Crítica

Organização do pessimismo

Na peça BiT , a coreógrafa francesa Maguy Marin serve-se de alguns clichés que fragilizam a peça pela sua redundância e literalidade.

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HERVE DEROO
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Com quatro décadas de carreira premiadas com o Leão de Ouro na Bienal de Veneza, a coreógrafa francesa Maguy Marin assina a peça BiT, apresentada no passado dia 29 de Abril, no Rivoli TMP, no âmbito do DDD- Festival Dias Da Dança.

O título BiT ecoa as duas premissas que alicerçam a peça. Primeiramente, no ritmo e suas possíveis declinações: o ritmo do movimento e da dança dos corpos, o ritmo cíclico das vidas em oposição à pulsão crescente de outros ritmos, como o da circulação de pessoas, bens e de informação numa sociedade de capitalismo neoliberal global, com a inalienável aceleração quotidiana.

Bit é ainda a unidade de medida mínima de informação nesta era de circulação de dados e interconectividade digital global. E é ao som de música tecno, com desenho de luz minimal, que Maguy Marin faz entrar os seis bailarinos, três homens e três mulheres intercalados e de mãos dadas. Estes desenham e recompõem no espaço linhas e círculos reminiscentes de danças tradicionais, uma fusão híbrida de danças gregas, sevilhanas e francesas como a Farandole, ou a Carmagnole (canção popularizada durante a Revolução Francesa, da qual resultou uma dança de grupo).

Sob os sete planos inclinados que compõem o espaço cénico, os bailarinos deambulam de mãos dadas, desenhando uma coreografia meticulosa, de pequenos saltos, passos e rodopios, exprimindo a alegria jovial das celebrações populares.

Todavia, como nas recentes criações de Maguy Marin pautadas pela escuridão e o sombrio, de que são exemplo Nocturnes (2012) ou Faces (2011), o gozo e a animação são entorpecidos por um pendor trágico e negativo. Em fim de dança, a única figura feminina jovem é seduzida por um bailarino mais velho e, com a teatralidade que Marin subscreve da linhagem da dança teatral alemã, representativa na obra de Pina Bausch, os gestos deixam adivinhar uma tentativa de violação.

Segue-se um momento de penumbra. O plano inclinado central cobre-se de vermelho e sobre ele descem, um a um, corpos dos bailarinos semi-nus que se vão movendo de corpo em corpo, na horizontal, teatralizando os ritmos da penetração sexual.

Num terceiro momento, figuras com trajes religiosos que nos reportam ao imaginário cristão medieval, dando início a rituais macabros onde discernimos a presença de ouro, e que culminam numa explícita imagem de violação colectiva.

No último momento — um eterno retorno que nunca é o retorno do mesmo — regressam os alegres bailarinos ao palco, reiterando as danças populares com risos e euforia ensombradas pelas cenas anteriores. Um a um, no limite do plano inclinado, os bailarinos vão ser abandonando na invisibilidade da queda no vazio.

Trata-se de uma peça que reflecte sobre a condição humana, a clivagem entre o individual, suas fragilidades e virtudes, e a difícil contemplação de imaginários colectivos, com a perda da crença nas utopias do século XX, e a escalada recente dos populismos e nacionalismos.

Contudo, na sua tentativa de fazer “surgir essas forças diagonais resistentes ao esquecimento”, uma frase de Hannah Arendt que cita frequentemente, Marin serve-se de alguns clichés que fragilizam a peça pela sua redundância e literalidade. Refiro-me às imagens de luxúria e ganância que nos remetem para os sete pecados capitais, exemplificados nos sete planos inclinados do cenário, por onde os bailarinos deslizam e se perdem.

A exposição desconcertante das imagens de violação, recebidas pelo público com alguma aversão, não estão em sintonia com a obra desta coreógrafa, informada pela revolução feminista de Maio de 68, e que convoca as problemáticas sociais e políticas.

Explícita é também a referência à relação entre o cristianismo e o capitalismo, referenciado por Walter Benjamin, um autor que tem informado Marin na sua “organização do pessimismo”. No fragmento Capitalismo enquanto religião, Benjamin refere como o capitalismo é essencialmente um fenómeno religioso, pelo facto de servir essencialmente a satisfação e resolução das mesmas preocupações e tormentas para os quais as religiões propõem respostas, tormentas essas que estão intrinsecamente associadas à inescapável finitude humana.

Integramos um capitalismo mutante, não mais o industrial que capitalizava a maquinação produtiva do gesto humano, mas a subjectividade e a capacidade cognitiva numa info-esfera de bits que formata não só a nossa ecologia mental, mas também comportamental e social.

“Organizar o pessimismo”, referia Benjamin, “significa nada mais do que expelir a metáfora moral da política e descobrir no espaço da acção política o cem por cento do espaço da imagem”.

Todavia, se seria este espaço total da imagem que Marin procurava, não será na literalidade da evidência e na redundância das citações sobre a natureza humana que o encontraremos, natureza esta difícil de desenhar na complexidade contemporânea de conectividades que informam hoje a nossa ecologia mental e social.