Crítica

Bob Dylan: o que nunca deixaremos de cantar

Em Triplicate Bob Dylan aventura-se pela terceira vez pelo cancioneiro clássico americano. Canta, sábio e humilde, para dar voz ao que permanece.

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Não é tanto uma questão de tornar as canções suas, antes a de saber como habitá-las

Este é, tal como os anteriores, um álbum de sageza interpretativa. Uma sageza para a qual não basta o génio — é necessária também a vida, vida vivida, vida longa. Quem canta estas canções sabe–o muito bem. Sabe, por exemplo, que o jovem irrequieto e impertinente que foi outrora não as poderia cantar — aliás, nem sequer quereria aproximar-se delas, coisas de um antes antigo tão distante do presente vivo e agitado que era o seu. “Significam muito mais para mim agora”, confessou recentemente esse cantor que já não é o jovem de outrora. “Agora, vivi-as, vivi através delas e compreendo-as muito melhor”, disse Dylan, o bardo, o revolucionário da canção americana, o surpreendente último Nobel da Literatura, confirmando aquilo que já sabíamos.

Triplicate já não é uma surpresa. Falamos, afinal, do mais recente álbum da incursão de Dylan pelo cancioneiro clássico americano, iniciada com Shadows in the Night e que teve continuidade em Fallen Angels. Triplicate, álbum triplo composto de 30 canções, surge neste contexto como o argumento definitivo para a sua posição enquanto protector da América clássica, o homem que canta aquilo que permanece. Estas canções, que foram (quase) todas cantadas por Frank Sinatra, que foram também cantadas por Sarah Vaughn, por Nat King Cole ou Ella Fitzgerald, que foram compostas por gigantes como Irving Berlin, Sammy Cahn e Jimmy Van Heusen, Hoagy Carmichael e Rodgers & Hammerstein, são ilustrações e reflexões sobre o que é a vida que sorri ou que escolhe atormentar-nos, os amores que nascem e morrem enquanto mudam as estações e, principalmente, sobre o que fazemos com o tempo que passa: “It’s still the same old story / a fight for love and glory / a case of do or die / the world will always welcome lovers / as time goes by”.

Apoiado por uma pequena banda de cinco elementos, onde se destaca o pedal-steel de Donnie Herron, que canaliza com elegância a aqui ausente opulência orquestral dos originais, à qual se junta, ocasionalmente, uma pequena secção de sopros ou, por exemplo, um violoncelo (magnífico na entrada de “How deep is the ocean”), Dylan, o intérprete, canta com justa discrição. Não é tanto uma questão de tornar as canções suas, antes a de saber como habitá-las. E ele, hoje com 75 anos, sabe exactamente como o fazer: grava as canções ao vivo, sem dobragens, fiel às composições originais, devidamente adaptados ao combo reduzido, e deixa que as palavras, naquela voz gasta e nasalada, mas capaz de doçura, revelem a sua verdade. Nesse processo, os standards ouvidos e regravados milhentas vezes, como As time goes by ou Stormy weather tornam-se “apenas” peças tão necessárias quanto as demais para o mundo aqui construído.

Ainda assim, há algo que sobressai: as canções em que se olha para a passagem do tempo, as de questionamento de vida, brilham na sua cadência lenta de uma forma que os números mais swingados, como Braggin’, não conseguem atingir. O Dylan que caminha entre as sombras, seguro dos seus passos, apesar da penumbra (ou por causa dela), é aqui o melhor Dylan — September of my years, gravada por Sinatra quando chegou aos 50 anos de idade (e para assinalar a nova condição de cinquentão), é nada menos que primorosa.

No fim, sobra uma pergunta, que é a de sempre. “Why was I born? / Why I am living? / What do I get? / What am I giving?”. Cantemos o que cantarmos, nunca deixaremos de cantar isto. E é isso que Dylan, sábio e humilde, aqui canta tão bem.