Já há mais sul-coreanos a pernoitar em Fátima do que brasileiros

Na última década, o Santuário de Fátima tem vindo a assistir a um crescimento de visitantes do continente asiático. Já há mais sul-coreanos a pernoitar no município do que brasileiros.

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Nelson Garrido
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Espanha, Itália e Polónia. São estes os países de origem dos visitantes estrangeiros que tradicionalmente compõem o topo da tabela dos que mais acorrem ao Santuário de Fátima. A proximidade geográfica, a ligação ao Vaticano, em Roma, e a relação do Papa João Paulo II com o santuário ajudam a interpretar esta ordem. No entanto, do Sul da Península da Coreia vem uma vaga crescente. Os sul-coreanos figuram consistentemente na lista das dez nacionalidades com mais presença em Fátima na última década e o número mais do que duplicou. Segundo os dados enviados pelo Santuário de Fátima ao PÚBLICO, registaram-se 1583 peregrinos da Coreia do Sul em 2007. Em 2016, foram 4014.

Jeon Young Koo integra um desses grupos. Em frente à Capelinha das Aparições, conta num inglês precário que vem de Seul e que é católico, daí a ida pela primeira vez a Fátima, onde a excursão fica dois dias. Explica também que na Península Ibérica a grande parte do percurso se faz do outro lado da fronteira: Madrid, Toledo, Ávila e, claro, Santiago de Compostela.

Nos números do Santuário de Fátima estão apenas os grupos de visitantes que se registam, ou seja, há uma grande fatia de turistas e peregrinos que passa pelo recinto a título individual e que fogem a esta contabilidade.

No entanto, os dados sobre peregrinos registados podem ser cruzados com os da Associação Empresarial Ourém – Fátima (ACISO) para perceber melhor a dimensão do fenómeno. A associação, que compila as últimas informações disponibilizadas pelo INE, mostra que os sul-coreanos registavam 6846 dormidas no município em 2010 e que o número cresceu para 26.618 em 2014, ultrapassando as dormidas de cidadãos dos Estados Unidos, ou do Brasil, ou da Polónia, por exemplo.

O assessor político da embaixada da Coreia do Sul em Portugal, Byung Goo Kang, ensaia uma explicação para a subida. “Nas últimas três décadas aumentou bruscamente o número de católicos na Coreia”, refere por email, acrescentando que, com o aumento do poder de compra, os turistas coreanos também têm saído mais do país.

Outro factor é a conversão religiosa. De acordo com os dados de 2005 fornecidos pela embaixada, o budismo continuava a ser a fé com mais crentes, tendo 10,7 milhões de devotos, quando eram 8 milhões em 1985. O número de protestantes também aumentou ligeiramente, de 6,4 para 8,6 milhões. Mas a população católica no país mais do que duplicou nesse intervalo de duas décadas: eram 1,9 milhões em 1985, em 2005 já eram 5,1 milhões. Com este ritmo de crescimento, parte dos fiéis acaba por visitar os santuários católicos espalhados pelo mundo.

O “altar do mundo” e as ligações a Portugal

Mas os coreanos não são os únicos. A responsável do gabinete de comunicação do Santuário, Carmo Rodeia, diz que, relativamente ao número de peregrinações organizadas, os países que mais têm aumentado a sua presença são da Ásia.

Em 2016, os peregrinos da Indonésia, Coreia do Sul, Índia e Filipinas representaram mais de 11% dos que se registaram, quando em 2015 a percentagem era 6%. Há dez anos os provenientes destes quatro países não atingiam mais que 2,3%.
“Quando se diz que Fátima é o ‘altar do mundo’, não é um slogan, é uma realidade”, diz Carmo Rodeia.

A responsável explica que o Santuário não faz um trabalho de autopromoção junto destes mercados, mas que participa anualmente no encontro da Associação de Peregrinos Italianos e integra “várias redes de santuários” onde o “destino Fátima” acaba por ser promovido. Relativamente ao turismo religioso, esse trabalho acaba por ficar mais a cargo da Turismo de Portugal e agências.

A porta-voz acrescenta que “não se pode entender o turismo religioso em Portugal sem Fátima, assim como não se pode entender o turismo religioso mundial sem Fátima. A mensagem de Fátima tem 100 anos de consolidação”, menciona.

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Indonésia em 1.º entre os asiáticos

Quanto a países asiáticos, em 2016, o número de sul-coreanos em Fátima, foi apenas superado pelos indonésios, país de 260 milhões de habitantes onde a larga maioria da população é muçulmana. Mais de 5 mil deram entrada no recinto, quando de 2015 para trás o número tinha estabilizado em cerca de um milhar.

As relações entre os dois países têm 500 anos de história e é partindo desse ponto que se pode entender o volume de Indonésios em Fátima. Karina Wulandari, assessora da embaixada em Lisboa, explica que uma parte significativa dos 5 mil que foram ao Santuário no ano passado vem da ilha de Flores, que foi parte do império colonial português. Nesse distrito, cuja capital é Larantuca e onde a herança cultural lusófona ainda se faz sentir, a maioria da população é católica.

Mais recentemente, em 2013, o presidente da Câmara Municipal de Ourém, Paulo Fonseca, visitou a província e, em 2015, o presidente de Larantuca visitou Fátima, trazendo consigo um grupo de operadores turísticos, recorda a assessora.

Os turistas indonésios não vêm exclusivamente de antigos territórios ocupados por Portugal. Vêm também de territórios de maior influência chinesa e aproveitam a estadia na Europa para fazer o percurso até Santiago de Compostela e depois até Lourdes, refere Karina Wulandari.

Exceptuando os sul-coreanos, que representam mais de metade das dormidas em Ourém, os restantes países asiáticos não aparecem discriminados na informação da ACISO, mas o mercado está em crescimento. Registavam-se pouco mais de 18.177 dormidas de turistas deste continente em 2010 e já eram 48.213 em 2014. De acordo com os registos do santuário, indianos, filipinos, chineses e cingaleses são outros dos principais peregrinos asiáticos.   

Um repetente das Filipinas

Anthony Raj descansa junto a uma dos muretes laterais do recinto, enquanto a família cumpre o percurso de joelhos pelos mosaicos polidos até à Capelinha das Aparições. É padre em Itália, mas nasceu na Índia, em Bangalore, no sul do país, uma cidade com 8,7 milhões de habitantes em que a esmagadora maioria das pessoas é hindu e os católicos, a terceira religião, não chega ao meio milhão.

Tanto ele como a família, que vive no Reino Unido, fizeram a viagem exclusivamente para visitar Fátima pela primeira vez. O padre Raj conta que, sendo cristão “nascido e baptizado”, não se lembra de não ter ouvido falar sobre Fátima e por isso fazia sentido visitar o Santuário.

Um pouco mais distante da Capelinha das Aparições, perto da Basílica da Santíssima Trindade está Bo Sanchez, que viajou desde Manila, Filipinas. À semelhança do que referiu a responsável da Embaixada da Indonésia, Sanchez, que é crente, aproveita a visita à Europa para percorrer também outros pontos nevrálgicos do catolicismo, como Lourdes e Roma. Veio em grupo. E não é uma estreia: “É a terceira ou quarta vez que visito Fátima.”