Exclusão de Ahmadinejad agita início da campanha presidencial iraniana

Presidente Rohani tem como principal rival o conservador Ebrahim Raisi numa eleição que é vista como um referendo ao acordo nuclear.

Ahmadinejad desafiou uma ordem do ayatollah Ali Khamenei para não se candidatar
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Ahmadinejad desafiou uma ordem do ayatollah Ali Khamenei para não se candidatar Asmaa Waguih/Reuters

Arrancou esta sexta-feira a campanha eleitoral para as presidenciais no Irão, vistas como um referendo ao acordo nuclear que foi a peça central do primeiro mandato do moderado Hassan Rohani. O Presidente cessante foi um dos seis candidatos (de um total de mais de 1600) que passou o crivo do Conselho dos Guardiães para concorrer às eleições de 19 de Maio, sendo o seu principal rival Ebrahim Raisi, antigo procurador-geral tido como o favorito do Supremo Líder iraniano, o ayatollah Ali Khamenei.

Nas próximas semanas as duas alas do regime islâmico voltam a medir forças, num embate poderá ser crucial para a cada vez mais discutida sucessão de Khamenei, de 77 anos, notou o correspondente do Financial Times em Teerão. O início da campanha, porém, ficou marcado pela notícia da exclusão do ex-Presidente Mahmoud Ahmadinejad, o ultraconservador cuja polémica reeleição, em 2009, gerou as maiores manifestações da história da República Islâmica e que, no seu segundo mandato, entrou em rota de colisão com o Supremo Líder.

Para grande surpresa do país, Ahmadinejad inscreveu-se como candidato, num desafio inédito a Khamenei que, há meses, o tinha desaconselhado publicamente a entrar na corrida, dizendo que o regresso da “polarização” era “prejudicial ao país”. O ex-Presidente disse que “o conselho [de Khamenei] não era uma proibição” e explicava que a sua intenção era desistir em favor do seu antigo vice-presidente, Hamid Barghaie – uma táctica habitual na política iraniana, que foi um dos trunfos usados por Rohani para vencer as presidenciais de 2013 à primeira volta.  

No entanto, o Conselho – que avalia os candidatos com base nas suas credenciais religiosas, incluindo a obediência ao Supremo Líder – chumbou os dois candidatos, numa decisão que arrisca enfurecer os apoiantes de Ahmadinejad, muito popular ainda nos sectores mais pobres do país. Uma testemunha contou à Reuters que “cerca de 50 polícias bloquearam os acessos à rua onde vive o ex-Presidente possivelmente para evitar ajuntamentos de apoiantes”. As forças de segurança reforçaram também a sua presença nas principais praças de Teerão mal foram anunciados os nomes dos seis candidatos aprovados.

Uma lista que integra tantos moderados como conservadores, mas as atenções estão postas no previsível confronto entre Rohani (que se recandidata tendo como trunfo o levantamento das sanções internacionais, que coroaram o acordo de 2015) e Raisi, uma figura da linha dura do regime, recentemente nomeado por Khamenei para liderar a mais poderosa fundação religiosa do país. É um crítico do acordo nuclear, que os conservadores vêem como uma capitulação ao Ocidente, e do desempenho económico do Governo de Rohani, a quem acusa de não ter conseguido usar o fim das sanções para melhorar o nível de vida dos iranianos e reduzir o elevado desemprego jovem.