidamente reconstituídos sob outro nome, e os seus dinamizadores surgem sob novos perfis falsos. Segundo o Washington Post e o New York Times, quem opera estes grupos não faz questão de ocultar a sua natureza: as imagens de perfil são invariavelmente fotografias de armas, os títulos podem ser tão explícitos quanto “mercado de armas líbio”.

Contactado pelo NYT em 2016, quando foram revelados dados preliminares do relatório, o Facebook disse confiar a vigilância destes grupos aos próprios utilizadores da rede, a quem cabe fazer a denúncia. Até esta semana, notava o Post, a política mantinha-se.

Entretanto, a Líbia assiste a uma nova tentativa para pôr termo à guerra que desde 2014 divide o país entre dois governos. Na terça-feira, os líderes do executivo de Tripoli, apoiado pelas Nações Unidas, e do governo suportado pelo parlamento líbio, com sede em Tobruk, reuniram-se nos Emirados Árabes Unidos. Segundo o The Guardian, discute-se a marcação de eleições ainda este ano. Uma nova ronda negocial mediada pelo Egipto está agendada para a próxima semana.

Sugerir correcção