Isaltino teve muita gente a aplaudir e vêm aí mais “dinossauros”

"Caso, como acredito, ganhe as eleições do próximo dia 1 de Outubro, entrarei na Câmara de Oeiras como se fosse o meu primeiro dia”, disse Isaltino Morais na apresentação da sua candidatura. Não é o único dinossauro da política a regressar nestas autárquicas.

Fotogaleria
Isaltino regressa agora com o movimento "Inovar Oeiras de volta" Miguel Manso
Fotogaleria
Isaltino regressa agora com o movimento "Inovar Oeiras de volta" Miguel Manso
Fotogaleria
Isaltino regressa agora com o movimento "Inovar Oeiras de volta" Miguel Manso

Parecia um casamento. Num relvado, houve direito a momento musical, com um refrão para repetir “Isaltino”, houve direito a apresentadores que diziam graças ao microfone, houve direito a vídeo, no qual um munícipe dizia que onde Isaltino “pôs a mão foi bom”, houve abraços e cumprimentos a Isaltino Morais, o homem que se recandidata em Oeiras, depois de ter estado preso por fraude fiscal e branqueamento de capitais.

Isaltino apresentou nesta quarta-feira a sua candidatura à presidência da Câmara Municipal de Oeiras, nos jardins do Palácio dos Aciprestes, em Linda-a-Velha. Aos jornalistas, o autarca que esteve 24 anos à frente da Câmara de Oeiras — antes de cumprir pena na Carregueira e deixar a gestão do município a Paulo Vistas, o antigo delfim que agora é mais um rival na corrida autárquica - garantiu que nenhuma passagem do seu discurso se dirigia aos seus adversários políticos: nem a Joaquim Raposo (que liderou a Câmara da Amadora e agora se candidata pelo PS a Oeiras), nem ao actual autarca Paulo Vistas, nem a qualquer outro candidato. Aliás, sublinhou não ter adversários políticos, não querer “fulanizar” a campanha, nem estar interessado nos apoios partidários: “O que é importante é o povo.”

Mas as palavras que disse, diante do painel com o nome do movimento “Inovar Oeiras de volta”, deixam pouca margem para dúvidas. “Não consigo entender este modo recente de ver alguém que ora é presidente de uma câmara e logo passa para outra! É como se houvesse uma nova categoria profissional: os presidentes de câmara profissionais! Eu não consigo entender. Muita vez me desafiaram para ser candidato noutros municípios. Nunca quis. Só há duas terras onde eu poderia ter uma função autárquica: aquela onde nasci [Mirandela] e Oeiras, onde sou feliz!”

Apesar de negar que estava a criticar Paulo Vistas, Isaltino lamentou a governação do município. “Tenho de vos confessar: quando assisto à fragilização da identidade deste município, à perda de vantagens competitivas que tanto custaram a construir, vivo mal. Sinto-me mal quando não vejo Oeiras no top.” O candidato, que garante que é a “servir” que é “feliz”, acrescentou ainda: “Porque sinto e conheço o potencial deste município, custa-me não o ver devidamente aproveitado.”

Isaltino, que fez questão de dizer que o seu movimento não tem qualquer apoio ou “cartilha partidária”, falou ainda na democracia como “um verdadeiro código moral” e contou que, nos últimos meses, foi “incessantemente questionado” sobre se seria candidato. Afirmou que isto aconteceu “centenas” de vezes “seguramente”, “talvez milhares, quase de certeza”. E mostrou-se confiante na vitória: “Caso, como acredito, ganhe as eleições do próximo dia 1 de Outubro, entrarei na Câmara de Oeiras como se fosse o meu primeiro dia.” Questionado pelos jornalistas sobre se o facto de ter estado preso o pode prejudicar, Isaltino respondeu que isso são águas passadas: “A minha credibilidade decorre do meu trabalho.”

Na cerimónia distribuíram-se ainda postais com a fotografia de Isaltino e a legenda “o seu amigo de sempre”, pediram “um aplauso ao homem que construiu Oeiras do zero”, chamaram ao palanque Jorge Vadio que pediu ajuda ao público para entoar o refrão “Isaltino” e que terminou dizendo: “O povo de Oeiras ama Isaltino!”

Outros “com muito para dar”

Apesar de Oeiras ser um caso peculiar, não é só neste concelho que antigos presidentes estão de regresso. Fernando Costa, que liderou a Câmara das Caldas da Rainha durante sete mandatos, candidata-se agora a Leiria, sua terra natal. “Nunca deixei de ser candidato, ao contrário de Isaltino Morais”, afirma o ainda vereador da Câmara de Loures, autarquia à qual se candidatou em 2013. “Sinto-me novo, cheio de força e de ideais autárquicos e sempre preferi ser autarca do que deputado”, assume, explicando que se candidata agora a Leiria porque “desta vez o PSD esteve todo unido” à volta do seu nome. “Nasci, vivi e estudei em Leiria. A minha paixão de vida foi ser autarca. O meu primeiro emprego foi na Câmara de Leiria e, quando saí para ir para a Universidade de Lisboa estudar, disse aos meus colegas: Eu hei-de voltar um dia e voltei como presidente que teve sete maiorias absolutas”, declara.

Mas há uma outra razão que explica a sua candidatura: a “pesada carga de impostos municipais que a autarquia pratica”. “Em Leiria as pessoas pagam mais 25% do que os munícipes das Caldas da Rainha”, aponta o social-democrata, para quem a “Câmara de Leiria tem muita falta de transparência, muita falta rigor na fiscalização das obras e um presidente muito ausente que passa a vida a viajar”.

Adiantando que, sendo eleito, vai pedir uma auditoria às contas do município, Fernando Costa admite que a sua candidatura “afronte os grupos de interesses instalados à volta do presidente da câmara [Raul de Castro, independente eleito nas listas do PS] e do vereador das Obras Municipais [Lino Dias Pereira], não o PS. Há muitos socialistas que apoiam a minha candidatura”.

Mais a norte, em Matosinhos, há outro “dinossauro” a entrar na corrida. Narciso Miranda, que chegou a ser considerado pelo PS um “autarca modelo”, disputa como independente a presidência da câmara, que liderou durante 28 anos. “Se sentisse que a minha candidatura era contra alguém ou prejudicasse alguém ou que gerasse fragilidades na terra que eu amo, nem sequer pensava em candidatar-me”, diz. “A minha candidatura não é contra ninguém; a minha candidatura é a favor das pessoas, é a favor de Matosinhos”, reafirma Narciso. E diz que a sua candidatura tem a ver com “a falta de respeito e de consideração pelo concelho relativamente à escolha da candidata [do PS] à câmara, que foi imposta”.

“Em Matosinhos estávamos todos sossegados, se António Costa tivesse dito, como o fez no caso do Porto, que se é isso que os matosinhenses querem, então faça-se assim”, precisou, referindo-se à entrevista de Rui Moreira ao PÚBLICO desta quarta-feira.

Avelino Ferreira Torres, eleito durante vários mandatos pelo CDS, presidente da Câmara do Marco de Canaveses, candidata-se a Amarante como independente. É segunda vez que tenta ser eleito presidente da câmara do concelho onde nasceu há 71 anos e quer “promover e dinamizar”. “Entendo que tenho muito a dar a Amarante”, declara, reforçando que não se candidata contra ninguém. “Se eu ganhar, ganha o povo”, diz. com Margarida Gomes