Fenda do icebergue gigante da Antárctida dividiu-se em duas

A fissura num grande bloco de gelo, na plataforma Larsen C, partiu-se em duas, assumindo a forma de uma língua de cobra. A separação do icebergue está para muito breve, avisam os vigilantes cientistas.

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A fenda tem actualmente cerca de 180 quilómetros e faltam 16 para a separação do bloco de gelo NASA/Kathryn Hansen

Há vários meses que o bloco de gelo é notícia, relatando-se cada avanço da fissura na plataforma Larsen C. Actualmente, existem 180 quilómetros de uma fenda aberta no gelo da Antárctida que foi crescendo a um ritmo impressionante nos últimos meses. O final é mais ou menos previsível: um icebergue gigante, com cinco mil quilómetros quadrados, vai soltar-se da plataforma. E depois?

Está quase. Desde Fevereiro que a fenda na plataforma Larsen C parecia ter abrandado a sua progressão no gelo, mas a 1 de Maio foi observada uma mudança no cenário branco. Uma das pontas do risco no gelo abriu-se em duas, apresentando agora uma bifurcação semelhante à língua de uma cobra. O “novo ramo”, que nasceu dez quilómetros antes do fim da fenda, surgiu mais perto do mar e dirige-se para a frente de gelo, segundo os dados recolhidos pelo cientistas do Projecto Midas, da Universidade de Swansea, no País de Gales (Reino Unido) que acompanham a evolução da plataforma Larsen C. O ramo que actualmente terá cerca de dez quilómetros de comprimento não aumenta o tamanho da fenda original, mas deverá aumentar a fragilidade do bloco do gelo formando uma ponta com duas brechas.

Em Janeiro, quando só havia uma fenda, o rasgo no gelo já tinha cerca de 175 quilómetros, faltavam 20 para se partir. Agora, com o tal abrandamento registado desde Fevereiro, as duas pontas quase paralelas da fenda chegam aos 180 quilómetros. Segundo os investigadores, a abertura deste novo ramo terá surgido quando a fissura original atingiu gelo mais macio e por isso mais difícil de se fracturar, transferindo a pressão e tensão para outra zona do bloco.

Segundo uma publicação dos investigadores no site do Projecto Midas, a observação directa do novo ramo da fenda é difícil por causa do Inverno que está actualmente instalado na Antárctida. Assim, explicam na nota, as observações foram apoiadas nas imagens de interferometria recolhidas pelos satélites Sentinela, da Agência Espacial Europeia. “Embora o comprimento da fenda tenha ficado estável durante vários meses, tem crescido de forma constante, a taxas superiores a um metro por dia. Este alargamento tem aumentado sensivelmente desde o desenvolvimento do novo ramo, como pode ser visto nas medições da velocidade do fluxo de gelo”, referem os cientistas.

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E agora?

Quando este bloco de gelo se separar, a plataforma Larsen C perderá mais de 10% da sua área, fazendo com que a frente de gelo fique na posição mais recuada de sempre. “Este fenómeno vai mudar de forma fundamental a paisagem da Península Antárctica”, dizem os investigadores dedicados ao Projecto Midas, lembrando que a “nova configuração será menos estável”. Por outro lado, referem que é possível que a Larsen C siga o exemplo da sua vizinha (Larsen B), que se desintegrou em 2002, após um fenómeno semelhante ao que está agora a acontecer.

As lições aprendidas com a desintegração da Larsen A e a Larsen B, em 1995 e 2002, mostram também que a entrada no oceano destes grandes blocos de gelo, que são a parte final dos glaciares, aumenta o nível do mar.

Ao Inverno que alonga as noites na Antárctida e dificulta as observações e ao gelo macio, soma-se outro factor que pode acelerar o inevitável desfecho da separação do icebergue. O centro de investigação British Antarctic Survey publicou na semana passada um estudo que mostra que naquela zona sopra actualmente um especial vento quente (foehn) que cai sobre as montanhas da península para a plataforma de gelo Larsen C e que pode ajudar a derrete-la. Se um dia ocorrer o colapso da Larsen C (e para confirmar se isto acontece ainda será preciso esperar muito tempo), não será um caso inédito.

A lista de plataformas de gelo que se partiram, recuaram ou perderam volume nas últimas décadas é longa. Faz parte do ciclo de vida dos glaciares. Uma das explicações para este tipo de fenómenos está centrada nas alterações climáticas. E a Península Antárctica é dos locais que têm estado a aquecer mais depressa no planeta: desde 1950, a temperatura média anual do ar subiu cerca de três graus Celsius. Porém, esta separação do icebergue da plataforma flutuante de gelo poderá ter também causas naturais, uma vez que os colapsos destas placas são frequentemente o resultado de questões dinâmicas. O mais provável mesmo será estarmos a assistir ao resultado da força da natureza, empurrada pela mão humana.

Resta esperar. A cada seis dias, há um radar em satélites que envia informação sobre a superfície de gelo para os investigadores.